Pular para o conteúdo principal
Sacre Investimentos
NegóciosMPOL
28/06/2026
6 min

Com 'cidade perdida' e montanha-russa, interior de SP terá parque de dinossauros de R$ 60 milhões

Com 'cidade perdida' e montanha-russa, interior de SP terá parque de dinossauros de R$ 60 milhões

Em 2020, no meio da pandemia, um empresário do ramo de equipamentos de mergulho ligou para um contato na China com um pedido incomum: achar uma fábrica de dinossauros.

O contato sumiu por 20 dias. Quando voltou, trazia uma notícia boa e uma ruim. A ruim, brincou, era que dobraria o valor da consultoria. O motivo: não tinha achado uma fábrica de dinossauros, mas uma cidade inteira cheia delas.

O empresário era Marcio Clare, fundador do Terra dos Dinos, parque temático que abriu em Miguel Pereira, no interior do Rio de Janeiro, e virou um dos destinos de turismo da região.

Agora, a marca está prestes a abrir a segunda unidade, e a primeira experiência ao ar livre da empresa no estado de São Paulo. O parque de Campos do Jordão, a 180 quilômetros da capital, deve ser inaugurado em agosto, com investimento que pode chegar a 60 milhões de reais quando incluída a montanha-russa prometida para uma etapa seguinte.

A abertura cumpre um plano que Clare havia traçado em 2025 e que agora começa a sair do papel.

A obra está com 85% concluída, segundo o empresário, e a inauguração ficou para o segundo semestre por uma decisão estratégica: abrir em plena alta temporada, com a equipe ainda em treinamento, seria um risco. “A gente perde essa alta temporada, mas a gente perde por uma boa razão”, diz Clare.

O parque de Campos do Jordão aposta em um conceito diferente do modelo indoor tradicional.

Em vez de fechar os dinossauros num galpão, o projeto integra mais de 60 deles à vegetação nativa da Serra da Mantiqueira, em uma área de 170 mil metros quadrados. São 1,5 quilômetro de trilhas temáticas, 200 metros de tirolesa e 220 metros de trilha suspensa.

A história contada no local muda em relação ao Rio: enquanto Miguel Pereira gira em torno de um meteoro que teria reativado fósseis, Campos do Jordão se apoia nas araucárias, árvores nativas da região.

Para frente, Clare projeta uma expansão acelerada. A meta é fechar 2026 com a inauguração de Campos do Jordão e iniciar a construção da unidade de João Pessoa, no Cabo Branco. Para 2027, o plano é ter pelo menos cinco novos projetos com locais definidos e licenciados, e inaugurar de dois a três parques ao longo do ano. O investimento previsto para 2027 gira em torno de 200 milhões de reais, segundo o empresário.

Como o parque foi criado

A história do Terra dos Dinos começa em 2020, ainda em plena pandemia.

A proposta de criar um parque temático no meio da mata partiu do então prefeito de Miguel Pereira, que se inspirava no exemplo de Gramado, no Rio Grande do Sul, como destino turístico. Clare topou a ideia com uma condição: o parque deveria ser muito mais do que uma exposição. Queria uma experiência sensorial e imersiva.

O terreno, de área pública, foi concedido por meio de uma PPP, sigla para parceria público-privada, modelo em que o poder público e a iniciativa privada dividem a operação de um empreendimento.

O acordo prevê o pagamento de 5% do faturamento bruto do parque como outorga à prefeitura, além de 3% em ISS — uma receita relevante para o município. “Transformaram um antigo lixão em uma floresta visitável. E o parque ajuda a preservar a área, gerando acesso, emprego e impostos”, diz Clare.

Na operação, os detalhes fazem diferença.

Os dinossauros animatrônicos, termo técnico para os bonecos capazes de mexer as patas e a cabeça, vieram da China. Alguns são tratados como “pacientes”, e recebem “cirurgias” internas quando um motor falha. Já outras esculturas são feitas por artistas brasileiros e espalhadas por trilhas, restaurantes e áreas instagramáveis.

Há um motivo prático para essa divisão de trabalho: segundo Clare, as fábricas chinesas só se interessam por grandes volumes, o que abre espaço para o artista local nas peças sob medida. “É bom porque você cria as barreiras de entrada”, diz.

Como acontece a escolha dos dinossauros - e como será o novo parque

Achar a cidade das fábricas foi só o primeiro problema. Faltava saber qual dinossauro escolher.

Clare conta que recorreu ao Google em busca de um paleontólogo reconhecido e chegou a Alexander Kellner, diretor do Museu Nacional, no Rio. A primeira resposta não foi animadora. Ao ser perguntado sobre as cores dos dinossauros, o paleontólogo admitiu que ninguém sabe ao certo, mas topou ajudar na curadoria.

A China resolve parte da demanda, mas não toda.

Para a nova unidade, Clare encomendou a um artista brasileiro um dinossauro que conversa com os visitantes no meio da trilha, algo que, segundo ele, as fábricas chinesas ainda não fazem.

É nessas peças sob medida que entram atrações como a cidade perdida, um labirinto temático, a mina do âmbar e uma área de escavação paleontológica.

A aposta em Campos do Jordão

A escolha de Campos do Jordão segue uma lógica de demanda já existente.

A cidade recebe, segundo dados da prefeitura, entre quatro e seis milhões de visitantes por ano — público que o parque pretende converter em duas frentes: quem já está na cidade e decide visitar, e quem viaja especificamente para conhecer o parque.

A estimativa da empresa é receber entre 300 mil e 500 mil pessoas por ano, com cerca de 200 mil já até o fim de 2026.

Clare cita um fenômeno comum ao setor, que chama de “efeito champanhe”: a abertura de um parque costuma gerar um pico de público acima da média, que depois se acomoda na operação de rotina.

Em Miguel Pereira, o parque chegou a 350 mil visitantes anuais e hoje opera na faixa de 250 mil a 280 mil. Fatores externos pesam. Janeiro de 2026 foi o mês mais chuvoso em três décadas, e, por ser um parque ao ar livre, o impacto foi direto sobre a visitação no período de férias.

O investimento em Campos do Jordão é 100% com recurso próprio.

A empresa tem dois sócios e, segundo Clare, ainda é pequena demais para um grande fundo, embora ele afirme que fundos de investimento já procuram a companhia para entender o setor de entretenimento.

O parque deve gerar até 200 empregos diretos e indiretos no município, com 100 vagas abertas na fase inicial de contratação. Para manter o padrão da marca, os novos líderes farão estágio em Miguel Pereira antes da abertura.

A montanha-russa é a aposta que Clare guarda para depois.

Ela não entra na inauguração de agosto, mas o empresário afirma que será a primeira da cidade e que vem do mesmo fornecedor usado por parques nos Estados Unidos. “É padrão Disney”, diz.

A ideia é que Campos do Jordão se torne o primeiro parque da marca a ter o brinquedo, em uma etapa seguinte da operação.

AutorDaniel Giussani
FonteExame
Distribuído por