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Sacre Investimentos
NegóciosMPOL
30/05/2026
6 min

Com monitores de até R$ 8 mil, esta empresa lidera o mercado gamer — e é contra um truque do setor

Com monitores de até R$ 8 mil, esta empresa lidera o mercado gamer — e é contra um truque do setor

Num canto do quarto, um jogador de vídeo-game encara a pista de pouso.

A tela de 49 polegadas à frente dele preenche todo o campo de visão enquanto ele pilota — um avião, um carro de corrida, às vezes um paraquedas. Não sai do lugar, mas a sensação de estar dentro do jogo é o ponto. Monitores assim, de simulação, são o topo de uma linha que no Brasil começa em 700 reais e chega a 8.000 reais.

Quem fabrica essa linha é a Agon by AOC, marca do grupo TPV, que também é dona da AOC, a linha tradicional, de monitores corporativos.

No Brasil, a Agon by AOC é líder absoluta do mercado de monitores gamer, posição que ocupa desde 2016, quando começou a produzir localmente no Polo Industrial de Manaus.

O portfólio tem mais de 15 modelos e atende do jogador iniciante ao profissional. Globalmente, a marca vendeu mais de 5 milhões de unidades no último ano e é a número 1 do mundo em volume há sete anos seguidos, segundo o instituto de pesquisa IDC.

O mercado que sustentou esse crescimento está mudando de marcha. Nos últimos anos, o segmento de monitores gamer — telas de 144 Hz para cima, padrão que define o produto nas pesquisas oficiais — cresceu mais de 15% ao ano no Brasil.

Para 2026, a expectativa é de um avanço bem mais modesto, de até 5%. É o retrato de um mercado que amadureceu e que não vai mais crescer sozinho, no piloto automático.

E é nesse cenário que a empresa precisa decidir como continuar na frente.

A resposta de Bruno Morari, diretor de marketing e produtos da TPV no Brasil, começa pelo avesso.

"Para onde a marca quer ir? Eu te responderia para onde a marca não quer ir: a marca não quer ganhar mercado a qualquer custo", afirma.

Morari, que está há mais de 18 anos na empresa, se refere a uma prática que, segundo ele, se repetiu no setor ao longo da última década: pegar um produto de prateleira comum, fazer uma mudança estética e vendê-lo como se fosse gamer, para forçar uma escala que o mercado real não pedia.

Para os próximos anos, a aposta é subir o nível técnico em vez de baratear o produto.

A partir do segundo semestre, o foco da marca passa a ser a expansão em segmentos de alta performance: painéis OLED e Mini-LED, monitores de resolução dupla e taxas de atualização ainda mais altas — tecnologias que a empresa hoje importa da Europa e da China e quer trazer para mais perto do consumidor brasileiro.

A primeira a fabricar monitor gamer no Brasil

A história começa antes da própria marca. Por volta de 2014 e 2015, o mercado gamer ainda estava nascendo no Brasil, embora já fosse forte em outras regiões do mundo.

A AOC, presente no país há mais de 25 anos, fez um primeiro teste importando um monitor gamer em 2014.

Deu certo, a comunidade engajou, e a empresa percebeu que precisaria separar as duas conversas: a do monitor comum e a do monitor para jogar.

"A gente precisaria fazer uma subdivisão de marca para que ficasse uma comunicação mais clara", diz Morari. Foi assim que nasceu a AGON by AOC, em 2016 — uma estrutura criada globalmente, puxada pelo time europeu, onde o mercado gamer já era mais maduro.

A AOC ficou com os monitores tradicionais e corporativos; a AGON by AOC, com a linha gamer.

O grande movimento, porém, foi a produção local. A AGON by AOC foi a primeira marca a fabricar monitor gamer no Brasil, no Polo Industrial de Manaus. Isso permitiu entregar tecnologia a um preço mais acessível e aproximou a marca da comunidade.

Hoje, segundo Morari, cerca de 95% do portfólio é produzido na Zona Franca de Manaus. Os outros 5% são importados — modelos de nicho que ainda não têm escala para justificar produção no país, trazidos de mercados como Europa e China.

O nicho dentro do nicho

A leitura que a empresa faz do consumidor é o que explica um portfólio com mais de 15 modelos. Para Morari, a comunidade gamer não é um bloco único: é cheia de subgrupos com necessidades próprias.

Há o entusiasta, que monta um setup bonito e às vezes usa mais de um monitor. Há o profissional, que joga em PC e precisa de performance competitiva. E há o amador, que vem do console e está montando a primeira máquina.

"A gente foi entendendo que dentro da comunidade você tem nichos específicos. Então já é uma comunidade nichada e, dentro da comunidade, você tem o nicho do nicho", diz Morari.

A estratégia, segundo ele, é não deixar nenhum desses perfis sem opção — do monitor de entrada, com recursos básicos, ao de simulação, de 49 polegadas.

Esse desenho explica uma característica que o próprio executivo considera incomum. A linha de monitores vai de 700 a 8.000 reais, uma elasticidade de preço que ele não vê em outras categorias.

Ainda assim, o grosso da demanda está na base: cerca de 70% do mercado é de produtos de entrada, reflexo do poder aquisitivo do consumidor brasileiro.

Por que o varejo pesa mais que a distribuição

A forma de vender também separa o monitor gamer do tradicional. No mercado de monitores comuns, distribuição e varejo têm peso parecido.

No gamer, segundo a empresa, o varejo domina: cerca de 80% da produção vai direto para o varejista, e 20% para a distribuição.

A fatia menor tem uma função específica. É pela distribuição que a marca chega às pequenas revendas regionais, lojas especializadas em games espalhadas pelo país.

O raciocínio é que parte do consumidor ainda quer ver o produto pessoalmente antes de comprar — e a gôndola física, no bairro, resolve isso onde o grande varejo online não chega.

Há outro desafio. Há dez anos, um monitor de 75 Hz era considerado gamer.

Hoje, não é mais: os modelos tradicionais já adotaram esse padrão, e as placas de vídeo evoluíram a ponto de tornar 75 Hz insuficiente.

Segundo Morari, quem compra uma placa de vídeo cara e joga a 75 Hz desperdiça o investimento que fez no equipamento. O padrão subiu para 144 Hz, e os painéis continuam avançando.

É nesse ponto que a desaceleração do mercado e a posição da marca se encontram. Crescer pouco, num setor que crescia rápido, aumenta a tentação de buscar volume por atalhos.

Para Morari, o desafio é o contrário: continuar liderando o mercado gamer de verdade, sem rotular como gamer o que não é, e seguir trazendo tecnologia nova de fora para um consumidor que paga caro e cobra entrega.

"O grande desafio é continuar lutando com verdade dentro de um mercado que tenta crescer a qualquer custo", diz.

AutorDaniel Giussani
FonteExame
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