Com quase 30 anos de carreira, ela voltou a estudar para ter voz no conselho: ‘Precisei me adaptar’
Economista com passagem por Itaú, Santander e Accenture, Tatiana Alcaraz relata o que mudou após o ABP-W, da Saint Paul

Tatiana Alcaraz chegava às empresas e encontrava sempre o mesmo cenário: um ambiente predominantemente masculino, no qual ela era a única mulher. Suas análises eram ouvidas, e suas recomendações, executadas.
O reconhecimento, porém, nem sempre acompanhava o resultado. “Eu era ouvida e os meus conselhos, as minhas recomendações eram executadas. Mas, muitas vezes, essa execução não dava voz para mim”, diz.
Foi atrás dessa voz que a economista Tatiana Maria Alcaraz Chiuratto, sócia fundadora da Alcaraz Consulting, voltou à sala de aula. Depois de quase 30 anos de carreira em auditoria, bancos e consultoria, ela se matriculou no ABP-W, Advanced Boardroom Program for Women, da Saint Paul Escola de Negócios. Hoje, é gestora de um family office que atende duas famílias, cuidando das questões pessoais delas e de todo o grupo de investimento, e atua como conselheira de empresas familiares, com foco em governança patrimonial e sucessão.
Da auditoria às empresas em crise
A trajetória começou na auditoria, na BDO Trevisan. Depois vieram Santander, Itaú e Unibanco — e, em um deles, chegou a fazer todos os reportes do grupo corporativo. Na Accenture, trabalhou com gestão de risco, e foi nesse período que se mudou para a Espanha, onde se especializou em empresas em crise.
De volta ao Brasil, passou a fazer gestão de empresas familiares, em um momento que ela descreve como de companhias começando a quebrar por falta de gestão. O caminho a levou à administração judicial, atividade em que é certificada pelo TMA Brasil.
Em 2014, fundou a Alcaraz Consulting. A administração judicial segue como parte do trabalho, mas hoje é, nas palavras dela, um braço pequeno da consultoria.
“Todo o meu histórico profissional que eu acumulei ao longo dos anos em grandes corporações fez com que eu conseguisse fazer uma grande gestão hoje nas empresas familiares”, afirma.
O erro que antecede a reestruturação
Coautora de dois livros sobre falência e insolvência, Tatiana aponta um erro recorrente entre famílias empresárias: acreditar que é possível administrar o negócio do jeito que se aprendeu com os fundadores, sem preparação técnica ou acadêmica.
“Muitas vezes a família leva os filhos para trabalhar dentro da empresa sem se preparar no mercado externo. Isso é uma grande falha, porque você acaba se deparando com problemas dos quais você não tem como fazer gestão”, diz. A recomendação dela é que os herdeiros passem antes por grandes corporações e só depois assumam funções no negócio da família.
Quando o conflito entre gerações se aproxima, a saída, segundo ela, é a mediação. Isso inclui conversar de forma adequada com cada integrante, antecipar onde a disputa vai surgir e formalizar tudo.
“Ter um bom advogado ao seu lado para que você formalize todos os futuros problemas é primordial”, afirma. Ao longo da carreira em conselhos, ela conta ter passado por crises pessoais delicadas entre familiares que só foram solucionadas com uma boa mediação.
A tradução para a linguagem do conselho
No ABP-W, Tatiana encontrou outras mulheres com histórias parecidas com a sua. “A maioria das mulheres que estavam aqui no curso junto comigo também tinham passado praticamente pela mesma trajetória que eu”, diz.
O repertório técnico acumulado em quase três décadas não chegou pronto para o conselho. “Eu precisei traduzir, precisei me adaptar para o mundo do conselho”, afirma. Para ela, a carreira forma o profissional tecnicamente até certo ponto. Dali em diante, é preciso se reciclar por conta própria e se ajustar aos modelos atuais.
Tatiana Alcaraz, sócia fundadora da Alcaraz Consulting
O programa, segundo Tatiana, ajudou a dar direção a esse processo: mostrou o que uma conselheira precisa saber e qual é a melhor forma de se posicionar dentro do board.
A base jurídica entrou como complemento. Tatiana não é advogada de formação, mas é pós-graduada em Recuperação de Empresas e Falência, e considera esse conhecimento necessário em um conselho por causa das consequências de cada decisão. “Você tem que ter uma multidisciplinaridade na sua mente para conseguir tomar uma decisão adequada, uma recomendação adequada no estágio de conselho”, diz.
Dez anos de uma rede de conselheiras
O ABP-W completa dez anos em 2026. Voltado a executivas C-level, diretoras e herdeiras que pretendem ocupar assentos em conselhos de administração, o programa tem 300 horas de carga horária e reúne uma comunidade de mais de 600 mulheres.
“Eu sou orgulhosa de fazer parte desses 10 anos, de estar no meio de tantas mulheres fortes, inteligentes, empoderadas, que ajudam a movimentar o PIB do Brasil. Me sinto privilegiada em fazer parte desse grupo e de ter conexões tão únicas aqui dentro”
Tatiana Alcaraz, sócia fundadora da Alcaraz Consulting
As recomendações de Tatiana continuam sendo técnicas. O que mudou, segundo ela, foi o que acontece depois que são apresentadas. “Hoje, após o curso, eu consigo ter uma melhor mediação dentro das empresas, onde as minhas recomendações são ouvidas e aplicadas. E é dado crédito para a minha voz”, diz.
