Coldcard: o que especialistas em cibersegurança dizem sobre o roubo histórico de bitcoin
Falha de na geração de aleatoriedade das chaves exposta por inteligência artificial causou um prejuízo milionário a diversos investidores

Pela primeira vez, a narrativa da segurança da autocustódia de criptomoedas foi desafiada no mercado. Na última sexta-feira, 31, hackers roubaram US$ 110 milhões (números atualizados pela Galaxy Research) em bitcoin dos usuários da carteira física de criptomoedas Coldcard. A EXAME ouviu especialistas para entender as implicações do caso.
Jean Michel Guillot, executivo sênior em tecnologia e financeiro da Dinamo, empresa que fabrica as máquinas de criptografia do Pix usadas pelo Banco Central, diz que esse não é um caso como os que ocorreram em outros momentos de vazamento de chaves. “O problema é que a chave foi gerada de forma não aleatória o suficiente”, explica.
Em carteiras físicas de ativos digitais, como a Coldcard, há um dispositivo de hardware que o investidor usa para armazenar as criptomoedas e validar transações sem nenhum acesso à internet. Para se autenticar no dispositivo, ele precisa de uma chave de 12 a 24 palavras, que funciona como uma senha.
A chave precisa ser gerada aleatoriamente a partir de um conjunto tão grande de palavras que tentar adivinhar seria inútil até mesmo para uma máquina. O problema da Coldcard foi justamente esse.
“Em vez de usar uma fonte uma fonte de entropia que gera aleatoriedade confiável e criptograficamente forte, eles usavam alguns dados internos do chip e do dispositivo, o que permitia alguma dose de previsibilidade. Em vez de ter um número de possibilidades quase infinito, da ordem de 2²⁵⁶ bits, você tinha uma possibilidade muito mais reduzida, de um trilhão de possibilidades, em uma faixa conhecida”, aponta Guillot.
Cibersegurança é maior com mais de uma autenticação
Marco Zanini, CEO da Dinamo, diz que um grande problema desse tipo de carteira para armazenamento de criptoativos é a autenticação realizada muitas vezes por apenas um fator. “O ideal é um token físico junto com uma senha ou biometria. O que existia lá era provavelmente um único fator”, argumenta Zanini.
Os executivos afirmam que os módulos de segurança (HSMs, na sigla em inglês) da Dinamo geram a chave dentro de um hardware criptográfico, de modo que a chave nasce e morre dentro desse HSM sem que os dados venham de outras fontes.
Uso de inteligência artificial
Os relatos sobre o ataque apontam que os hackers provavelmente encontraram o bug na geração de chaves aleatórias da Coldcard com ajuda de uma inteligência artificial (IA).
César Baracat, CEO da empresa especializada em cibersegurança Vultus, afirma que a IA mudou a economia do ataque cibernético. “O que antes exigia tempo, equipes especializadas e alto esforço computacional agora pode ser executado em escala, com milhares ou milhões de hipóteses sendo testadas em um intervalo muito curto”, comenta.
Baracat diz que a questão central para as empresas é que se os atacantes já estão usando IA para testar continuamente suas defesas, a organização precisa fazer o mesmo para não ficar em desvantagem.
“Não é mais suficiente testar uma aplicação antes de colocá-la em produção, realizar um pentest uma vez por ano ou avaliar apenas os ativos considerados mais críticos. Toda a superfície da empresa (aplicações, APIs, infraestrutura, identidades, credenciais expostas e integrações com terceiros) precisa ser submetida continuamente a testes adversariais”, defende.
O ataque à Coldcard foi com computação quântica?
Guillot lembra que esse caso ganha destaque em um momento em que se discute com cada vez mais frequência o futuro do bitcoin e dos blockchains em geral diante da computação quântica. “O advento da computação quântica pode, em tese, quebrar justamente a criptografia assimétrica de curva elíptica usada no bitcoin e nas principais criptomoedas”, ressalta.
Para o executivo, a comunidade do bitcoin e das demais moedas digitais precisam se preparar com novas formas de assinar carteiras com uma criptografia assimétrica que não use mais curva elíptica, mas novos algoritmos resistentes à computação quântica.
Entretanto, Guillot afirma que há uma diferença entre um bug na geração da chave e um possível ataque de computação quântica. “No caso do bug como vimos na Coldcard, o problema está na aleatoriedade, pois o atacante gera todas as chaves privadas possíveis e daí calcula todas as possíveis chaves públicas e verifica no blockhain qual desses endereços existe”, explica.
No caso da computação quântica, por sua vez, o alvo seria a própria criptografia da curva elíptica, com o atacante precisando partir da chave pública para determinar a chave privada. Ou seja, por mais grave que seja o caso da Coldcard, ainda não é um evento de uso de computação quântica para roubar bitcoin.
“Existe muita especulação no mercado sobre os governos com tecnologia quântica, mas acredito menos nisso e mais na vulnerabilidade na autenticação na carteira”, diz Zanini.
