Com El Niño à vista, Nestlé usa IA e reduz em 36% o consumo de água em cafezais do Espírito Santo
Projeto faz parte do Nescafé Plan, programa de agricultura regenerativa da gigante de alimentos para descarbonizar a cadeia do café e aumentar a resiliência da produção às mudanças climáticas

Nos cafezais do Espírito Santo, o último El Niño trouxe estresse hídrico e térmico à safra em 2024, obrigando os produtores a se adaptarem com a irrigação por bombas.
Para dar um passo além, a Nestlé decidiu testar se a inteligência artificial poderia otimizar "quando e quanto" irrigar em 20 propriedades parceiras do Nescafé Plan.
Por meio de um projeto pioneiro, a gigante de alimentos instalou estações meteorológicas nas fazendas para coletar dados de temperatura, chuva, umidade e evapotranspiração.
A plataforma analisa os dados climáticos em tempo real e recomenda o momento exato para ligar e desligar a irrigação, evitando desperdícios.
O resultado do piloto foi positivo: redução de 36% no consumo de água por quilo de café produzido e cerca de 15% de economia em energia, já que as bombas trabalham só pelo tempo necessário.
O investimento foi de R$ 400 mil e integra o aporte global de 1 bilhão de francos suíços que a companhia já destinou ao programa Nescafé Plan até 2030.
Resiliência climática começa no campo
A iniciativa faz parte de uma estratégia mais ampla da Nestlé para descabonizar a cadeia do café, cacau e leite.
A empresa estruturou a agricultura regenerativa como pilar central ESG depois de constatar que cerca de 70% das suas emissões de carbono vêm do setor agropecuário, boa parte delas fora do controle direto da empresa, no chamado Escopo 3, referente aos fornecedores.
Hoje, o programa já apoia mais de 10 mil produtores em todo o Brasil.
"Ao levarmos a tecnologia para o manejo da irrigação, promovemos um ganho ambiental e econômico ao mesmo tempo", diz Rodolfo Clímaco, gerente de agricultura para Cafés na Nestlé e líder do Nescafé Plan no Brasil, em entrevista à EXAME.
Segundo o executivo, a solução combina uma série de benefícios: preservação dos recursos hídricos, melhora na saúde do solo e redução de custos operacionais para o produtor, além de tornar as propriedades mais preparadas para enfrentar eventos climáticos extremos como secas.
"Queremos gerar impacto econômico para quem está no campo e demonstrar que a regeneração aumenta a resiliência contra as mudanças climáticas", destacou Rodolfo.
Em 2026, a preocupação é ainda maior, visto que a OMM confirmou a formação de um El Niño forte a partir deste mês de agosto.
Dados de 1996 a 2025 mostram que, nesses anos, o Espirito Santo tem 60% de probabilidade de perder produtividade por causa das altas temperaturas e da escassez de chuva, o oposto do que ocorre em São Paulo e no Sul de Minas, onde o fenômeno costuma favorecer o café.
Além da economia de água e energia, a tecnologia trouxe outros frutos: floradas mais uniformes, menos perda de nutrientes por lixiviação e uso mais eficiente de fertilizantes, fatores que, juntos, tendem a aumentar a produtividade das lavouras nos próximos ciclos.
Os resultados do piloto ainda estão sendo consolidados, mas os primeiros sinais já animam.
Das mais de 3.800 propriedades do Nescafé Plan no Brasil, 97% já adotam alguma técnica de eficiência hídrica, como a irrigação por gotejamento, e apresentam em média 60% mais produtividade que fazendas convencionais.
Globalmente, a marca comprou 53% do seu café verde de fazendas com práticas regenerativas em 2025. A inteligência artificial entra, agora, como uma "camada extra" sobre o sistema no campo.
"É um importante avanço para aumentar a precisão do manejo da irrigação e a resiliência da produção", complementou Rodolfo.
Se os resultados forem confirmados, a empresa pretende expandir a tecnologia para outras regiões produtoras de café do país, justamente num momento em que eventos extremos tendem a tornar a gestão da água um dos principais desafios da cafeicultura brasileira.
