Com negociações travadas, Trump ameaça Omã e endurece pressão sobre Irã
Prazo de 60 dias para um acordo terminou sem avanço; impasse sobre o Estreito de Ormuz aumenta o risco de uma guerra prolongada

As negociações entre Estados Unidos e Irã para encerrar a guerra chegaram a um novo impasse, e o presidente americano, Donald Trump, passou a pressionar também Omã, país que atua como intermediário entre Washington e Teerã.
Na segunda-feira, 17, Trump ameaçou bombardear o país caso ele “se interponha” nas negociações sobre o Estreito de Ormuz.
A ameaça ocorreu no mesmo dia em que venceu o prazo de 60 dias estabelecido por Estados Unidos e Irã para avançar em um acordo de paz. O memorando de entendimento assinado em 17 de junho previa o fim das operações militares, a reabertura de Ormuz e negociações sobre o programa nuclear iraniano e as sanções contra Teerã.
O prazo terminou sem um acordo definitivo. Nesta terça-feira, 18, Trump afirmou que não há conversas ou negociações em curso ou previstas com o Irã e disse que o bloqueio naval americano continua em vigor. O presidente também afirmou que o Estreito de Ormuz está “aberto e operando”.
A declaração contrasta com a posição de Teerã. O presidente do Parlamento iraniano e chefe negociador do país, Mohammad Bagher Ghalibaf, afirmou que o estreito continuará fechado até que os Estados Unidos cumpram as condições estabelecidas no memorando de junho.
Por que Trump ameaça Omã?
Omã está no centro das tentativas de encontrar uma saída para o impasse porque mantém relações com o Irã e atua há anos como intermediário entre Teerã e Washington. O país negocia diretamente com os iranianos uma forma de permitir a retomada do tráfego comercial pelo Estreito de Ormuz.
Trump, porém, quer a reabertura completa da passagem e rejeita um acordo que possa ampliar ocontrole iraniano sobre a rota. O Irã e Omã discutem uma declaração conjunta sobre a navegação e um modelo para administrar o tráfego pelo estreito.
Em entrevista à Fox News, Trump afirmou que, se Omã atrapalhar um acordo com o Irã, os Estados Unidos poderão bombardear o país. Em declaração no Salão Oval, o presidente também disse que os omanenses “não se comportaram muito bem” e que os Estados Unidos poderiam lidar com o país facilmente.
A ameaça coloca sob pressão justamente um dos principais canais diplomáticos entre Washington e Teerã. Dentro do governo americano, há divergências sobre o papel de Omã: alguns assessores consideram que o país favorece o Irã, enquanto outros avaliam que seus vínculos com Teerã são importantes para uma eventual negociação.
O que o Irã exige para reabrir Ormuz?
O governo iraniano condiciona a reabertura do estreito ao cumprimento de uma série de exigências por parte dos Estados Unidos. Entre elas estão o fim do bloqueio aos portos iranianos, a suspensão das sanções sobre o petróleo, a liberação de ativos congelados e o encerramento das operações militares.
Ghalibaf afirmou nesta terça-feira que Teerã se fortaleceu militarmente durante as semanas de trégua e está preparado para impor umaderrota ainda maior aos Estados Unidos caso o confronto seja retomado.
O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores iraniano, Esmaeil Baqaei, também afirmou que o prazo de 60 dias perdeu validade diante das “violações” cometidas por Washington. Segundo ele, as negociações previstas no memorando não chegaram a começar.
Enquanto o impasse diplomático aumenta, a tensão no Estreito de Ormuz continua. Nesta terça-feira, um navio foi atingido por um “projétil não identificado” enquanto atravessava a passagem, segundo a agência marítima britânica UKMTO.
O impacto danificou a casa de máquinas e deixou uma vítima entre a tripulação. Os demais integrantes foram atendidos pela Guarda Costeira de Omã.
O incidente ocorre em um momento em que o tráfego pelo estreito está muito abaixo do nível anterior à guerra. A passagem entre o Irã e Omã é uma das principais rotas mundiais para o transporte de petróleo e gás e se tornou o principal ponto de disputa entre Washington e Teerã.
Trump chama Ormuz de 'território dos Estados Unidos'
Além da ameaça a Omã, Trump elevou novamente o tom sobre o controle da passagem. Nesta terça-feira, o presidente publicou na Truth Social uma fotografia de um mapa do Estreito de Ormuz com a inscrição “NOVO território dos Estados Unidos”.
Na última sexta-feira, Trump já havia afirmado que pretendia incorporar o estreito como território americano depois de derrotar o Irã. Dias antes, também havia dito que os Estados Unidos tinham “controle total” da passagem e que pretendiam “ficar com ela”.
O governo iraniano rejeita a afirmação de que Washington tenha controle da rota. Para Teerã, a abertura do estreito depende de um acordo que contemple o fim do bloqueio americano e das sanções.
Por que a guerra pode se prolongar?
O fim do prazo de 60 dias não significa necessariamente uma retomada imediata das negociações. Para o Eurasia Group, o cenário mais provável é que Estados Unidos e Irã mantenham o impasse por mais algum tempo antes de chegar a um acordo limitado sobre o Estreito de Ormuz.
A consultoria atribui 55% de probabilidade a um acordo limitado até o fim de 2026, que permitiria a recuperação parcial do tráfego pela passagem. Há 20% de chance de o confronto continuar no formato atual pelo restante do ano e 25% de risco de uma escalada significativa.
Um dos fatores que permitem a Washington esperar é o comportamento do mercado de petróleo. Apesar de as cotações permanecerem elevadas, o impacto do bloqueio foi parcialmente absorvido pela capacidade de redirecionar parte dos fluxos de petróleo e pela adaptação da economia mundial à redução do tráfego em Ormuz.
Para o Eurasia Group, o cenário reduz a urgência de Trump em fechar um acordo. Com os preços em um nível elevado, mas ainda administrável, o presidente americano pode manter a estratégia de “máxima pressão”, baseada em sanções e no bloqueio das exportações de petróleo iraniano, enquanto espera que a pressão econômica force Teerã a ceder.
Irã também aposta no desgaste
Apesar da crise econômica, o Irã não deve necessariamente capitular. O país enfrenta queda da atividade econômica, desemprego elevado, inflação acima de 75%, desvalorização da moeda, escassez de produtos e dificuldades para exportar petróleo.
Na avaliação do Eurasia Group, o regime iraniano tende a priorizar a resistência à pressão externa. A piora das condições econômicas aumenta o risco de protestos, mas o governo continua disposto a reprimir movimentos de contestação.
Teerã também tem espaço para aumentar a pressão militar. O país poderia atacar bases e navios americanos ou alvos nos países do Golfo. Uma ofensiva desse tipo provocaria uma resposta dos Estados Unidos e elevaria o risco de uma escalada significativa.
Para a consultoria, porém, é mais provável que o Irã mantenha uma estratégia de desgaste e espere que a pressão econômica e política leve Washington a aceitar um acordo mais favorável a Teerã.
