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07/11/2026
5 min

Colapso do Ueno Bank chegou ao presidente do Paraguai e acendeu um alerta na Moody’s: o risco vai muito além dos bancos

Agência não espera impacto fiscal imediato da resolução do banco, mas vê a crise como um teste para a governança e a capacidade de fiscalização do país

Colapso do Ueno Bank chegou ao presidente do Paraguai e acendeu um alerta na Moody’s: o risco vai muito além dos bancos

A crise do Ueno Bank se transformou em um teste para as instituições paraguaias, alerta a Moody’s. Para a agência de classificação de risco, embora a quebra da instituição não ameace, por enquanto, a nota de crédito do Paraguai, o episódio expôs fragilidades na fiscalização do sistema financeiro e no combate à corrupção — e colocou o próprio governo sob pressão. 

A agência mantém a classificação soberana do país em Baa3, com perspectiva estável.  

Segundo os analistas, o crescimento econômico robusto e a dívida pública relativamente baixa, de cerca de 38% do Produto Interno Bruto (PIB), ainda dão sustentação ao rating.  

Mas a Moody’s chama atenção para a capacidade das autoridades de investigar irregularidades e agir com independência quando os interesses em jogo chegam ao alto escalão do poder. 

Em relatório, a agência afirma que a crise “ressalta as fragilidades institucionais e de governança persistentes” do Paraguai, marcadas por um histórico de controle limitado da corrupção e baixa eficácia do governo. 

O caso ganhou uma dimensão política quando o presidente Santiago Peña anunciou sua renúncia em meio a protestos populares e à perda de apoio dentro do Partido Colorado.  

O Congresso rejeitou o pedido e iniciou um processo de impeachment, em meio a questionamentos sobre os vínculos pessoais do mandatário com o banco. 

Para a Moody’s, o risco mais relevante está na possibilidade de que as suspeitas envolvendo o Ueno e a atuação das autoridades fiscalizadoras não sejam devidamente esclarecidas.  

Se isso acontecer, a crise poderá abalar a confiança dos investidores nas instituições e na segurança dos recursos depositados no sistema financeiro, avalia a agência. 

Quebra do Ueno Bank coloca fiscalização sob suspeita 

O Banco Central do Paraguai (BCP) anunciou no início desta semana que submeteu o Ueno a um processo de resolução.  

A medida veio depois que ajustes nas demonstrações financeiras, realizados durante uma revisão de supervisão, levaram o índice de solvência da instituição a menos de 50% do mínimo exigido pela regulação. 

Em setembro, o Ueno concentrava 8% dos empréstimos e 9% dos depósitos de todo o sistema bancário paraguaio. A quebra de uma instituição com essa participação representa um teste relevante para a confiança dos clientes e para a capacidade de resposta das autoridades. 

"A quebra do Ueno é negativa para o sistema bancário do país e evidencia deficiências de governança e supervisão, mas esperamos que os riscos sistêmicos sejam contidos por meio de um processo de resolução rápido e ordenado", afirma a Moody's. 

Um dos fatores que ajudam a limitar o risco imediato é a cobertura dos depósitos. Segundo o Banco Central, cerca de 97% dos clientes do Ueno seriam integralmente protegidos pelo fundo garantidor paraguaio.  

Em setembro de 2026, o fundo tinha US$ 1,6 bilhão em liquidez — aproximadamente o dobro do volume de depósitos garantidos da instituição. 

Para a agência, isso reduz a possibilidade de que a crise se espalhe para outros bancos por meio de uma perda generalizada de confiança. Ainda assim, não elimina os questionamentos sobre como o Ueno chegou à situação que levou à intervenção. 

A quebra ocorreu em meio a alegações de corrupção e levantou dúvidas sobre a independência da supervisão exercida pelo Banco Central paraguaio.  

O presidente do BCP, Carlos Carvallo, renunciou após o episódio. Antes de assumir o comando da autoridade monetária, ele havia presidido a Financiera Ueno, antecessora do banco. 

Parlamentares paraguaios também alegaram que a instituição teria utilizado indevidamente recursos de fundos de pensão e que houve tentativas institucionais de encobrir irregularidades.  

A Moody’s destaca que investigações confiáveis serão fundamentais para determinar se houve falhas de supervisão e controle e esclarecer se os mecanismos de fiscalização funcionaram como deveriam — e se as autoridades responsáveis tinham independência para agir. 

Custo fiscal ainda parece limitado, avalia a Moody's

A Moody’s não vê, por enquanto, risco de impacto relevante da crise do Ueno sobre as contas públicas.  

Embora a resolução do banco possa gerar um passivo para o governo, os custos devem se limitar a um eventual aporte de liquidez ao fundo garantidor.  

O reembolso dos depositantes com recursos do próprio fundo não representa uma despesa imediata para o Tesouro; o impacto só ocorreria se entidades públicas tivessem perdas não recuperáveis ou precisassem de socorro orçamentário. 

A preocupação da agência está menos na solvência do governo e mais na fragilidade das instituições paraguaias.  

Os indicadores de efetividade governamental, controle da corrupção e Estado de Direito estão no 25º percentil ou abaixo entre os países avaliados pela Moody’s — desempenho também inferior à mediana dos soberanos com nota Baa. 

O Paraguai avançou nos últimos anos com reformas fiscais e administrativas, incluindo mudanças na gestão das contas públicas e na supervisão previdenciária.  

Mas, para a agência, a dificuldade está em transformar essas regras em resultados: a crise do Ueno e os atrasos no pagamento de obrigações fiscais registrados no ano passado expõem limitações de capacidade e execução do governo. 

Sucessão pode preservar política econômica no Paraguai? 

A eventual saída de Santiago Peña não deve significar, necessariamente, uma mudança na condução econômica do Paraguai, avalia a Moody's.  

Pela Constituição, o vice-presidente Pedro Alliana é o sucessor natural e, se a renúncia ou o impeachment de Peña forem oficializados, deverá concluir o mandato até agosto de 2028. 

A Moody’s acredita que Alliana tende a manter a política atual, baseada em disciplina fiscal, autonomia do Banco Central e metas de inflação. Integrante da coalizão governista, ele defende o controle dos gastos públicos e se opõe a aumentos de impostos. 

A agência espera uma transição ordenada, que ajude a preservar a continuidade das políticas econômicas e permita avançar na resolução do Ueno Bank.  

"A incerteza prolongada em torno da transição e o aumento da instabilidade política e social podem prejudicar o desempenho econômico e fiscal, ao elevar o risco político e enfraquecer a confiança dos investidores", diz a Moody's.

AutorCamille Lima
FonteSeu Dinheiro
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