Com proibição das bets, duas ações do varejo podem ser as mais beneficiadas, mas Eleven faz alerta para a recuperação do setor
Apostadores reduziram o consumo de alimentos e produtos de higiene, roupas e até eletrônicos. Além disso, deixaram de pagar contas e viram a inadimplência aumentar

Com o fim das bets, o brasileiro apostador deve voltar a consumir mais. O dinheiro que ia para apostas esportivas ou caça-níqueis pode voltar a ser gasto em cerveja, bolacha e outros alimentos, roupas e até itens eletrônicos.
A Eleven elencou em relatório quais empresas e ações mais devem se beneficiar com a proibição, mas faz um alerta: há um fator que impede uma recuperação mais forte do varejo.
Quais as ações do varejo mais beneficiadas com o fim das bets
Na semana passada, em uma canetada o governo Lula anunciou medidas que proíbem as bets no Brasil, com a retirada de sites e aplicativos de apostas online do ar.
Para a Eleven, o efeito deve ser positivo para o varejo como um todo, mas afeta especialmente duas ações.
São os papéis do Grupo Mateus (GMAT3) e do Assaí (ASAI3), redes de atacarejo que possuem maior exposição a um consumidor de baixa renda.
Em menor grau, a casa de análises também espera que a medida beneficie segmentos com maior participação de operações de crédito, como vestuário, com Lojas Renner (LREN3), Riachuelo (RIAA3) e C&A (CEAB3).
Empresas do e-commerce, como Magazine Luiza (MGLU3), Mercado Livre (MELI34) e Casas Bahia (BHIA3) também podem ver incrementos nas vendas.
E há dados para afirmar que as bets tiram o dinheiro que seria destinado a roupas ou alimentos. Entre os apostadores, 19% reduziram as compras em supermercados e 23% as de vestuário, segundo pesquisa da Sociedade Brasileira de Varejo e Consumo (SBVC) de maio de 2024.
Nos lares que substituíram algum gasto por apostas, 47% reduziram despesas com alimentos, com impacto também em categorias como cerveja, biscoitos e refrigerantes, diz pesquisa da Nielsen.
O efeito também alcança itens essenciais: 41% dos apostadores de baixa renda entrevistados reduziram gastos com alimentos, higiene e medicamentos, de acordo com pesquisa do Instituto Febrafar de Pesquisa e Educação Corporativa, um braço da Federação Brasileira de Redes Associativistas e Independentes de Farmácias, feito entre junho e agosto deste ano.
A perda da renda é maior quanto menor a renda da família. Entre os apostadores que ganham um salário-mínimo, a perda com bets é de 8% da renda. Já entre os participantes com renda de dois salários-mínimos, os gastos chegam a 4%. A perda da renda chega a 1% quando o apostador ganha seis ou mais salários-mínimos.
No entanto, a Medida Provisória pode caducar se não for aprovada pelo Congresso. Também pode ser revertida ou reduzida nos próximos meses, com o lobby das empresas de apostas, o que compromete a duração e intensidade dos efeitos.
O que pode comprometer a recuperação do varejo
Mas bets não são o único problema do varejo. A pesquisa da Eleven destaca que nem todo o dinheiro gasto com apostas agora será totalmente revertido para aumento no consumo.
Muitos dos que começaram a apostar deixaram de pagar as contas. Na base da cooperativa de crédito Sicredi, por exemplo, a inadimplência foi 40% maior entre os apostadores em setembro deste ano.
Entre as pessoas que começaram a apostar em 2025, o atraso no cartão de crédito foi 38,7% maior e o limite de crédito 16% menor em relação a indivíduos comparáveis que não apostam, de acordo com levantamento da Stone em parceria com o Insper.
"Dessa forma, os dados sugerem uma relação relevante entre as apostas e o endividamento da população, embora não permitam estabelecer uma relação de causalidade, uma vez que o endividamento
pode tanto ser consequência quanto causa ao maior uso das bets", declara o analista Arthur Bonifácio no relatório da Eleven.
A conta dos juros altos
O valor gasto deve ser em parte revertido no pagamento das dívidas. E há um problema: com a elevada taxa de juros tornou essas dívidas atrasadas ainda mais caras.
Esse cenário deve limitar a conversão desses recursos em consumo, diz o analista em relatório.
Para o JP Morgan, os juros altos são o principal fator que limita a recuperação do varejo, e esse cenário não deve mudar tão cedo. O banco divulgou ontem (30) um relatório em que reduziu suas estimativas para o setor, com corte no lucro de 2% na média.
Segundo o banco, os juros vão continuar altos mesmo que a Selic sofra alguns cortes. Os consumidores continuarão mais focados em pagar dívidas e em guardar dinheiro que em gastar com supérfluos. O desemprego mais baixo e a inflação em desaceleração podem ser pontos positivos, mas o aumento no preço de alimentos continuar a pressionar as famílias.
Ou seja, não há muitos motivos para acreditar em uma recuperação forte e rápida das receitas das varejistas ou de suas ações, embora os papéis estejam descontados em relação à média histórica.
