Coca-Cola aposta em sorvetes proteicos e águas saborizadas para crescer na América Latina
Muito além da tradicional garrafa de refrigerante, Bruno Pietracci, presidente da Coca-Cola na América Latina, conta à EXAME os investimentos na região que conta com um novo centro de inovação no México

Sorvetes com proteína, águas minerais saborizadas, bebidas sem açúcar e refrigerantes desenvolvidos para o paladar de cada região. Essas são algumas das apostas da Coca-Cola para ampliar seus negócios na América Latina e conquistar consumidores para além dos refrigerantes tradicionais.
A estratégia faz parte de um movimento de diversificação do portfólio da multinacional americana, que completa 140 anos em 2026 e está presente em mais de 200 países e territórios.
No México, segundo maior mercado da Coca-Cola no mundo, a companhia está há 100 anos e vem apostando em novos produtos por meio da Santa Clara, uma marca centenária de lácteos que integra o sistema Coca-Cola há aproximadamente 15 anos.
A empresa possui entre 400 e 500 lojas de sorvetes no país e lançou recentemente uma linha de sorvetes proteicos, disponível em quatro sabores. Segundo Bruno Pietracci, presidente da Coca-Cola na América Latina, a novidade tem apresentado resultados positivos e faz parte de um segmento considerado rentável.
"Recentemente, a gente lançou um sorvete com proteína, que está sendo um grande sucesso. Tem quatro sabores já disponíveis. É uma parte do portfólio que cresce muito e é rentável", afirma Pietracci, em entrevista exclusiva à EXAME, direto da sede da Coca-Cola no Rio de Janeiro.
A Santa Clara também alcançou um marco importante para a multinacional. Segundo Pietracci, a marca ultrapassou o patamar de US$ 1 bilhão em 2025, entrando para o grupo de marcas bilionárias da Coca-Cola, mesmo com operações concentradas no mercado mexicano.
Loja do sorvete Santa Clara, no México: a marca ultrapassou o patamar de US$ 1 bilhão em 2025 (Jeff Greenberg / Colaborador/Getty Images)
O executivo afirma que a diversificação permite à companhia aprender com modelos de negócios diferentes do segmento tradicional de bebidas.
No caso da Santa Clara, por exemplo, a operação envolve lojas físicas, margens comerciais distintas e uma cadeia de abastecimento específica para produtos lácteos e congelados.
"Obviamente, tem uma parte de varejo, tem margens diferentes e uma estrutura de cadeia de abastecimento diferente", afirma Pietracci.
A presença da Coca-Cola no mercado de sorvetes também se estende ao Equador. No país, a companhia participa do segmento por meio da Tony, empresa de lácteos que possui a linha de sorvetes Topsy.
A operação, segundo Pietracci, faz parte do sistema Coca-Cola há aproximadamente duas décadas.
"É uma combinação de olhar para o consumidor e ver se existe alguma oportunidade para fazer esse modelo de entrega", diz o presidente.
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Da água mexicana aos consumidores americanos
Outra frente da estratégia de diversificação está no mercado de águas minerais.
Um dos exemplos é a Topo Chico, marca originária do México que ganhou espaço também nos Estados Unidos.
Adquirida pela Coca-Cola de um parceiro engarrafador há aproximadamente 15 anos, a marca é exportada do México para o mercado americano.
"A marca Topo Chico a gente comprou há uns 15 anos do nosso sócio engarrafador, e ela tem uma relevância muito grande no México e em vários estados americanos. A gente exporta do México para os Estados Unidos", afirma Pietracci.
Em 2026, a companhia também anunciou no México novidades para a marca, incluindo versões de água mineral saborizada, como Limonada e Naranjada, com sabores de limão e laranja.
A expansão mostra como produtos com forte identidade regional podem conquistar consumidores de outros países e abrir novas oportunidades de negócios.
Isso não significa, porém, que todas as marcas serão levadas para outros mercados.
Questionado sobre uma possível expansão internacional da Santa Clara, Pietracci afirma que, por enquanto, não existem planos para levar a marca a outros países.
Topo Chico: marca mexicana de água mineral comprada pela Coca-Cola. Hoje o produto é exportado para os Estados Unidos (Scott Olson / Equipe/Getty Images)
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Coca-Cola cria centro de inovação no México
Para acelerar o desenvolvimento de produtos, fórmulas e embalagens, a Coca-Cola começou a estruturar, em fevereiro de 2026, um centro de inovação no México, chamado Innovation Hub.
A iniciativa surgiu após a companhia identificar a necessidade de aproximar os laboratórios de desenvolvimento das áreas responsáveis pelas operações comerciais.
"Numa reflexão que a gente fez no ano passado, parecia faltar uma ponte entre o nosso laboratório (que desenvolve as fórmulas, os produtos e as embalagens) e o negócio", afirma Pietracci.
O Innovation Hub funciona como uma estrutura de gestão de projetos multifuncionais, conectando diferentes equipes para acelerar o processo de inovação.
"O centro de inovação ajuda a conectar tudo de uma forma que tenha princípio, meio e fim. Esse grupo começou a ser criado em fevereiro deste ano e a gente está começando a ver algumas provas dos benefícios que ele traz", diz.
Uma das principais mudanças, segundo o presidente, está na forma como a empresa decide quais produtos lançar em cada mercado.
A companhia busca abandonar a lógica de lançar todos os produtos em todos os países e passa a priorizar inovações adaptadas aos hábitos de consumo e às características culturais de cada região.
"Temos hoje a capacidade de não sair lançando tudo em todo lugar. Estamos agora fazendo uma expansão do portfólio de Coca-Cola com uma opção sem açúcar (Coca-Cola ZZZ), que já foi lançada há algumas semanas aqui no Brasil", afirma.
Fábrica da Coca-Cola Femsa em Jundiaí, São Paulo: a unidade ampliou a linha de produção de garrafas retornáveis e linha zero devido à alta demanda local (Leandro Fonseca /Exame)
Do caju brasileiro à toranja colombiana
A estratégia de regionalização também está presente no Brasil, onde a Coca-Cola mantém marcas e sabores desenvolvidos para consumidores de diferentes estados.
Um dos exemplos é a Fanta Caju, refrigerante com sabor de uma fruta típica brasileira, especialmente associada ao Nordeste. A companhia também conta com marcas tradicionais, como o Guaraná Jesus, popular no Maranhão, e a marca de chás Matte Leão, marca criada em 1901, no Paraná, com a fundação da Leão Junior. Em 2007, a empresa foi adquirida pela Coca-Cola, após 106 anos sob controle familiar.
A diversidade do portfólio reflete a estratégia da Coca-Cola de adaptar seus produtos aos hábitos de consumo e às preferências de cada região, em vez de apostar exclusivamente em marcas globais.
"E o Brasil é uma beleza nisso. A gente tem o guaraná Charruas no Sul, tem o Guarapan em Minas Gerais, tem Tuchaua no Nordeste, tem Guaraná Jesus e Fanta Caju no Nordeste", afirma Pietracci.
Chá Matte Leão: foi criado em 1938, no Paraná, por uma empresa familiar. Em 2007 foi adquirida pela Coca-Cola, ampliando a presença da multinacional no mercado brasileiro de chás, para além dos refrigerantes (GERMANO LUDERS/EXAME/Exame)
A estratégia se repete em outros países da América Latina
Na Colômbia, por exemplo, a companhia possui a Quatro, refrigerante com sabor de toranja, fruta cítrica que faz parte das preferências locais.
"Praticamente em cada país a gente tem marcas e sabores locais muito fortes", afirma Pietracci.
Para o executivo, a regionalização permite que a Coca-Cola encontre oportunidades de crescimento em mercados com culturas e hábitos de consumo diferentes.
"Quase em cada grande mercado da América Latina a gente tem pelo menos uma marca que desempenha esse papel", diz.
A estratégia também inclui a expansão das bebidas sem açúcar. Segundo Pietracci, o Brasil teve papel importante no crescimento da linha Coca-Cola Zero na América Latina, antecipando iniciativas comerciais que posteriormente foram adotadas em outros países.
"A linha Zero tem crescido de forma geral em todos os mercados da América Latina, e o Brasil foi e está sendo ponta de lança", afirma.
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Inovação para crescer na América Latina
O desenvolvimento de novos produtos faz parte de uma estratégia mais ampla de expansão da Coca-Cola na região.
No Brasil, o sistema Coca-Cola prevê investimentos de R$ 30 bilhões até 2030, destinados à ampliação da capacidade produtiva, modernização de fábricas e fortalecimento das operações.
México e Peru também estão entre os países com planos bilionários de investimentos para os próximos anos.
“Vamos investir US$ 6 bilhões no México e US$ 1 bilhão no Peru”, afirma o presidente.
Apesar da presença centenária da companhia na América Latina, Pietracci acredita que ainda existe espaço para ampliar os negócios, principalmente em mercados como o Brasil.
Para esse avanço acontecer, Pietracci afirma que o desafio está em combinar a força de marcas tradicionais com a capacidade de desenvolver novos produtos, ampliar a distribuição e adaptar as operações às características de cada mercado.
"Nós, em conjunto com os nossos sócios fabricantes, temos renovado o nosso apetite para investimento na América Latina", diz.
Ao resumir em uma palavra o momento da Coca-Cola na América Latina, Pietracci escolhe "oportunidade".
"Porque a gente está só começando", afirma. "Apesar de ter 120 anos na América Latina, desde a nossa chegada ao Panamá, eu tenho muito orgulho da história, mas também muita humildade de saber que o melhor está à nossa frente."
Veja a entrevista completa com Luciana Batista, presidente da Coca-Cola no Brasil, sobre as apostas da multinacional no Brasil:
