Com consultas a R$ 69, esta startup de saúde vai faturar R$ 37 mi ao trocar clínicas pelo celular

Uma consulta médica na Olá Doutor não exige recepção, sala de espera nem o deslocamento até uma clínica. O paciente baixa o aplicativo, descreve o que precisa e paga R$ 69. Segundo a empresa, em cerca de 30 segundos um médico pode assumir o atendimento, realizado por mensagens de texto, áudios, imagens e vídeos.
O modelo é chamado de consulta assíncrona. Diferentemente de uma videochamada, médico e paciente não precisam permanecer conectados continuamente. A conversa acontece dentro do aplicativo e o profissional responde à medida que recebe as informações. Prescrições, atestados, laudos e o histórico do atendimento também ficam disponíveis na plataforma.
É com esse modelo de clínica sem endereço físico que a healthtech gaúcha pretende elevar o faturamento de R$ 12 milhões, registrado em 2025, para R$ 37 milhões neste ano — crescimento projetado de 208%. A companhia também espera alcançar 800 mil consultas e ampliar em 55% a base de pacientes, de 185.526 para aproximadamente 288 mil.
Fundada em 2023 e lançada comercialmente no ano seguinte, a Olá Doutor realizou 70 mil consultas em 2024 e cerca de 250 mil em 2025. Atualmente, já ultrapassa 60 mil atendimentos mensais. A empresa afirma ter mais de 1 milhão de pacientes cadastrados, recorrência superior a 77% e NPS acima de 87.
“É uma consulta normal, só que dentro do aplicativo. Acontece tudo o que acontece em uma consulta presencial, mas por chat”, afirma Anderson Zilli, fundador e CEO da Olá Doutor.
Como funciona o modelo de negócios da Olá Doutor
Apesar de ser formado em publicidade e propaganda, Zilli nunca trabalhou como publicitário. Desde 1999, construiu sua carreira em empresas de tecnologia, especialmente no desenvolvimento e na comercialização de softwares. O empreendedorismo viria apenas quase duas décadas depois.
A entrada na saúde começou em 2017, quando surgiu a oportunidade de assumir o My Smart Clinic, sistema de gestão médica criado por dois médicos em Florianópolis. Zilli e outros dois sócios transferiram a operação para Caxias do Sul, na Serra Gaúcha, e passaram a administrar a ferramenta em 2018.
O primeiro negócio não tinha, na avaliação do empreendedor, potencial para um crescimento exponencial. Serviu, porém, como uma porta de entrada para conhecer as necessidades de médicos e clínicas e, posteriormente, desenvolver outras plataformas.
A telemedicinaganhou impulso durante a pandemia, quando o atendimento remoto foi autorizado emergencialmente. Em 2022, a modalidade recebeu uma base regulatória permanente: a Resolução nº 2.314 do Conselho Federal de Medicina passou a permitir atendimentos síncronos, em tempo real, e assíncronos, realizados em momentos diferentes. No fim daquele ano, a Lei nº 14.510 disciplinou a telessaúde em todo o território nacional.
Zilli e os sócios começaram a desenvolver a Olá Doutor em 2021. Os primeiros testes chegaram ao mercado em 2023 e somaram 16 mil consultas. A principal aposta era justamente a modalidade assíncrona, ainda pouco conhecida pelos pacientes e vista com desconfiança até dentro da companhia.
“Durante os testes, os médicos e os próprios sócios diziam: ‘Acho que ninguém vai aderir, porque fazer uma consulta via chat é meio impossível’. Mas havia uma demanda reprimida e as pessoas já estavam familiarizadas com a comunicação assíncrona”, afirma Zilli.
Um marketplace de médicos
A inspiração para o modelo veio de serviços que mudaram hábitos de consumo em outros setores. A comunicação pelo WhatsApp mostrou que uma conversa não precisava acontecer em tempo real, enquanto aplicativos como o Uber popularizaram a oferta de profissionais sob demanda.
A pergunta feita pelos fundadores foi como tornar o acesso a um médico tão simples quanto mandar uma mensagem para um amigo. A solução foi criar uma fila de atendimentos disponível aos profissionais cadastrados.
O paciente não paga mensalidade. Depois de baixar o aplicativo, faz um cadastro, descreve a demanda e paga os R$ 69 da consulta. O médico, por sua vez, envia os documentos para validação e, depois de aprovado, pode escolher os atendimentos disponíveis. Não há cobrança de assinatura ou exigência de exclusividade.
“É quase um marketplace, no qual conectamos médicos e pacientes”, diz Zilli. “O paciente só paga quando precisa de uma consulta. Do outro lado, o médico entra na plataforma, atende e recebe sobre a produtividade.”
A Olá Doutor ganha dinheiro retendo uma parcela do valor pago pelo paciente. A empresa não revelou o percentual. O restante é repassado ao médico.
A comunicação assíncrona também amplia a capacidade de atendimento. Segundo o CEO, um profissional pode conduzir até sete consultas simultaneamente — algo que não seria possível em uma chamada de vídeo ou em um consultório.
Essa escala ajuda a reduzir o preço final, mas não elimina as limitações do atendimento remoto. Pela regulamentação do CFM, cabe ao médico avaliar se possui informações suficientes para conduzir a consulta e encaminhar o paciente ao atendimento presencial quando necessário. A norma também considera a consulta presencial a referência e exige o registro do atendimento em prontuário, além da preservação e da confidencialidade dos dados.
Uma clínica digital para cada médico
Depois de começar pelo atendimento imediato via chat, a Olá Doutor passou a oferecer também consultas agendadas, por texto ou videochamada. A nova frente, batizada de Clínica Digital, permite que cada médico organize sua própria operação dentro da plataforma.
O profissional pode definir horários, administrar a agenda, estabelecer o preço das consultas e manter uma carteira de pacientes. A estrutura inclui prontuário eletrônico, prescrições digitais e processamento de pagamentos, sem mensalidade ou investimento inicial para o médico. Os custos são incorporados ao valor pago pelo paciente.
Com a mudança, a empresa tenta deixar de ser apenas uma porta de entrada para demandas pontuais e ampliar a recorrência. Em casos que exigem continuidade ou uma conversa mais detalhada, o paciente pode marcar uma videochamada com o profissional de sua preferência.
“Começamos com algo que ninguém fazia, o atendimento assíncrono. Agora ampliamos a ferramenta para incorporar também a telemedicina tradicional, por videochamada. É importante ter os dois modelos”.
A disputa pelo paciente digital
A Olá Doutor cresce em um mercado ocupado por empresas com diferentes estratégias. A Conexa, por exemplo, atua principalmente com empresas, operadoras e parceiros de saúde, além de oferecer pronto atendimento e consultas agendadas por videochamada. A companhia afirma que mais de 10 mil empresas e operadoras utilizam suas soluções.
O espaço para novos modelos ainda é amplo. Em 2024, somente 23% dos estabelecimentos de saúde brasileiros que utilizaram internet ofereceram serviços de teleconsulta, segundo a pesquisa TIC Saúde, do Cetic.br. No Nordeste, o percentual chegou a 28%; no Norte, ficou em 19%.
A estratégia da Olá Doutor para ocupar esse mercado combina aquisição paga de usuários e produção de conteúdo. Na frente orgânica, a empresa publica materiais sobre saúde e os riscos da automedicação e do autodiagnóstico. Na publicidade, passou a investir em campanhas de maior alcance, inclusive no metrô de São Paulo.
“A gente trabalha com duas estratégias: a parte orgânica, muito ligada à educação, e a parte paga. Fizemos uma ação grande no metrô com a ideia de evitar filas, mostrando que a pessoa pode fazer uma consulta até durante o trajeto”, diz Zilli.
A plataforma já reúne médicos e pacientes de todas as regiões do país, embora a maior concentração ainda esteja nos grandes centros. De acordo com o CEO, brasileiros em viagem ou morando no exterior também recorrem ao serviço.
Sem o custo de abrir clínicas e consultórios próprios, a Olá Doutor pretende continuar crescendo pelo celular. O desafio será mostrar a um público ainda acostumado à sala de espera que, em determinados casos, uma consulta pode começar com uma simples mensagem.
