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Sacre Investimentos
EXAME AgroCMDT
08/09/2026
5 min

Com China 'desleal' e EUA imprevisíveis, Holanda olha para o agro brasileiro

Rob Jetten, primeiro-ministro holandês, vê Brasil como parceiro estratégico e aposta no UE-Mercosul diante das disputas com China e EUA

Com China 'desleal' e EUA imprevisíveis, Holanda olha para o agro brasileiro

AMSTERDAM* — O primeiro-ministro da Holanda, Rob Jetten, vê na América Latina uma parceira estratégica para a Europa ampliar a oferta de alimentos e fertilizantes e reduzir a dependência de fornecedores considerados comercialmente instáveis, como a China e os Estados Unidos.

Para o premiê, a guerra entre Rússia e Ucrânia, em curso desde 2022, e as incertezas provocadas pela guerra tarifária dos EUA, sob Donald Trump, reforçam a necessidade de uma aproximação maior com a região e colocam o acordo entre União Europeia e Mercosul como uma das peças desse movimento.

“Nosso continente e a América Latina têm enfrentado a concorrência desleal da China e regulações imprevisíveis dos Estados Unidos. Por isso, o acordo entre a União Europeia e o Mercosul é extremamente importante para nós”, afirmou Jetten em conversa a jornalistas nesta segunda-feira, 7.

Para o premiê, o Brasil tem papel especial nessa equação. O país reúne uma escala agrícola difícil de encontrar na Europa. Seu território é cerca de 200 vezes maior que o holandês e sua área agrícola é quase 50 vezes superior, segundo estudo do Insper Agro.

Em 2025, o Brasil exportou US$ 11,74 bilhões para a Holanda, segundo dados da Secretaria de Comércio Exterior do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC). Com esse volume, a Holanda foi o principal destino das exportações brasileiras dentro da UE no período.

“Acredito que o Brasil e a União Europeia, juntos, podem se tornar uma potência na produção de alimentos, não apenas para abastecer nossas próprias populações, mas também para exportar para o restante do mundo”, disse.

A avaliação ocorre em um momento em que a segurança alimentar e o acesso a insumos agrícolas ganharam peso na agenda geopolítica europeia.

A região também enfrenta os efeitos das ondas de calor sobre a produção agrícola e a alta dos preços do gás em meio à guerra entre Rússia e Ucrânia — a Rússia é o principal fornecedor de gás para a Europa.

O preço do gás europeu mais que dobrou desde o início do ano, saindo de cerca de 33 euros por MWh 75 euros por MWh, uma alta de aproximadamente 120%.

“Nos últimos anos, vimos como guerras e conflitos, como a guerra na Ucrânia, têm afetado profundamente países em todo o mundo. A Europa, a Noruega e nossos parceiros precisam encontrar alternativas”, afirmou o premiê.

Para Jetten, a busca por novos parceiros não atende apenas a interesses econômicos. Ela também faz parte de uma tentativa de ampliar a autonomia europeia em setores considerados estratégicos.

Acordo entre União Europeia e Mercosul

É nesse cenário que o primeiro-ministro da Holanda enquadra o acordo entre União Europeia e Mercosul, que entrou em vigor em maio deste ano. Para ele, estreitar os laços com a América Latina ganhou importância diante de uma ordem comercial mais imprevisível.

“A América Latina pode se tornar uma potência na produção de fertilizantes e de alimentos sustentáveis para o mundo, reduzindo nossa dependência de regimes dos quais realmente não queremos depender”, afirmou.

A Holanda tem interesse particular no fortalecimento dessas relações comerciais. Apesar de ter apenas 41,5 mil quilômetros quadrados e quase 18 milhões de habitantes, o país construiu uma cadeia agroalimentar fortemente conectada ao restante da Europa.

Entre 2000 e 2022, em média, 69% das exportações agropecuárias holandesas tiveram como destino outros países da União Europeia, segundo o Insper Agro.

Parte da força desse modelo está na capacidade de importar matérias-primas e produtos agrícolas, processá-los e voltar a colocá-los no mercado internacional.

Em 2022, 65% das exportações agropecuárias holandesas eram de origem doméstica ou correspondiam a produtos importados e processados no país. Outros 35% eram mercadorias originárias de outros mercados e reexportadas sem processamento ou com transformação mínima.

A aproximação com o Brasil encontra uma Holanda que tem pouco território disponível, mas experiência em processamento, tecnologia, logística e distribuição de alimentos para o mercado europeu.

Ao mesmo tempo que defende novas parcerias, Jetten precisa lidar com um desafio dentro de casa. A Holanda busca tornar sua produção mais sustentável sem abrir mão da competitividade de sua indústria.

A pressão ambiental também alcança o campo. O país registra o segundo maior nível de emissões de nitrogênio da Europa, e a agropecuária responde por cerca de metade dessas emissões, de acordo com o estudo do Insper Agro. A meta é reduzir as emissões de nitrogênio em 50% até 2030, na comparação com os níveis de 1990.

O desafio ajuda a explicar o por que a pauta da competitividade é defendida pelo premiê holandês.

“É extremamente importante descarbonizarmos a indústria europeia. Por isso, estamos investindo muito em energia verde, hidrogênio verde, entre outras tecnologias. Mas, nos próximos anos, ainda teremos fábricas com emissões de carbono. Em vez de lançar esse carbono na atmosfera, vamos capturá-lo aqui e armazená-lo na Noruega", afirmou.

Uma das apostas europeias está justamente na captura e no armazenamento de CO₂ de atividades nas quais a redução das emissões é mais difícil, caso da indústria de fertilizantes.

Como exemplo dessa estratégia, Jetten cita a planta de captura de carbono da Yara em Sluiskil. O projeto recebeu 200 milhões de euros (R$ 1,2 bilhão) e poderá capturar até 800 mil toneladas de CO₂ por ano durante a fabricação de amônia.

Para o primeiro-ministro essas tecnologias podem permitir que a Europa avance em suas metas climáticas sem simplesmente deslocar sua capacidade industrial para outras regiões do mundo.

“Esse é um projeto de ponta, o primeiro desse tipo nessa escala. É um ótimo exemplo para os setores mais difíceis de descarbonizar, porque mostra que podemos investir na ação climática e, ao mesmo tempo, garantir nossa competitividade”, disse.

*O repórter viajou a convite da Yara Fertilizantes

AutorCésar H. S. Rezende
FonteExame
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