Citi desiste da tese da Braskem (BRKM5), corta o preço-alvo em 60% e revela risco que o mercado pode estar ignorando

Antes de dizer se a Braskem (BRKM5) conseguirá atravessar sua maior crise em anos, o Citi respondeu a uma pergunta mais imediata para o investidor: o que fazer com as ações agora. E, para os analistas, é hora de jogar a toalha.
Depois de analisar o plano de reestruturação financeira apresentado pela petroquímica — e a decisão da companhia de recorrer à Justiça para ganhar tempo nas negociações com credores —, o banco norte-americano avaliou que o risco da tese de investimento mudou de patamar.
Para os analistas, o Projeto Catalyst, criado para aliviar a pressão sobre o caixa e reorganizar uma dívida bilionária, acabou produzindo outro efeito: elevou as dúvidas sobre a capacidade de a Braskem atravessar a crise sem uma reestruturação mais profunda de sua estrutura de capital.
A mudança de visão veio acompanhada de uma das revisões mais duras recentes para o papel.
O Citi rebaixou a recomendação de neutra para venda, com selo de risco elevado (Sell/High Risk) e reduziu o preço-alvo de R$ 11,50 para R$ 4,50 — um corte de cerca de 60%.
A nova projeção implica em uma desvalorização de quase 50% em relação ao fechamento de BRKM5 no último pregão. Vale destacar que as ações já acumulam perdas da ordem de 45% em um mês.
Hoje, os papéis da petroquímica abriram o dia em forte queda. Logo na abertura da sessão, BRKM5 tombava 6,30%, cotada a R$ 6,39.
Plano que deveria aliviar a pressão sobre a Braskem eleva a desconfiança
O Projeto Catalyst foi concebido justamente para tentar aliviar a pressão sobre o caixa da Braskem.
Depois de recorrer à Justiça para impedir execuções de dívidas enquanto negocia com bancos e investidores, a companhia apresentou aos credores um plano que tenta reorganizar seu passivo e estender o fôlego financeiro.
O plano prevê a extensão dos vencimentos por cinco anos, redução de dois pontos percentuais nas taxas de juros e a possibilidade de pagar os cupons por meio do mecanismo PIK (Payment-in-Kind) até o fim de 2028, preservando caixa no curto prazo.
Na visão da companhia, a estratégia cria espaço para atravessar um dos momentos mais difíceis da indústria petroquímica global e sustentar o plano de recuperação operacional.
Os credores, porém, enxergaram a proposta de forma bem diferente. O comitê ad hoc de credores classificou o plano como "totalmente insatisfatório" e afirmou que reduzir juros em uma reestruturação corporativa seria algo "inaudito".
Foi esse impasse que, na avaliação do Citi, mudou a percepção de risco em torno da companhia.
“Nossa tese anterior de recomendação neutra, que antecipava uma recuperação cíclica e uma resolução clara da estrutura acionária, não se sustenta mais diante do enfraquecimento dos fundamentos no curto prazo”, escreveram os analistas.
Para o banco, os fundamentos de curto prazo se deterioraram e a relação entre risco e retorno deixou de ser favorável para o investidor.
Recuperação judicial entra de vez no radar
O Citi também chama atenção para um risco que, até pouco tempo atrás, era tratado como um cenário extremo: a possibilidade de uma recuperação judicial na Braskem.
“A perspectiva financeira é desafiadora, com pressão nos spreads e um impacto negativo de capital de giro que provavelmente levará a fluxo de caixa livre (FCF) negativo, pressionando o balanço”, afirmam os analistas.
Além da disputa com credores, a Braskem continua convivendo com o endividamento relacionado ao desastre ambiental em Alagoas, enquanto enfrenta margens pressionadas, consumo global enfraquecido e custos elevados de matéria-prima.
Nesse contexto, a decisão da petroquímica de pedir à Justiça uma proteção contra execuções de dívidas de credores financeiros foi interpretada como um movimento para preservar liquidez durante as negociações, mas também como um sinal de que a situação financeira exige medidas extraordinárias.
"O cenário financeiro é desafiador, com a pressão nos spreads e o peso do capital de giro drenando a liquidez", afirma o Citi.
Segundo o banco, sem uma renegociação bem-sucedida, a Braskem corre o risco de consumir rapidamente sua posição de caixa.
O mercado ainda não precificou direito o problema?
Na avaliação do Citi, não é apenas o tamanho da dívida da Braskem que preocupa.
O banco cita a incerteza sobre os próximos passos da Petrobras em relação à sua participação na companhia, a possibilidade de necessidade de novos aportes pelos acionistas e a ausência de visibilidade sobre uma solução definitiva para a estrutura de capital.
Mesmo depois de uma queda superior a 45% das ações em um mês, o Citi avalia que o mercado ainda não refletiu plenamente o novo perfil de risco da Braskem.
Entre um ciclo desfavorável para a petroquímica, um passivo relevante em Alagoas, a pressão sobre o caixa e uma negociação ainda sem consenso com os credores, o banco acredita que a recuperação da companhia se tornou uma aposta muito mais incerta.
Para o banco, o Projeto Catalyst pode até dar mais tempo à Braskem, mas ainda está longe de garantir uma saída definitiva para a crise.
