Com greve da Caixa, mais de 20 mil imóveis desaparecem de site de leilão
Paralisação dos funcionários interrompe novas ofertas em modalidades digitais e afeta mercado que costuma movimentar até 35 mil imóveis por mês

Mais de 20 mil imóveis que normalmente aparecem disponíveis nos canais digitais de venda da Caixa deixaram de aparecer no site de leilões do banco após o início da greve dos funcionários da instituição. A paralisação, iniciada nesta quinta-feira, 10, afetou justamente etapas internas necessárias para liberar novos lotes de imóveis retomados pela Caixa.
Segundo Victor Oliveira, advogado especialista em imóveis de leilão, a greve interrompeu a entrada de novos imóveis em algumas das modalidades mais procuradas pelos compradores, como Venda Online e Venda Direta.
“Naturalmente, os imóveis de leilão da Caixa seriam impactados pela greve. Nesse momento, não existem imóveis listados à venda no site nas duas modalidades, que são as mais famosas e com maior número de imóveis disponíveis em todo Brasil”, afirma.
A Caixa costuma disponibilizar cerca de 30 mil a 35 mil imóveis por mês em seu portal de venda de imóveis, segundo Oliveira. Com a paralisação, parte dessa oferta deixou de chegar ao mercado, restando cerca de 12 mil. "Os imóveis são imputados manualmente. Então, se existissem oportunidades de compras que venciam em uma determinada data, se ninguém recolocar no site, ela não volta a aparecer. Então, não sabemos se estes imóveis foram arrematados ou não", explica.
O impacto acontece em um momento em que os leilões da Caixa atraem investidores e compradores em busca de descontos. Os imóveis podem ser vendidos com valores abaixo da avaliação de mercado, com reduções que, em alguns casos, chegam a 95%, dependendo das condições do lote.
Para investidores que acompanham leilões, a interrupção da oferta representa uma redução temporária de oportunidades. Segundo Oliveira, o efeito não atinge apenas compradores interessados em adquirir imóveis com desconto, mas também a própria Caixa.
“Isso não impacta apenas o investidor de imóveis de leilão, mas também o próprio balanço da instituição financeira que, por normas bancárias do Banco Central, não pode ter uma carteira tão robusta de ativos imobilizados em seu patrimônio”, afirma. O banco precisa dar destino aos imóveis retomados porque esses ativos permanecem registrados em seu patrimônio enquanto não são vendidos.
Os leilões de outras modalidades que já estavam marcados, disponíveis nos sites dos leiloeiros parceiros, não estão suspensos. Só que Oliveira cita um impasse: "Uma vez vendido no site do leiloeiro, não tem ninguém dentro da Caixa para receber essa informação".
Procurada, a Caixa reafirmou que os leilões de imóveis nas modalidades Leilão SFI e Licitação Aberta seguem sendo realizados conforme os cronogramas e editais publicados nos canais oficiais da instituição. Os leilões citados são realizados de forma online, por meio das plataformas dos leiloeiros credenciados.
"Em razão do movimento paredista, alguns serviços e etapas operacionais que dependem de atuação da Caixa poderão ter prazos impactados durante o período", concluiu em nota.
Por que a greve afeta os leilões de imóveis da Caixa
Os empregados da Caixa entraram em greve por tempo indeterminado após rejeitarem a proposta do banco para renovação do Acordo Coletivo de Trabalho (ACT).
O principal ponto de divergência está relacionado ao Saúde Caixa, plano de assistência médica dos funcionários. A proposta apresentada pela instituição previa aumento da contribuição dos empregados, mas foi rejeitada nas assembleias realizadas no início de setembro.
Além do plano de saúde, os trabalhadores também apresentam outras reivindicações relacionadas ao acordo coletivo específico da Caixa.
As negociações continuam, mas a paralisação foi mantida enquanto os empregados aguardam uma nova proposta.
Embora a greve tenha impacto principalmente no atendimento presencial das agências, ela também afeta processos internos da instituição, incluindo etapas relacionadas ao mercado imobiliário.
Segundo Oliveira, o setor já vinha enfrentando lentidão antes mesmo da paralisação. “Já vínhamos de um ano com vários processos e procedimentos internos — principalmente relacionados ao mercado imobiliário — extremamente lentos. Como, por exemplo, imóveis que ficam aguardando 120 a 180 dias para liberação de verba e venda”, afirma.
Com a greve, a expectativa é de que esses prazos aumentem nos próximos meses.
Como funcionam os leilões de imóveis da Caixa
A Caixa vende imóveis retomados por diferentes modalidades, incluindo 1º e 2º leilões obrigatórios, licitação aberta, venda online e venda direta.
Os imóveis geralmente chegam ao mercado após a retomada de propriedades financiadas por inadimplência. Pela legislação da alienação fiduciária, quando o comprador deixa de pagar o financiamento, o banco pode recuperar o imóvel e precisa realizar tentativas públicas de venda para tentar recuperar os valores devidos.
Também existem imóveis que chegam aos canais da Caixa por outros motivos, como bens não utilizados pelo banco, conhecidos como BNU (bens não de uso).
Nas modalidades digitais, os compradores podem encontrar apartamentos, casas, terrenos e imóveis comerciais com possibilidade de financiamento e, em alguns casos, uso do FGTS, desde que o interessado cumpra os critérios de crédito da instituição.
A redução dos preços é um dos principais atrativos. Segundo especialistas do setor, os descontos médios costumam ficar entre 40% e 60% sobre o valor de avaliação, embora alguns casos específicos possam apresentar descontos maiores.
