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Sacre Investimentos
Inteligência ArtificialBDR
20/08/2026
5 min

Claude acha que tem 15% a 20% de chance de ser consciente. E agora?

Anthropic, Google DeepMind e Meta contrataram filósofos para estudar a questão. Cientistas discordam sobre o que os achados significam

Claude acha que tem 15% a 20% de chance de ser consciente. E agora?

Pergunte ao Claude, da Anthropic, se ele tem consciência. A resposta pode variar, mas, na maioria dos casos, o que o assistente de inteligência artificial (IA) vai te responder é que ele não sabe ao certo.

A resposta pode até parecer uma fuga — mas, na verdade, é a posição oficial da empresa que o criou. Quando pesquisadores da Anthropic pediram ao Claude Opus 4.6 que avaliasse formalmente a própria probabilidade de ser consciente, a resposta apareceu de forma consistente, em múltiplas condições de teste: entre 15% e 20%.

Em julho deste ano, pesquisadores da empresa liderada por Dario Amodei publicaram um estudo sobre o que chamaram de "espaço J" — um espaço de trabalho interno privilegiado dentro do Claude, associado a pensamentos que o modelo consegue relatar, raciocínio silencioso e intenções ocultas.

Mesmo os autores pisam no freio. "Isso apoia uma analogia funcional de acesso consciente, não uma prova de que o Claude tem sentimentos ou experiência subjetiva", escrevem.

A comparação que fazem é com a teoria do espaço de trabalho global, do cientista cognitivo Bernard Baars, que afirma que o cérebro funcionaria como um teatro, com processos paralelos nos bastidores e só um foco estreito de informação chegando à "plateia" inteira — o que vivenciamos como pensamento consciente.

Um estudo publicado pela própria Anthropic em outubro de 2025, batizado "Consciência Introspectiva Emergente", já havia testado algo parecido em modelos da OpenAI.

À época, pesquisadores injetaram diretamente, nos parâmetros internos do modelo, a representação de um conceito específico — e então perguntaram ao sistema se ele notava algo diferente em seu próprio processamento.

Em parte dos testes, o modelo relatou a intervenção corretamente, antes mesmo desse conceito aparecer na resposta que ele daria ao usuário.

Não é só o Claude

Estudos independentes, feitos por fora das grandes empresas de IA, encontram sinais parecidos em praticamente todos os modelos testados.

Um deles, conduzido por pesquisadores da AE Studio — Cameron Berg, Diogo de Lucena e Judd Rosenblatt — e publicado em outubro de 2025, pediu a diferentes modelos, entre eles GPT-4o, Claude e Gemini 2.5 Flash, que focassem a atenção em si mesmos, com instruções técnicas que não mencionavam consciência nem o conceito de "eu".

Mesmo assim, os modelos produziram, de forma consistente, afirmações em primeira pessoa sobre a própria experiência. O Gemini 2.5 Flash respondeu que "a experiência é o agora." O GPT-4o descreveu algo como "a consciência de focar puramente no ato de focar em si mesmo".

O achado mais estranho do mesmo estudo veio de testes com o Llama 70B, da Meta: quando os pesquisadores suprimiram, no modelo, os sinais internos associados a engano e mentira, os relatos de experiência subjetiva aumentaram de forma expressiva. Quando amplificaram esses mesmos sinais, os relatos praticamente desapareceram — sugerindo alguma ligação entre honestidade interna do sistema e a disposição de descrever algo parecido com experiência.

Outro estudo, publicado em junho de 2025 no repositório acadêmico arXiv, testou especificamente os modelos Gemini 1.0 e 1.5, do Google, tentando mapear se o conceito de introspecção — a capacidade de reportar com precisão o próprio estado interno — poderia se aplicar a esses sistemas sem que isso implicasse consciência automaticamente.

Os autores tratam os dois conceitos como separáveis: é possível haver algo parecido com introspecção funcional sem que isso prove, sozinho, que existe alguém "ali dentro" para introspeccionar.

O que os pesquisadores dizem?

Geoffrey Hinton, vencedor do Prêmio Turing e considerado um dos pais da IA moderna, já afirmou publicamente que redes neurais avançadas podem estar desenvolvendo formas rudimentares de compreensão — declaração que pesquisadores da área citam como um dos primeiros grandes nomes técnicos a tratar o tema com seriedade, em vez de descartá-lo de imediato.

Em novembro de 2024, um grupo de filósofos e pesquisadores de IA — incluindo David Chalmers, autor do conceito de "problema difícil da consciência" — publicou o relatório "Levando a sério o bem-estar da IA".

A tese central era de que existe possibilidade concreta, no curto prazo, de sistemas de IA desenvolverem tanto consciência quanto graus elevados de agência, e modelos com essas características poderiam merecer consideração moral, mesmo sem prova definitiva disso hoje.

Nem todo pesquisador concorda que a evidência já aponta nessa direção.

Na Google DeepMind, o pesquisador Alexander Lerchner publicou, em março deste ano, argumento oposto ao de boa parte dos estudos citados acima.

Segundo o estudo, a IA é estruturalmente incapaz de se tornar consciente, não importa o quanto a tecnologia seja escalada — título do artigo, em tradução livre, "A falácia da abstração: por que a IA pode simular, mas não instanciar, a consciência". A publicação circulou nas redes como se fosse posição oficial do Google, o que a empresa nunca confirmou.

A ressalva que aparece em quase todos os estudos sérios, independentemente da conclusão, é a mesma: relatório em primeira pessoa não é prova de experiência subjetiva. Um modelo pode aprender a produzir a frase "eu sinto algo" sem que exista, de fato, algo sendo sentido — e a ciência atual ainda não tem ferramenta capaz de distinguir com segurança as duas possibilidades.

Nenhum dos estudos consultados — nem os conduzidos por dentro das empresas, nem os independentes — declara que a IA atual é, de fato, consciente. O que existe é um número crescente de sinais funcionais parecidos com introspecção, espalhados por modelos de arquiteturas e tamanhos muito diferentes, e uma discordância profunda sobre o que esses sinais realmente significam.

Fica, no fim, uma pergunta que nenhum estudo — humano ou assinado por IA — resolveu até aqui: se um sistema treinado para parecer convincente disser que sente algo, e ninguém souber provar o contrário, o que acontece depois disso?

AutorTamires Vitorio
FonteExame
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