‘Com o novo tarifaço já perdemos R$ 5 milhões em um dia”, diz empresário brasileiro

A nova rodada comercial entre Brasil e Estados Unidos já começa a provocar reflexos nas empresas brasileiras. Nesta quarta-feira, 22, entrou em vigor a tarifa adicional de 25% imposta pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros. Além disso, o país poderá enfrentar uma nova sobretaxa de 12,5%, sob a acusação de uso de trabalho forçado, medida que passa a valer a partir desta sexta-feira, 24.
Antes mesmo da entrada em vigor da nova tarifa, companhias nacionais já relatam perdas de negócios no mercado americano.
É o caso da Pistelli, fabricante paulista de galpões infláveis e estruturas modulares para armazenagem. Segundo Helio Pistelli Neto, diretor comercial da empresa, três grandes contratos que estavam em fase final de negociação com clientes americanos foram cancelados diante do aumento dos custos de importação.
"Perdemos três grandes contratos nos Estados Unidos por causa do tarifaço. Os clientes desistiram porque o custo ficou inviável", afirma o executivo que diz que perdeu 10% do faturamento de R$500 milhões com o novo tarifaço em um dia.
A empresa exporta para os Estados Unidos desde 2019, principalmente estruturas utilizadas para armazenar máquinas.
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Tarifaço impulsiona demanda no Brasil
Se, por um lado, a medida fechou oportunidades no exterior, por outro abriu espaço para novos negócios dentro do país.
Segundo o executivo, muitas empresas brasileiras passaram a rever seus estoques diante das incertezas provocadas pela política tarifária americana. Com receio de interrupções na cadeia de suprimentos ou mudanças nas exportações, aumentou a procura por estruturas temporárias para armazenagem.
"O mesmo tarifaço que fechou portas nos Estados Unidos abriu oportunidades no Brasil", afirma.
A empresa fabrica galpões modulares que podem ser montados rapidamente e utilizados por períodos determinados, principalmente por companhias dos setores de logística, mineração, agronegócio e construção civil.
"A cada mudança nas tarifas, as empresas fazem uma nova conta sobre quanto produto ficará parado. Como nossas estruturas são modulares, elas conseguem ampliar ou reduzir rapidamente sua capacidade de armazenagem", afirma.
A companhia trabalha, em média, com contratos de locação de seis meses, mas também realiza vendas de estruturas permanentes conforme a necessidade dos clientes.
Cubatão, São Paulo: O material que a Pestille usa é o PVC, que foi muito impactado pela guerra no Oriente Médio (Pistelli/Divulgação)
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A fatia do mercado americano
Hoje, o mercado americano representa cerca de 10% do faturamento da operação brasileira.
Segundo Pistelli, embora a tarifa seja paga pelo importador americano, ela compromete a competitividade do produto brasileiro.
"O tarifaço não reduziu a nossa margem. Ele tirou o cliente americano. Quem paga essa conta é o comprador dos Estados Unidos, e ninguém aceita desembolsar 50% a mais pelo mesmo produto", diz.
Para a empresa, o momento exige cautela em relação ao mercado americano.
"Hoje não temos uma visão otimista sobre os Estados Unidos. Vamos continuar acompanhando o cenário, mas, neste momento, faz mais sentido concentrar nossos esforços no Brasil", afirma.
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Guerra no Oriente Médio também afeta operação
Além do impacto da disputa comercial entre Brasil e Estados Unidos, a empresa enfrenta outro desafio internacional.
As tensões no Oriente Médio, segundo Pistelli, prejudicaram a logística e o fluxo de pagamentos de clientes da região, principalmente por causa das dificuldades envolvendo o Estreito de Hormuz.
"O maior problema não foi o aumento do preço da matéria-prima. O problema foi a logística e os pagamentos. Hoje temos cerca de 30% do faturamento anual preso por causa da situação no Oriente Médio", afirma.
Galpões infláveis, em Minas Gerais. A Pistelli tem como um dos principais clientes mineradoras (Pistelli/Divulgação)
Empresa projeta crescimento de 60%
Fundada há cerca de 40 anos, a Pistelli foi pioneira no Brasil na fabricação de galpões infláveis. Atualmente, possui seis fábricas (três no Brasil e unidades no Paraguai, Portugal e Espanha), além de exportar para países da Europa, África, América Latina e Oriente Médio. Ao todo, emprega cerca de 200 funcionários, sendo 130 no Brasil.
Mesmo diante do cenário internacional mais desafiador, a empresa mantém uma perspectiva positiva para este ano.
Em 2025, a Pistelli faturou R$ 50 milhões, crescimento de aproximadamente 15% em relação ao ano anterior, com margem de lucro de 40%. Para 2026, a expectativa é alcançar R$ 80 milhões em receita, impulsionada principalmente pelo aumento da demanda no mercado brasileiro.
A principal carteira de clientes, segundo o executivo, continua concentrada no setor de mineração, segmento que permanece aquecido tanto no Brasil quanto em mercados internacionais como África e Europa.
"A situação é muito dinâmica. Tudo pode mudar rapidamente. Mas, enquanto houver essa incerteza no comércio internacional, o mercado brasileiro deve continuar demandando soluções flexíveis de armazenagem", afirma.
