Com 30 mil usuários em seu sistema de gestão, Vale usa IA para transformar reuniões em código
Em projeto com a Accenture, mineradora aplicou agentes de inteligência artificial à troca do ERP da SAP; ferramenta antecipou em até três semanas a definição inicial

RESUMO +
A Vale usa o Cognitive Digital Brain, plataforma de agentes de IA da Accenture, na migração do seu ERP para o SAP S/4HANA, projeto chamado internamente de Neo Vale. A ferramenta analisou mais de 270 requisitos levantados em workshops com as áreas comercial, de manutenção e financeira e ajudou a antecipar em até três semanas a etapa de definição inicial. O sistema gera especificações, código, planos de teste e documentação, que passam por revisão de consultores e aprovação do cliente. Segundo a Vale, o projeto, de dois anos, está dentro do prazo e do orçamento. A Accenture diz usar a ferramenta em cerca de 40 clientes na América Latina, a maioria no Brasil, e aponta a mudança na forma de trabalhar como o maior desafio.
A Vale está usando agentes de inteligência artificial da Accenture para acelerar a troca do seu principal sistema de gestão, o ERP da SAP. A ferramenta, chamada Cognitive Digital Brain, acompanha as reuniões em que as áreas de negócio dizem o que precisam do novo sistema e transforma essas conversas em requisitos, especificações técnicas e até no código que precisa ser desenvolvido.
No projeto da mineradora, a IA analisou mais de 270 requisitos das áreas comercial, de manutenção e financeira. Segundo as empresas, isso antecipou em até três semanas a etapa de definição inicial, um trabalho que antes dependia de idas e vindas entre consultores e usuários.
Mas, para a Vale, o ganho mais importante não está no cronograma. "Não é adiantar o projeto como um todo, é adiantar a etapa de planejamento", diz Theo Penedo, diretor de tecnologia que representa as áreas de negócio no projeto e está há 20 anos na empresa.
A distinção importa pelo tamanho do que está sendo trocado. O ERP da Vale se conecta a mais de 350 sistemas e tem mais de 30 mil usuários dentro da companhia. As empresas não divulgaram quanto o projeto custa nem quanto a IA economizou em dinheiro.
O que é o Neo Vale
Neo Vale é o nome interno da migração do ERP da mineradora para o S/4HANA, a geração mais recente do sistema da SAP. O projeto tem prazo de dois anos, e a Accenture é a principal implementadora.
A migração é uma corrida que envolve boa parte das grandes empresas que usam SAP. A fabricante alemã encerra no fim de 2027 a manutenção padrão do ECC, a geração anterior do ERP, com uma extensão paga opcional até o fim de 2030.
Nem tudo foi redesenhado. A Vale dividiu o projeto em uma parte "brownfield", em que os processos migram sem mudanças, e outra "greenfield", em que são revistos do zero. A revisão completa ficou restrita às áreas em que a empresa via mais chance de ganho.
A mineradora já usa IA em outras frentes, segundo Penedo, como os caminhões autônomos nas minas e o controle de velocidade da frota de navios para reduzir custos.
Da reunião ao código
O Cognitive Digital Brain entrou nos workshops em que equipes da Vale e especialistas da Accenture discutiam como cada processo deveria funcionar no novo sistema. As reuniões eram gravadas, e a ferramenta extraía delas os pedidos e as sugestões de ajuste no SAP.
Penedo cita o processo comercial, que vai da negociação inicial até a compra do minério de ferro por um cliente na China, por exemplo. Um time com profissionais de contabilidade, da área fiscal e especialistas da Accenture discutiu o fluxo inteiro, e a IA devolvia o requisito e o ajuste sugerido no sistema.
Um dos indicadores que a Vale quer melhorar com essa revisão é o DSO (days sales outstanding), o prazo médio que a empresa leva para receber pelas vendas.
Segundo Daniel Gonzalez, da Accenture, a ferramenta gera a matriz de rastreabilidade dos requisitos e as especificações funcionais e técnicas. Quando um pedido não é atendido pelo SAP padrão, ela já escreve o código da extensão necessária e, se estiver conectada ao ambiente de desenvolvimento do cliente, ativa o programa lá. Depois, monta o plano de testes e indica os dados para executá-los.
Nada vai direto para a operação: consultores da Accenture revisam o que a IA produz, e o cliente aprova.A Accenture diz que hoje consegue ir além do que fez no início do projeto da Vale. A ferramenta pode se conectar ao ERP antigo do cliente, mapear tudo o que foi desenvolvido e configurado nele, relacionar isso aos processos de negócio e comparar com o que a consultoria considera a melhor prática do setor.
A equipe chega ao primeiro workshop com esse diagnóstico pronto. Gonzalez compara a situação a entrar na sala com um funcionário de TI que tem 20 anos de casa e conhece todo o sistema legado.
Planejar devagar, executar rápido
Penedo explica a estratégia com um livro: Como Fazer Grandes Coisas, de Bent Flyvbjerg e Dan Gardner. Flyvbjerg, pesquisador de megaprojetos, calcula que só 0,5% dos grandes projetos cumprem prazo e orçamento e entregam os benefícios prometidos. A recomendação central do livro é planejar devagar e executar rápido.
Para a Vale, a IA serviu para ganhar tempo de planejamento, não para encurtar o projeto.Com a definição inicial adiantada, a equipe pôde detalhar melhor o plano antes de começar a execução, fase em que a inspiração interna, segundo o diretor, é a Fórmula 1 e Ayrton Senna.
Segundo Penedo, o Neo Vale está hoje dentro do prazo e do orçamento. Ele atribui isso a três fatores: IA, corrente crítica (método de gestão de projetos que concentra esforço nas tarefas que definem a data final) e cultura.
Para Gonzalez, o argumento mais forte para uma empresa do porte da Vale não é o prazo, mas a redução de risco em um projeto estratégico.
Menos rascunho, mais conversa com o cliente
A ferramenta também muda a composição das equipes da consultoria. Tarefas que antes ficavam com profissionais mais juniores, como redigir documentos ou fazer o primeiro esboço de um programa para um sênior revisar, passam a ser feitas pela IA. O que sobra é revisar e decidir, trabalho que exige gente mais experiente.
"Não é sobre quantas pessoas a gente vai cortar", diz Gonzalez. Segundo ele, a questão é quantos profissionais seniores terão mais tempo para discutir com o cliente o que foi produzido, em vez de passar o dia escrevendo documentos ou programando.
O discurso convive com cortes reais. Em setembro de 2025, a Accenture demitiu 11 mil pessoas e avisou que só permaneceria quem aprendesse a trabalhar com IA. Ao mesmo tempo, a consultoria amplia equipes no Nordeste com a IA como justificativa.
O gargalo agora é a forma de trabalhar
Segundo Gonzalez, o Cognitive Digital Brain é usado hoje em cerca de 40 clientes da Accenture na América Latina, a maioria no Brasil. A consultoria diz que o impacto é maior no setor de recursos naturais, motivo pelo qual escolheu o caso da Vale para mostrar a ferramenta.
O primeiro desafio, diz o executivo, foi técnico: oferecer algo além do que as ferramentas de IA disponíveis no mercado já fazem. A resposta foi carregar o sistema com o conhecimento setorial da consultoria. Especificações e código já saem direcionados para mineração, por exemplo.
O segundo desafio é organizacional. Fazer a IA trabalhar em paralelo com consultores e equipes do cliente exige redistribuir tarefas e mudar rotinas dos dois lados da mesa.
Segundo a Accenture, a ferramenta já funciona. O difícil agora é reorganizar o trabalho das pessoas em torno dela.O caso da Vale mostra como as consultorias tentam empacotar décadas de conhecimento setorial em agentes de IA, num mercado em que modelos de uso geral fazem parte do mesmo trabalho. Para as empresas brasileiras que ainda têm a migração para o S/4HANA pela frente, a ferramenta já está disponível no país, mas a Accenture não divulga quanto cobra por ela.
