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Sacre Investimentos
InvestMercados
05/08/2026
4 min

Com juro alto, empresas transformam receitas futuras em liquidez imediata

Com empréstimos bancários mais caros, companhias ampliam uso de antecipação de recebíveis para reforçar caixa

Com juro alto, empresas transformam receitas futuras em liquidez imediata

O ciclo de juros elevados no Brasil está mudando a forma como empresas acessam financiamento e pode alterar a dinâmica do mercado de crédito corporativo. Com empréstimos bancários mais caros, companhias têm recorrido a estruturas como a antecipação de recebíveis para reforçar o caixa e reduzir a dependência de linhas tradicionais.

Um levantamento exclusivo da Everblue mostra que mais de 60% do crédito disponibilizado em sua carteira é voltado à antecipação de recebíveis, contra 40% de capital de giro. A empresa vê uma tendência de crescimento de alternativas diante de um cenário de custo elevado do dinheiro.

O movimento acontece em meio a um cenário de pressão sobre o crédito corporativo. Em abril, as taxas médias do crédito livre para pessoas jurídicas chegaram a 25,3% ao ano, enquanto o estoque de crédito para empresas cresceu 6,7% em 12 meses, em ritmo mais lento.

Crédito caro aumenta busca por alternativas de financiamento

A antecipação de recebíveis ganhou espaço porque ajuda empresas a ajustar o intervalo entre recebimentos e pagamentos, um dos principais desafios do fluxo financeiro corporativo.

A companhia antecipa, assim, recursos que já tem a receber, como duplicatas e contratos, transformando receitas futuras em liquidez imediata. A modalidade pode ser usada por empresas que vendem a prazo, mas precisam manter o caixa equilibrado para cumprir compromissos de curto prazo.

De acordo com dados do Banco Central compilados pela Everblue, o crescimento das concessões de crédito livre para empresas no início de 2026 foi impulsionado principalmente por operações de curto prazo, com destaque para modalidades ligadas ao desconto de recebíveis.

"O recebível existe, mas o dinheiro pode entrar em 30, 60 ou 90 dias, enquanto parte relevante das obrigações vence antes", detalhou o CEO do Grupo Everblue, Gabriel Padula. "A antecipação permite aproximar esses dois calendários e pode evitar que uma necessidade pontual de liquidez se transforme em um problema financeiro maior."

Selic menor não reduz crédito corporativo automaticamente

A expectativa de queda dos juros pode melhorar as condições de financiamento ao longo do tempo, mas a redução da Selic não chega imediatamente ao custo final das empresas.

Depois de permanecer em 15% ao ano no início de 2026, a taxa básica foi reduzida para 14,25% ao ano em junho, com corte acumulado de 0,75 ponto percentual. Ainda assim, o ambiente de crédito continuou pressionado, com taxas elevadas e oferta mais restritiva, na avaliação do especialista.

Além da Selic, as empresas são impactadas pelo risco de crédito e pelos spreads, que são a diferença entre o custo de captação dos recursos pelas instituições financeiras e a taxa cobrada dos clientes. Esses fatores podem limitar uma queda mais rápida do custo dos empréstimos corporativos.

O cenário influencia, neste sentido, a estrutura de capital das companhias. Empresas mais dependentes de financiamento ou com maior necessidade de capital de giro podem sentir mais o efeito de um crédito caro por mais tempo.

Inadimplência mantém pressão sobre as empresas

A busca por alternativas de financiamento vai de encontro a um contexto de inadimplência empresarial elevada. O levantamento divulgado pela Everblue detalhou que mais de nove milhões de Cadastros Nacionais de Pessoas Jurídicas (CNPJs) estavam negativados no país em maio, acumulando R$ 229,9 bilhões em dívidas.

Entre micro e pequenas empresas, 8,5 milhões de CNPJs estavam inadimplentes, com R$ 198,8 bilhões em compromissos atrasados.

A pressão financeira não está concentrada apenas no sistema bancário. Do total das dívidas empresariais negativadas em maio, 19,5% estavam relacionadas a bancos e cartões. Serviços representavam 31,5% das pendências, seguidos por cooperativas, com 8,6%, utilities, com 6,9%, e telefonia, com 5,7%.

Mercado acompanha impacto do crédito sobre empresas

A Everblue destacou, também, que a antecipação de recebíveis e o capital de giro cumprem funções diferentes dentro da estratégia financeira das companhias. Enquanto o capital de giro adiciona recursos para financiar a operação, a antecipação transforma um valor já previsto no balanço em dinheiro disponível antes do vencimento.

Para investidores, o movimento reforça um ponto de atenção em um ciclo de juros ainda elevados, pois, mesmo com a perspectiva de cortes na Selic, o custo do crédito e a disponibilidade de financiamento continuam sendo fatores relevantes para a geração de caixa e a expansão das empresas, relatou à EXAME.

"Mesmo em um ciclo de queda da Selic, liquidez continuará sendo uma questão central para as empresas. A antecipação de recebíveis não deve substituir uma gestão eficiente de caixa, mas pode reduzir a dependência de dívida tradicional quando utilizada de forma planejada", conforme Padula.

AutorAna Luiza Serrão
FonteExame
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