Cimed investe R$ 80 milhões para levar cosméticos coreanos às farmácias brasileiras
Farmacêutica prepara o lançamento da Mili, sua primeira linha de skincare, e reúne representantes de empresas que respondem por cerca de 60% do varejo farmacêutico brasileiro na Missão Coreia 2026

Às vésperas de completar 50 anos de atuação no Brasil, a Cimed amplia sua presença no setor de beleza com o laçamento de Mili, sua primeira linha de skincare, que chega ao país nos próximos meses com produtos da Coreia do Sul.
A nova aposta da farmacêutica para expandir seu market share conta com investimento de R$ 80 milhões. A linha de skincare será lançada no mercado brasileiro em novembro e terá fórmulas desenvolvidas em parceria com uma fabricante sul-coreana GDK Cosmetics. Os primeiros produtos terão preços entre R$ 100 e R$ 200.
O anúncio ocorre durante a Missão Coreia 2026, iniciativa organizada pela farmacêutica para reunir executivos e representantes de redes de farmácias brasileiras em Seul. A programação prevê visitas a unidades industriais, centros de pesquisa e desenvolvimento e estabelecimentos comerciais, com foco em tecnologias, hábitos de consumo e modelos de negócio adotados no país asiático.
A viagem ocorre em meio ao crescimento da presença de cosméticos sul-coreanos no Brasil. Segundo um levantamento da Korea Customs Service, órgão responsável pelas estatísticas aduaneiras da Coreia do Sul, as importações brasileiras desses produtos aumentaram 951% em 2025 e alcançaram US$ 54,36 milhões.
Para João Adibe, CEO da Cimed, o hype desses produtos nas redes sociais ajudou a revelar uma oportunidade de negócios. Ele ressalta que o movimento ganhou força com consumidores e influenciadores recomendando cosméticos coreanos, antes mesmo de uma atuação mais intensa das marcas no país.
“Esse fenômeno cresceu e se popularizou muito rápido no Brasil, principalmente pela digitalização. Isso chamou a nossa atenção: por que não criar a nossa comunidade com um produto fabricado na Coreia?”, afirmou Adibe à EXAME.
A expansão desse mercado está entre os fatores que motivaram a Cimed a aprofundar suas relações com fabricantes e fornecedores asiáticos. A companhia pretende utilizar o conhecimento adquirido na região para desenvolver produtos destinados ao consumidor brasileiro.
Adibe conta que frequenta a Coreia do Sul há mais de cinco anos. A aproximação começou pelo mercado de preenchedores estéticos, no qual a farmacêutica atua com sua marca Milimetric, e abriu caminho para acompanhar o avanço dos cosméticos sul-coreanos em outros países.
“Nessas idas e vindas, começamos a ver o cosmético coreano saindo da Coreia e ganhando o mundo, não só o Brasil, mas os Estados Unidos e a Europa. Como já estávamos naquele mercado de estética, vimos uma oportunidade de nos antecipar”, conta.
A entrada da Cimed no segmento de cuidados com a pele será realizada por meio da Mili, marca que contará inicialmente com sete SKUs (sigla em inglês utilizada no varejo para identificar diferentes produtos ou versões de um item).
Cimed chega a Portugal com Flavy, a versão europeia de Carmed, e projeta faturar R$ 6 milhõesDNA coreano e tempero brasileiro
Mili, nova linha de produtos de skincare da Cimed. (Cimed/Divulgação)
A produção ficará centralizada na Coreia do Sul, nas mãos da GDK Cosmetics, enquanto a comercialização e a distribuição no Brasil serão conduzidas pela própria Cimed, segundo Adibe.
“Não é simplesmente um produto importado pronto. É um produto feito exclusivamente para a Cimed, com tecnologia coreana e adequado às normas da Anvisa”, afirma.
A linha utilizará fórmulas que combinam o ativo METAexosome L55 com um complexo de peptídeos, moléculas formadas por cadeias de aminoácidos e utilizadas em formulações cosméticas.
A proposta da Cimed é desenvolver um portfólio baseado em exossomos, partículas extracelulares estudadas por sua participação na comunicação entre células, e peptídeos, ingredientes presentes em produtos para cuidados com a pele.
O desenvolvimento da marca foi precedido por um período de três meses de pesquisa e prospecção conduzido por profissionais da Cimed na Ásia. Durante esse processo, a equipe visitou 18 cidades distribuídas entre Coreia do Sul, China, Taiwan e Japão, identificou mais de 60 fornecedores e participou de feiras e congressos da indústria.
A companhia já iniciou os primeiros lotes de importação e pretende chegar ao fim do ano com a marca em 10 mil pontos de venda. A distribuição será concentrada nas farmácias, que devem responder por 80% da operação, com os demais canais representando os outros 20%. O executivo adiantou à EXAME que a expectativa é faturar até R$ 150 milhões na fase inicial da linha Mili.
O lançamento dos sete produtos será a primeira etapa de uma expansão do portfólio. João Adibe prevê uma nova linha no primeiro trimestre de 2027 e lançamentos trimestrais, com cinco a dez SKUs associados a cada nova molécula. A ambição é encerrar o próximo ano com 100 SKUs na categoria e espaço próprio para a Mili nas farmácias.
Parte dos R$ 80 milhões investidos nessa linha de produtos será destinada a estoque, marketing, ações comerciais no varejo e treinamento das equipes dos pontos de venda. O executivo destaca que a possibilidade de experimentar os produtos será importante para a estratégia.
“Não adianta fazer marketing se não prepararmos os pontos de venda. Vamos ter um time de treinamento muito forte. É um produto que precisa de demonstração. Existe um trabalho educativo que teremos de fazer”, explica o CEO da farmacêutica.
Cimed leva ao Brasileirão estratégia que triplicou vendas na Copa do MundoA jogada para seduzir os consumidores
Como parte da estratégia, a Cimed pretende aproveitar a experiência com o Carmed — linha de hidratantes labiais que ganhou popularidade no Brasil nos últimos anos — para construir uma comunidade em torno da nova marca. A proposta, segundo João Adibe, é estimular uma rotina de cuidados com a pele desde a juventude, com interesse em consumidores a partir dos 15 anos, embora a Mili tenha público e preços diferentes em comparação com o hidratante labial.
“Eu sonhei com o Carmed e realizei o Carmed. Agora, acredito que podemos criar uma nova comunidade. Queremos aproveitar esse aprendizado para mostrar como o cuidado com a pele pode fazer parte da vida das pessoas”, diz.
E acrescenta: “O público de Mili é um pouco mais velho que o de Carmed, e estamos falando de um produto de valor agregado mais alto. Existe um processo educativo. O que a Cimed quer fazer é construir o mercado”.
Dados da Euromonitor International e da Kantar Brasil indicam que 56% do consumo de produtos de beleza e cuidados pessoais se concentram na faixa etária de 25 a 54 anos, com predominância do segmento de 26 a 40 anos. Embora as gôndolas desses itens sejam, historicamente, mais esvaziadas pelo público feminino, o interesse no autocuidado tem crescido entre os homens nos últimos anos.
O levantamento mostra que a participação masculina no segmento cresceu, com buscas por produtos de cuidados com a pele e fragrâncias. Atualmente, o Brasil ocupa a posição de 2º maior mercado mundial em produtos masculinos.
Diante desse avanço, João Adibe vê espaço para ampliar a conexão com os homens brasileiros. Por outro lado, sua meta não é apenas atingir os homens que já adotam o autocuidado na rotina, mas principalmente aqueles que ainda "torcem o nariz" para produtos e serviços de estética.
“Um dos nossos papéis é pensar como vamos nos comunicar com os homens que ainda não usam esses produtos”, afirma.
O varejo de experiência entra em cena
Representantes de redes de farmácias brasileiras na Missão Coreia, organizada pela Cimed. (Divulgação)
A Missão Coreia 2026 também faz parte do plano da Cimed de aproximar fabricantes, distribuidores e redes de farmácias das práticas comerciais e tecnológicas observadas no mercado sul-coreano.
Segundo Adibe, uma viagem realizada no ano passado reuniu representantes de 26 grandes redes de farmácias. A edição atual terá cerca de 250 participantes, incluindo empresas do varejo alimentar, perfumarias e drogarias.
A delegação inclui representantes de empresas que, em conjunto, respondem por aproximadamente 60% do varejo farmacêutico brasileiro, de acordo com a companhia.
Em Seul, os participantes terão acesso a fábricas, centros de pesquisa e desenvolvimento e farmácias locais. As visitas buscam apresentar formatos de comercialização, exposição de produtos e relacionamento com consumidores utilizados no país, o chamado "varejo de experiência".
Nesse formato, as lojas físicas deixam de ser apenas pontos de venda para se transformarem em espaços de convivência, interação e conexão com a marca. O executivo conta que esse modelo de negócio já conquistou muitas das empresas participantes do programa, como a RD Saúde.
“O varejo coreano se transformou em um varejo de experiência. As marcas levam fluxo para as lojas por meio dos seus produtos e da experiência de consumo. Quando eu fiz isso, eu acendi a luz dos grandes players. Como foi o caso da RD Saúde, que já começou a aplicar esse formato em suas lojas”, afirma Adibe.
Para o executivo, a aproximação com os varejistas precisa ir além da venda da indústria para as redes. A intenção é apresentar práticas que ajudem os parceiros turbinar suas vendas ao consumidor final.
“Não basta vender para o varejo. Tenho de mostrar como eles fazem o produto chegar ao consumidor”, diz.
A iniciativa também permitirá que as redes brasileiras conheçam processos de desenvolvimento de cosméticos e tecnologias empregadas pela indústria sul-coreana, com possibilidade de adaptação de práticas ao mercado nacional.
Adibe avalia que a experiência coreana mostra como lojas físicas e canais digitais podem atuar de forma complementar.
“O que vai agregar nessa viagem é mostrar como um país com tanta tecnologia e digitalização consegue unir essas duas coisas e levar fluxo para o varejo. O marketplace e o comércio eletrônico não vão acabar com a experiência da loja”, afirma.
Outra frente de negócios apresentada pela Cimed durante a viagem é a expansão da Milimetric, marca destinada a profissionais que atuam com procedimentos de estética injetável. Segundo Adibe, após o investimento de R$ 200 milhões na criação e produção da marca, Milimetric tem projeção de faturamento superior a R$ 400 milhões para 2026.
A empresa anunciou a ampliação do portfólio, com novas apresentações de volume e a inclusão de produtos como o Ácido Hialurônico Milimetric PRO Biohyalux, desenvolvido com tecnologia BDDE, substância utilizada no processo de reticulação do ácido hialurônico para modificar suas propriedades físicas.
A missão também reúne cerca de 60 profissionais de estética para a apresentação do primeiro preenchedor corporal da Cimed, ampliando a atuação da marca para além dos produtos destinados à face.
“Até então, tínhamos apenas o preenchedor facial. Agora, vamos disputar o mercado de preenchedores corporais. Falta pouco para completarmos o portfólio e conseguirmos disputar ponto a ponto com os nossos concorrentes”, diz Adibe.
A linha Milimetric PRO reúne produtos formulados a partir de substâncias utilizadas em procedimentos estéticos, entre elas ácido hialurônico, ácido poli-L-láctico (PLLA), hidroxiapatita de cálcio e polidioxanona (PDO).
A Cimed também acompanha pesquisas e aplicações de outras tecnologias presentes no mercado sul-coreano, como polinucleotídeos (PN), PDRN, derivado de fragmentos de DNA, e exossomos.
Essas substâncias integram diferentes frentes de pesquisa e desenvolvimento relacionadas à medicina estética e aos processos de regeneração tecidual. Suas aplicações dependem das características de cada produto e das exigências regulatórias dos mercados em que são comercializados.
A relação com fabricantes da Coreia do Sul permite à farmacêutica acompanhar o desenvolvimento de matérias-primas, formulações e tecnologias antes de sua eventual introdução no Brasil. Para Adibe, essa proximidade será importante para acompanhar a frequência de lançamentos da indústria sul-coreana.
“A Coreia é quase um fast fashion nesse mercado. Tenho de estar à frente, por isso escolhi ter um parceiro lá. Já acompanho o que ele vai lançar e, em paralelo, faço o trabalho de registro para tentar ter o produto aqui quando ele for lançado lá”, afirma.
Após a identificação de produtos e fornecedores, a Cimed conduz etapas de avaliação técnica, validação e adequação às exigências regulatórias da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Segundo o executivo, a obtenção dos registros dos produtos de estética levou aproximadamente três anos.
“Não é simplesmente importar um item. É adaptar às normas da Anvisa para ter um produto fabricado na Coreia e comercializado por uma indústria farmacêutica no Brasil. Achávamos que seria mais rápido, mas o processo foi mais lento”.
Adibe considera que conciliar o ritmo de desenvolvimento coreano com os prazos regulatórios brasileiros será um dos principais desafios da operação. “Existe muita pesquisa envolvida. O grande trabalho é acompanhar a velocidade da Coreia e conseguir regulamentar essas novidades dentro das normas da Anvisa”, afirma.
Os próximos passos
Com a chegada da Mili e a expansão da Milimetric, a companhia passa a atuar em duas frentes do mercado de beleza: cosméticos para cuidados com a pele e produtos destinados à estética injetável. As iniciativas fazem parte de um esforço de diversificação do portfólio da farmacêutica, que completa cinco décadas de operação no mercado brasileiro.
Segundo Adibe, a área de beleza e estética representa hoje cerca de 5% do negócio da Cimed. A expectativa é que essa participação alcance 20% em 2030.O executivo afirma que os negócios fora de medicamentos terão papel central na ambição de dobrar o tamanho da companhia. A estratégia inclui tanto categorias de consumo amplo, como higiene bucal e desodorantes, quanto segmentos mais específicos, como skincare e estética.
“A nossa ambição de dobrar a companhia está muito mais nas novas categorias. Medicamentos têm um crescimento orgânico, enquanto essas frentes partem de uma base pequena e abrem espaço para expansão”.
Para Adibe, o crescimento dependerá de ampliar o acesso a produtos ainda concentrados nas faixas de maior renda. Ele estima que o mercado brasileiro de preenchedores movimente entre R$ 5 bilhões e R$ 7 bilhões, dimensão que considera pequena diante do tamanho da população.
“Quanto mais conseguirmos escalar, mais a população poderá ter acesso e entender esses produtos. Para ter acesso, é preciso ter escala”, afirma.
