Com debandada e demissões, Netflix divulga balanço e precisa convencer o mercado
Receita deve ter menor alta em três anos para um 3º tri; ação caiu após cinco balanços seguidos

- O balanço do terceiro trimestre sai nesta terça-feira, 20, por volta das 17h (horário de Brasília), após o fechamento do mercado americano
- Consenso aponta receita de US$ 12,87 bilhões, o crescimento mais lento para um terceiro trimestre em três anos
- Em uma semana, a empresa anunciou cerca de mil demissões e a saída de dois executivos do alto escalão
- A ação acumula queda de mais de 25% em 2026 e recuou após cada um dos últimos cinco balanços
A Netflix informou nesta segunda-feira, 19, que Dan Lin, chefe da divisão de filmes, vai deixar a empresa após quase três anos no cargo, segundo a agência Reuters. Sob o comando dele, a plataforma lançou "KPop Demon Hunters", animação que virou fenômeno e ganhou o Oscar. É a segunda baixa no alto escalão em menos de uma semana, a um dia da divulgação do balanço do terceiro trimestre.
Na quinta-feira, 15, a empresa anunciou a saída de Bela Bajaria, chefe de conteúdo por quase uma década e responsável por sucessos como "Round 6" e "Wandinha". Para o lugar dela foi escolhido Peter Rice, ex-executivo da Disney, que também vai acumular a área de filmes até a escolha de um substituto para Lin.
Um dia antes, em memorando interno, os co-CEOs Ted Sarandos e Greg Peters comunicaram aos funcionários o corte de cerca de mil vagas, ou 6% do quadro, o maior desde 2022. Segundo a CNBC, que teve acesso ao documento, a gestão afirmou que segue no caminho para cumprir a projeção para o ano.
As mudanças não vão aparecer nos números desta terça-feira, 20. O balanço cobre o período de julho a setembro, enquanto as demissões e as trocas no comando aconteceram em outubro. Mas o tema certamente não deve passar batido pela teleconferência com analistas, marcada para as 17h45, podendo pesar nas projeções para o quarto trimestre e para 2027.
O que o mercado espera
Analistas projetam receita de US$ 12,87 bilhões no trimestre, alta de 11,8% na comparação anual, segundo dados da LSEG compilados pela Reuters. Se confirmado, será o crescimento mais lento para um terceiro trimestre em três anos. A própria Netflix havia projetado US$ 12,86 bilhões em julho.
Para o lucro por ação, a expectativa é de US$ 0,82, ante US$ 0,59 um ano antes, valor ajustado pelo desdobramento de ações. O salto de quase 40% tem explicação brasileira. No terceiro trimestre de 2025, o resultado foi afetado por uma despesa de US$ 619 milhões ligada à CIDE, contribuição cobrada sobre remessas ao exterior. Como a despesa não se repete, a comparação anual fica favorecida.
Engajamento em queda
A principal preocupação dos investidores é o tempo que os assinantes passam na plataforma. Segundo estimativa da Jefferies, o tempo médio mensal de visualização por assinante caiu para 49 horas no primeiro semestre deste ano, ante 66 horas no mesmo período de 2023.
Dados da empresa de pesquisa Apptopia, citados pela Reuters, mostram que a taxa de cancelamento nos Estados Unidos subiu 16,6% no terceiro trimestre na comparação anual, cerca do dobro do ritmo dos três trimestres anteriores. Os downloads do aplicativo nos EUA e no Canadá caíram 20% no período.
O principal rival é o YouTube, que já tem quase o dobro do tempo de visualização da Netflix nos EUA, segundo a Nielsen. A participação da Netflix no tempo total de TV no país caiu de 8,8% para 7,8% em um ano, enquanto a do YouTube passou de 13,4% para mais de 14%, também segundo Nielsen. Sarandos admitiu recentemente que a empresa "não está crescendo tão rápido quanto se gostaria" e apontou a programação ao vivo como caminho para acelerar.
Ação perto da mínima em dois anos
A ação da Netflix fechou esta segunda-feira a US$ 69,85, ante US$ 93,76 no fim de 2025, uma queda de mais de 25% no ano. O papel atingiu neste mês a mínima em dois anos e caiu depois de cada um dos últimos cinco balanços. Em julho, recuou cerca de 7% no dia seguinte à divulgação, quando a receita do segundo trimestre veio levemente abaixo do esperado.
Os analistas seguem majoritariamente otimistas com a empresa, mas ficaram mais cautelosos. Seis casas cortaram o preço-alvo em outubro, entre elas Morgan Stanley, Barclays, BMO e Wedbush.
O argumento a favor
Há quem veja oportunidade na queda. Em um ano, a Netflix perdeu valor de mercado equivalente a toda a Disney, embora as projeções de lucro para 2026 tenham se mantido estáveis. Parte da queda veio da disputa pela Warner Bros., que custou quase US$ 200 bilhões em valor de mercado até fevereiro. A Netflix desistiu do negócio após a contraproposta da Skydance e embolsou US$ 2,8 bilhões em multa de rescisão.
Porém, a decisão de não pagar US$ 83 bilhões pela Warner, incluindo dívidas, foi vista como acertada pelo mercado. A empresa usou o caixa para recomprar ações em ritmo recorde no segundo trimestre, e o rendimento de fluxo de caixa livre projetado, indicador que compara o caixa gerado com o valor de mercado, chegou ao maior nível em 15 anos, segundo a FactSet.
A publicidade é a outra aposta. A Netflix mira cerca de US$ 3 bilhões em receita com anúncios neste ano, o dobro de 2025, e o Morgan Stanley estima que esse valor pode crescer mais da metade em 2027.
