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NegóciosMPOL
29/09/2026
10 min

Com IA, marca que fazia R$ 2,5 mi com carteiras de papel renasce como laboratório de tecnologia

Dobra Labs abandonou a produção física para desenvolver softwares sob medida e treinar empresas no uso de inteligência artificial

Com IA, marca que fazia R$ 2,5 mi com carteiras de papel renasce como laboratório de tecnologia

Durante quase uma década, a empresa gaúcha Dobra ficou conhecida por vender carteiras que pareciam feitas de papel. O material, na verdade, era Tyvek, uma fibra resistente à água e a rasgos. Em 2019, quando a EXAME contou a história da companhia, o negócio faturava R$ 2,5 milhões por ano, vendia aproximadamente 6.000 itens por mês e tinha um cachorro da raça pug ocupando simbolicamente o posto de CEO.

Em 2025, as carteiras saíram de cena. A fábrica deixou de operar. O cão perdeu o cargo. E o negócio que nasceu em Montenegro, no interior do Rio Grande do Sul, passou por uma completa transformação.

Hoje, a empresa se chama Dobra Labs e tem apenas quatro pessoas: Augusto Hommerding Massena, Eduardo Seelig Hommerding, Filipe Nicoli e Alcides Silva. Os quatro são sócios e também formam toda a equipe da companhia. Em vez de produtos físicos, vendem desenvolvimento de software, automações e projetos deinteligência artificial, além de treinamentos para empresas.

A nova operação faturou R$ 500 mil entre março e dezembro de 2025, seu primeiro ano efetivo depois da virada do negócio. Até setembro de 2026, já chegou a R$ 1,2 milhão e a expectativa é encerrar o ano acima dos R$ 2 milhões.

“Chegou um momento em que a gente olhou para o negócio e pensou: talvez estejamos colocando energia no lugar errado”, diz Augusto Massena, CEO da Dobra Labs. A percepção veio enquanto a antiga Dobra ainda tentava resolver problemas de produção e recuperar seu crescimento, ao mesmo tempo que uma pequena frente de serviços criada quase sem intenção começava a conquistar clientes.

A pista para o novo negócio estava dentro da própria empresa. Durante anos, praticamente tudo o que a Dobra precisava era desenvolvido pela equipe — de sites e automações a sistemas de produção e campanhas de marketing.

“As pessoas perguntavam qual agência tinha feito determinada coisa para a gente, e a resposta era sempre a mesma: a gente fez dentro de casa”, afirma Eduardo Hommerding, hoje responsável pela frente de inteligência artificial da companhia.

Como uma carteira de papel deu origem a um laboratório de tecnologia

A Dobra nasceu oficialmente em 2016, em Montenegro. Augusto, seu irmão Guilherme Massena e o primo Eduardo Hommerding começaram com um investimento de R$ 3.500 em impressora, matéria-prima e estiletes. A produção era artesanal e sob demanda, apoiada por uma rede local de costureiras.

As carteiras foram o produto que colocou a empresa no mapa, mas não eram a única peculiaridade. A Dobra adotou gestão horizontal, abriu números aos funcionários, pagou comissões a artistas que criavam estampas e destinava parte das vendas a iniciativas sociais.

Por trás dessas escolhas havia também uma característica que acabaria sendo decisiva anos depois: o hábito de tentar resolver os problemas internamente.

Eduardo passou quase dez anos em um grupo de agências de viagens antes de ter a Dobra como principal negócio. Dentro da empresa, concentrou-se sobretudo em marketing e tecnologia. “A gente tocava tudo dentro de casa. Era uma fábrica, mas também fazia criação de site, automação de marketinge os sistemas. Tudo que você imaginar, a gente tentava fazer internamente”, diz.

Filipe Nicoli chegou em 2017 por uma conexão pessoal: Guilherme, um dos fundadores, era seu colega desde a escola. Estudante de engenharia eletrônica, Nicoli havia começado a trabalhar com desenvolvimento web e acabou assumindo boa parte das soluções tecnológicas da Dobra.

“Eu entrei sem saber exatamente no que poderia ajudar. Lá dentro, a gente conseguiu fazer muita coisa internamente e eu fui aprendendo”, diz Nicoli. Ele passou a desenvolver sistemas de atendimento e produção e integrações entre máquinas de impressão, corte, expedição e outras etapas da fábrica.

O quarto integrante do time atual, Alcides Silva, chegou à companhia em 2020. Formado em marketing e publicidade pela PUC-Campinas, ele já havia criado uma startup durante a faculdade e participado de um programa de aceleração no Vale do Silício. Depois trabalhou com inovação em empresas maiores.

“Eu tive esse híbrido entre trabalhar com startup, com inovação em grandes empresas e agora voltar a empreender com eles”, afirma Silva, que retornou recentemente em tempo integral à Dobra Labs.

Por que abandonar os produtos físicos

A mudança não aconteceu de uma hora para outra.

Os primeiros sinais vieram durante a pandemia. A antiga Dobra chegou a ter 20 pessoas, mas passou a ver funcionários mudarem de cidade, de país ou de carreira. O time diminuiu para 12 pessoas, sem que o movimento tivesse sido provocado por uma rodada de demissões.

Ao mesmo tempo, a empresa começou a enfrentar dificuldades financeiras e de produção. Em 2023, outro golpe veio das redes sociais: a companhia perdeu uma conta no Instagram que tinha quase 200.000 seguidores, depois de uma denúncia envolvendo direitos autorais de uma estampa. A empresa não conseguiu recuperar o perfil.

Sem um de seus principais canais de relacionamento com os consumidores, passou parte daquele ano recorrendo a promoções para a base de e-mails. Em 2024, os sócios tentaram uma reação: fizeram um rebranding, lançaram novos produtos e reconstruíram a presença no Instagram, chegando novamente a cerca de 36.000 seguidores.

O problema industrial, porém, continuava. A fabricação era artesanal e sob demanda, e treinar uma nova costureira podia levar pelo menos quatro meses, segundo os sócios. Ao mesmo tempo, os integrantes do negócio estavam em momentos pessoais diferentes. Augusto queria viver em Porto Alegre; Eduardo tinha uma filha pequena; Guilherme passou a dedicar mais tempo ao negócio da família.

E havia uma operação paralela crescendo quase sem esforço.

Desde 2020, a Dobra fazia transmissões na internet para explicar seus próprios processos de gestão, branding e tecnologia. Foram 38 lives. Em 2021, a empresa começou discretamente a prestar serviços para pessoas que acompanhavam o conteúdo e queriam aplicar as mesmas ferramentas em seus negócios.

No fim de 2024, enquanto a operação de produtos ainda exigia energia para resolver problemas de produção, a área de serviços chegava a fechar cerca de três negócios por mês.
Foi quando a balança virou.

A Dobra anunciou o encerramento do e-commerce em dezembro de 2024 e abriu uma última janela de vendas de 15 dias. A procura foi tão grande que o volume equivalia a três meses normais de vendas. A equipe continuou produzindo os pedidos até o início de 2025.

“A Dobra foi a minha escola de comunicação e marketing”, diz Augusto, que começou a participar do negócio ainda aos 18 anos, durante a faculdade. “Minha trajetória profissional inteira aconteceu ali.”

O que a Dobra Labs vende agora

A nova empresa acabou concentrando a atuação em duas frentes. A primeira é o desenvolvimento de softwares e sistemas personalizados. Em vez de chegar ao cliente com um produto pronto, os quatro sócios dizem começar ouvindo problemas do cotidiano: uma tarefa repetitiva, um fluxo lento ou um processo que depende de trabalho manual. A partir disso, desenvolvem uma ferramenta específica.

Um exemplo estava diante deles durante a entrevista à EXAME, realizada no Semana Caldeira, evento de inovação promovido pelo Instituto Caldeira, em Porto Alegre.

Em 2025, quando a Dobra Labs tinha poucos meses de operação, a equipe foi inicialmente procurada para oferecer resumos de palestras do evento. Durante a conversa, surgiram outros problemas relacionados ao aplicativo que seria usado pelos participantes.

A reunião mudou o escopo do projeto. Em um mês, os sócios desenvolveram um aplicativo completo para o evento, com funcionalidades feitas de acordo com as necessidades da organização. Em 2026, foram chamados novamente para aprimorar a plataforma.

Entre as funções está uma evolução do Palestrinha, ferramenta criada originalmente pela própria Dobra Labs para experimentar tecnologia de IA. No aplicativo, o sistema consegue responder perguntas sobre a programação, ajudar a localizar atividades e produzir resumos de palestras.

A companhia também trabalha em projetos de automação para departamentos de marketing. Um deles, ainda sem autorização para ter o cliente identificado, envolve uma rede hoteleira com mais de 50 unidades no Brasil. A proposta é automatizar a produção de diferentes materiais de comunicação, de posts para redes sociais a peças usadas dentro dos hotéis, preservando a identidade visual da marca.

A segunda frente são os treinamentos de inteligência artificial. A empresa monta workshops de acordo com o nível de maturidade e com os problemas de cada cliente — de encontros para lideranças entenderem o impacto da tecnologia a treinamentos práticos para equipes criarem automações.

A lógica, dizem os sócios, é ensinar menos sobre o que a IA poderá fazer no futuro e mais sobre aquilo que pode ser colocado para funcionar agora.

Como apenas quatro pessoas dão conta da operação

A aposta em inteligência artificial não está apenas no produto oferecido aos clientes. Ela também determina como a própria Dobra Labs funciona.

Os quatro sócios desenvolveram um ambiente no qual concentram informações da empresa, materiais, documentos, transcrições de reuniões, padrões de design, dados sobre clientes e processos internos. Sobre essa base trabalham agentes de IA usados para executar diferentes tarefas.

Na prática, o sistema reduz parte do trabalho operacional. Uma reunião comercial de meia hora, por exemplo, pode alimentar a elaboração de uma proposta para o cliente sem que alguém precise começar o documento do zero.

O mesmo vale para atividades de pesquisa, produção de conteúdo, programação e organização de projetos.

Nicoli diz que o compartilhamento desse contexto também permite que um integrante do time continue um trabalho iniciado por outro. “As informações ficam guardadas ali. Um pode pegar o trabalho do outro no meio do caminho e continuar seguindo a mesma linha de raciocínio.”

A estrutura enxuta também mudou a divisão de funções. Eduardo ocupa a posição de Chief AI Officer, Nicoli é CTO, Augusto é CEO e Silva atua como Business Tech.

Sem esse nível de automação, eles calculam que precisariam de vários profissionais adicionais para desenvolvimento de software, produção de conteúdo, pesquisa, redes sociais e comercial.

É uma inversão curiosa para uma empresa que nasceu fabricando carteiras artesanalmente. Antes, boa parte do desafio estava em encontrar pessoas e tempo para costurar produtos sob demanda.

Agora, os sócios querem descobrir quanto negócio quatro pessoas conseguem produzir quando parte da execução fica nas mãos das máquinas.

Como eles transformam conteúdo em novos negócios

Há ainda uma terceira peça ajudando a alimentar a operação.

Em fevereiro, os sócios criaram o Ratos de IA, projeto voltado ao público que quer acompanhar e aprender a usar inteligência artificial. Todas as semanas, eles selecionam novidades, testa ferramentas e publicam vídeos explicando o que consideram aplicável de imediato.

A comunidade já reúne mais de 27.000 inscritos no YouTube, enquanto os cursos ligados ao projeto acumulam mais de 2.500 alunos.

O conteúdo funciona também como laboratório. Ferramentas são testadas primeiro internamente; algumas são descartadas como hype, enquanto outras acabam entrando nos treinamentos ou nos sistemas entregues aos clientes.

Essa velocidade torna mais difícil, segundo os sócios, desenhar planos muito longos para o negócio. A evolução recente de modelos capazes não apenas de responder perguntas, mas também de executar tarefas, já fez a Dobra Labs alterar sua estratégia em poucos meses.

Por enquanto, existe uma referência mais concreta. Depois dos R$ 500 mil faturados em 2025, a empresa chegou a R$ 1,2 milhão em 2026 e pretende cruzar a marca dos R$ 2 milhões até o fim do ano. É um número que aproxima o novo negócio do patamar de receita que tornou a antiga Dobra conhecida.

AutorGuilherme Gonçalves
FonteExame
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