Com metro quadrado acima de R$ 20 mil, incorporadora aposta numa Belém pós-COP
Grupo Quadra, criado há 47 anos e na terceira geração, chegou a R$ 700 milhões em receita apostando no alto padrão fora do eixo Rio-SP

RESUMO +
A construtora familiar Grupo Quadra, de Belém, dobrou o faturamento em dois anos e alcançou cerca de R$ 700 milhões em receita em 2025. No mercado imobiliário de luxo em Belém, passou a vender empreendimentos acima de R$ 20 mil por metro quadrado, ante uma média local de R$ 10 mil a R$ 11 mil.
O mercado imobiliário de alto padrão costuma ser associado aos grandes centros do Sudeste, mas uma construtora familiar de Belém, no Pará,conseguiu construir uma operação milionária em um dos mercados mais restritos do país. O Grupo Quadra, com 47 anos de história e atualmente na terceira geração, dobrou o faturamento em dois anos e chegou a cerca de R$ 700 milhões em receita em 2025.
A expansão veio acompanhada de uma mudança no posicionamento do produto. Enquanto a média do mercado imobiliário de Belém gira em torno de R$ 10 mil a R$ 11 mil por metro quadrado, a empresa passou a vender empreendimentos acima de R$ 20 mil por metro quadrado.
“Por volta de 2019 e 2020, a gente praticava preços de R$ 6 mil a R$ 7 mil o metro quadrado. Hoje a gente tem prédios acima de R$ 20 mil o metro quadrado”, afirma Felipe Couceiro , sócio e diretor do Grupo Quadra.
Segundo ele, a empresa atua no topo do mercado local e ajudou a elevar o patamar de preços da cidade. “A gente acaba determinando mais ou menos o parâmetro do mercado. Até onde dá para puxar, a gente vai puxando”, afirma.
O crescimento, porém, não veio apenas de uma estratégia comercial. Ele é resultado de uma trajetória familiar iniciada pelo avô de Felipe, que construiu uma empresa de engenharia que atravessou três gerações.
IL Palagio: empreendimento na Doca nº 1, em Belém, tem um apartamento por andar, 6 vagas de garagem e plantas de até 5 suítes (Grupo Quadra/Divulgação)
Do açougue ao mercado imobiliário de luxo
A história do Grupo Quadra começa com o avô de Felipe, filho de um açougueiro e um dos muitos irmãos de uma família de origem simples.
Segundo Felipe, o avô conseguiu estudar engenharia e construiu sua trajetória profissional até fundar empresas de construção. “O pai dele era açougueiro, e meu avô ajudava no açougue até mais velho. Ele tinha uns dez ou 11 irmãos, então era bastante desafiador. Ele conseguiu se formar engenheiro e foi construindo a trajetória dele”, conta.
A empresa começou atuando em diferentes tipos de obras. Na visão do fundador, não havia restrição de mercado. “Ele dizia que fazia de casa de cachorro a casa de milionário. Para ele, eram os dois extremos”, afirma Felipe.
A lógica funcionava em uma época em que a empresa precisava aproveitar todas as oportunidades que apareciam. Com o tempo, porém, a companhia percebeu que precisava se especializar. “Você tem que começar a ficar bom em alguma coisa”, afirma.
A mudança mais importante veio com a entrada da segunda geração, quando o pai de Felipe passou a direcionar a empresa para incorporação imobiliária. Segundo Felipe, o pai vendeu o apartamento que havia recebido como presente de casamento e usou o dinheiro para dar entrada em um terreno.
“É aquela história do empreendedor raiz. A gente começou a fazer empreendimentos imobiliários próprios”, diz.
A partir dali, a empresa deixou de apenas executar obras para terceiros e passou a criar seus próprios produtos residenciais.
A consolidação do Grupo Quadra aconteceu em um momento em que o mercado imobiliário de Belém passava por uma retração. Durante a expansão das incorporadoras nacionais, empresas como Cyrela e PDG chegaram a avaliar oportunidades na cidade, mas posteriormente deixaram o mercado local.
Para Felipe, o momento de saída dos concorrentes foi justamente quando a empresa decidiu aumentar sua presença.
“Eu via todo mundo tirando os tapumes da rua, retraindo, indo embora de Belém. E eu via a gente botando mais tapume na rua”, afirma.
A decisão ajudou a construir uma percepção de confiança em uma cidade onde relacionamento pesa bastante na decisão de compra.
Da esquerda para a direita: Arthur, Leopoldo, Antônio, Tony e Felipe Courceiro. (Grupo Quadra/Divulgação)
Coisas que só Belém tem
O mercado de luxo de Belém tem características diferentes dos grandes centros. Para Felipe, o tamanho menor da cidade cria uma relação mais próxima entre incorporadora e cliente.
“É interessante para perfis de empreendedores como o nosso trabalhar para menos pessoas e poder trabalhar melhor para elas”, afirma.
Segundo ele, o mercado de alto padrão local ainda tem forte influência do consumo realizado fora da cidade. A proximidade com São Paulo e Estados Unidos faz com que parte desse público viaje com frequência para comprar produtos e serviços que ainda não estão disponíveis localmente.
Ao mesmo tempo, a ausência de uma oferta ampla de lazer aumenta a importância da própria residência. “Na maioria das vezes, o melhor lugar para as pessoas estarem é a própria casa”, diz.
Segundo Felipe, isso influencia o desenho dos empreendimentos, que passam a funcionar quase como clubes privados. “O Pará tem um povo caloroso, que gosta de receber em casa. Isso faz da casa um lugar de encontro”, diz.
Além disso, a realização daCOP30 trouxe mudanças importantes para a infraestrutura da cidade. Belém recebeu em poucos anos investimentos que normalmente demorariam muito mais tempo para acontecer.
O evento também gerou desafios para o setor da construção civil, principalmente pela disputa por mão de obra. Segundo Felipe, algumas empresas passaram a enfrentar dificuldade para manter equipes nos canteiros.
“Às vezes a pessoa chegava no nosso canteiro ainda com o uniforme de alguma obra da COP. A gente perdia um funcionário por R$ 50”, afirma.
Por isso, a estratégia da empresa foi evitar movimentos bruscos durante o período de maior pressão. “Vamos esperar a COP passar para entender o que vai ficar, senão a gente vai se movimentar num momento superinstável”, diz.
Próximos passos
Apesar da força no residencial de alto padrão em Belém, o Grupo Quadra também expandiu sua atuação em construção para terceiros. A empresa atualmente realiza obras para clientes privados e para o setor público, além de atuar em outros estados.
A expansão geográfica começou pela construção, uma atividade mais fácil de replicar do que a incorporação residencial.
“A gente começou pela obra, que é a nossa parte mais plug and play. É a mais escalável, a mais rápida de avançar geograficamente”, afirma.
A companhia tem obras em estados como Ceará e São Paulo, incluindo projetos hospitalares.
No residencial, porém, a decisão é manter o foco em Belém. “Esse é um negócio que depende de credibilidade. Às vezes a pessoa está comprando a única residência do resto da vida, então ela precisa ter uma confiança muito grande em você”, afirma.
Para Felipe, o desafio agora é ampliar a presença sem perder a característica que ajudou a empresa a crescer.
