Pular para o conteúdo principal
Sacre Investimentos
NegóciosMPOL
24/07/2026
6 min

Com novo sócio, rede belga de padarias quer expandir no Brasil com franquias a partir de R$ 600 mil

Com novo sócio, rede belga de padarias quer expandir no Brasil com franquias a partir de R$ 600 mil

Conhecida por negócios icônicos ligados à boemia paulistana, a Fábrica de Bares quer ocupar também o começo do dia. O grupo responsável por casas como Bar Brahma, Riviera, Blue Note, Bar dos Arcos e Café Girondino comprou parte da operação brasileira da rede belga de padarias e restaurantes Le Pain Quotidien.

A Fábrica de Bares passa a ter 20% da empresa, porém o acordo permite que a participação chegue a 50% até 2028. O valor da transação não foi divulgado. A sociedade marca a entrada do grupo em um segmento menos dependente do consumo noturno e de bebidas alcoólicas.

A Le Pain Quotidien possui oito lojas próprias no Brasil e pretende encerrar 2026 com dez. A partir de 2027, começará a expansão por franquias, inicialmente no estado de São Paulo. O plano prevê a abertura de duas a três unidades por ano, ritmo que poderá subir para três ou quatro conforme a operação ganhe escala.

Os investimentos variam conforme o formato. Um quiosque deve exigir entre R$ 600 mil e R$ 700 mil, enquanto uma loja completa, com cerca de 180 metros quadrados, pode custar aproximadamente R$ 2,5 milhões. O retorno estimado ocorre entre 36 e 48 meses.

“Vínhamos buscando entrar em novas ocasiões de consumo que não fossem somente noturnas e alcoólicas”, afirma Caire Aoas, CEO da Fábrica de Bares. “Os negócios ligados à noite vão muito bem, mas estamos olhando para o futuro e para um comportamento de consumo mais diurno e ligado à saúde.”

Uma sociedade que começou na fábrica

A aproximação entre as duas empresas começou antes da negociação societária. A fábrica da Le Pain Quotidien, localizada na Barra Funda, já fornecia produtos para casas da Fábrica de Bares.

A unidade industrial produz 70% dos itens comercializados nas lojas da rede e também atende clientes empresariais. Para a Fábrica de Bares, a estrutura resolve uma demanda antiga: centralizar parte da produção, padronizar itens presentes em diferentes cardápios e ganhar escala nas compras.

“A gente buscava uma estrutura para centralizar alguns produtos e unificar parte dos cardápios. A Le Pain já tinha essa capacidade instalada”, diz Aoas.

“Quando juntamos isso à força da marca, ao time de executivos e ao interesse dos controladores estrangeiros em ter um parceiro local, vimos muitos ganhos mútuos.”

A operação brasileira funciona como master franqueada exclusiva da marca no país, com contrato de 20 anos. A sociedade, portanto, abrange a operação nacional, e não a companhia global.

Fundada em Bruxelas em 1990 pelo chef Alain Coumont, a Le Pain Quotidien possui mais de 250 unidades em 17 países. No Brasil, a rede combina restaurantes completos, lojas menores e operações instaladas dentro de empresas e hospitais.

Como será a expansão por franquias

O primeiro passo do plano será concluir as duas unidades próprias previstas para 2026. Em seguida, a empresa pretende colocar na rua as primeiras franquias, mas sem avançar imediatamente para outros estados.

“Existem convites de vários lugares, mas queremos fazer uma expansão sustentável”, afirma Luis Felipe Campos, CEO da Le Pain Quotidien Brasil. “Em 2026 e 2027, o foco ainda estará no estado de São Paulo. Depois disso, vamos entender quais oportunidades fazem mais sentido.”

A cautela se explica, em parte, pela complexidade das lojas completas. Diferentemente de uma cafeteria compacta, elas funcionam do café da manhã ao jantar, oferecem serviço de mesa e demandam equipes maiores.

Uma unidade desse tipo emprega, em média, entre 18 e 20 pessoas. Nos quiosques, o quadro varia de cinco a sete funcionários. A operação brasileira possui atualmente cerca de 230 empregados.

O modelo completo costuma ocupar entre 150 e 180 metros quadrados. A rede também poderá crescer com formatos menores, em shopping centers, hospitais, empresas e outros espaços de grande circulação.

“Não é como abrir apenas um quiosque. Nossas lojas completas são restaurantes que atendem café da manhã, almoço, chá da tarde, happy hour e jantar”, diz Campos. “O ritmo de expansão pode aumentar dependendo da combinação de formatos.”

Campos é formado em hotelaria pela escola Les Roches, na Suíça, e trabalhou em hotéis no Brasil e no exterior. Em sua trajetória no setor de alimentação, foi sócio do Spoletodurante oito anos e da rede de alimentação saudável Seletti por 10 anos, além de ter ocupado posições executivas em outros grupos.

A noite entra no cardápio da Le Pain

A influência entre as empresas deverá ocorrer nos dois sentidos. Enquanto a Le Pain Quotidien dá à Fábrica de Bares acesso a um negócio mais forte pela manhã e no almoço, o grupo paulistano pretende usar sua experiência em hospitalidade e entretenimento para melhorar o desempenho noturno de algumas unidades da rede.

“A maioria das lojas tem salão e serviço de mesa. Além do produto, queremos olhar para a atmosfera de cada unidade e explorar melhor o período da noite”, afirma Aoas. “A marca já é muito forte no café da manhã e no almoço, mas existem lojas com potencial para avançar em outros horários.”

A integração também envolve compras, produtividade, sistemas e funcionários. Profissionais da Fábrica de Bares já começaram a migrar para a Le Pain Quotidien, enquanto integrantes da rede de padarias passaram a assumir funções dentro do grupo.

Outra frente em estudo é o cruzamento das marcas. A Fábrica de Bares avalia incluir produtos e experiências da Le Pain Quotidien em casas que funcionam pela manhã, como kits de café da manhã assinados pela rede belga.

“Como fazemos esse cruzamento das marcas? Será que cabe um café da manhã da Le Pain dentro de uma operação nossa que abre cedo?”, diz Aoas. “Estamos desenhando uma série de iniciativas para que os dois negócios se fortaleçam.”

O Café Girondino, reaberto pelo grupo em 2024, havia sido a primeira investida mais clara da Fábrica de Bares no consumo diurno. A Le Pain, porém, oferece algo que a operação individual não tinha: uma marca internacional, estrutura industrial e um modelo concebido para ganhar escala.

Agora, o grupo que construiu parte de sua história servindo chope e música ao vivo tenta provar que consegue crescer também com pães, tartines e café — sem esperar o anoitecer.

AutorGuilherme Gonçalves
FonteExame
Distribuído por