Com quase 300 arranha-céus, Dubai quer construir torre dedicada a empresas de IA
Emirado mais conhecido pelo luxo e pelo mercado imobiliário mira 500 startups de IA e quer usar a tecnologia para ajudar a dobrar sua economia até 2033

Dubai, Emirados Árabes — Quando se fala na corrida dos Emirados Árabes Unidos pela inteligência artificial, Abu Dhabi costuma aparecer primeiro. É na capital que está a infraestrutura pesada, como o Stargate UAE, cluster de computação de 1 gigawatt que fará parte de um campus de IA de 5 gigawatts construído pela G42, com operação da OpenAI e da Oracle e chips da Nvidia.
A 140 quilômetros dali, Dubai está seguindo outro caminho. O emirado mais conhecido pelos arranha-céus, pelo mercado imobiliário de luxo e pelo turismo quer transformar a inteligência artificial em uma nova frente de crescimento — mas sem necessariamente disputar com Abu Dhabi a corrida pela maior infraestrutura de processamento.
A aposta é em empresas, talentos, aplicações e regras.Os primeiros sinais já aparecem no mercado. Dentro do Dubai International Financial Centre (DIFC), o Dubai AI Campus reúne mais de 200 empresas de IA, enquanto 315 entidades estão registradas sob a Dubai AI Licence, uma licença criada especificamente para o setor.
A meta é ambiciosa: atrair mais de US$ 300 milhões em fundos, mais de 500 startups globais e criar mais de 3.000 empregos até 2028. A academia ligada ao campus pretende treinar mais de 10 mil profissionais até 2030.
A estratégia faz parte de um plano ainda maior de Dubai para transformar sua economia.
IA como parte do plano de dobrar a economia
A inteligência artificial não aparece em Dubai como uma iniciativa isolada. Ela está inserida na Dubai Economic Agenda (D33), lançada em 2023 pelo xeque Mohammed bin Rashid Al Maktoum.
O objetivo central da agenda é dobrar o tamanho da economia de Dubai até 2033 e colocar a cidade entre os principais centros econômicos do mundo.
O plano prevê 100 projetos transformadores e metas que somam 32 trilhões de dirhams (o equivalente a quase R$ 44 trilhões na cotação atual) em atividade econômica ao longo de uma década. Entre elas estão dobrar o comércio exterior para 25,6 trilhões de dirhams, atrair mais de 650 bilhões de de dirhams em investimento estrangeiro direto e mobilizar 1 trilhão de de dirhams em investimento privado.
A IA entra como uma das ferramentas para atingir essa expansão. A meta é gerar, em média, 100 bilhões de de dirhams por ano em valor econômico por meio da transformação digital e elevar a produtividade da economia em 50% com inovação e soluções digitais.
Em vez de enxergar a tecnologia apenas como um novo setor econômico, Dubai quer usá-la para aumentar a produtividade dos setores que já movimentam a cidade.
“Trata-se mais de como posso produzir mais com o mesmo número de pessoas que tenho. Se estamos falando de impactar a economia, dobrar o PIB e tudo mais, é exatamente disso que precisamos para ser muito mais eficientes, em vez de reduzir o número de funcionários”, afirma Issam Kazim, CEO do Departamento de Economia e Turismo de Dubai (DET).
A estratégia já chegou ao governo. Todos os departamentos governamentais passaram a contar com um Chief AI Officer, responsável por coordenar a adoção da tecnologia.
Dubai quer ser diferente de Abu Dhabi
A divisão de papéis entre os dois principais emirados ajuda a entender a estratégia. Abu Dhabi concentra investimentos de grande escala em infraestrutura e empresas globais de tecnologia, apoiados pelos recursos de seus fundos soberanos. O Stargate UAE é o exemplo mais visível dessa estratégia.
Dubai tenta ocupar outra posição, a de plataforma de aplicação da tecnologia, atração de empresas e formação de talentos.
“Acho que a diferença é que eles fizeram muitos investimentos globalmente em termos das empresas com as quais estão fazendo parcerias. Há um mandato vindo do lado dos fundos soberanos de investimento e há o que estamos fazendo no nível estadual e municipal”, afirma o CEO do DET.
“Para Dubai, muito do foco está na implementação da tecnologia, enquanto Abu Dhabi foca no investimento na infraestrutura da tecnologia”, afirma.
A ambição vai além de ser um mercado consumidor de IA. Dubai quer se tornar um lugar onde empresas desenvolvem, testam e comercializam suas soluções.
O mercado imobiliário começou a sentir a IA
A estratégia também está criando uma consequência mais concreta para o mercado imobiliário: empresas de tecnologia precisam de espaço físico.
O DIFC Innovation Hub já chegou a 1.933 empresas de IA, FinTech e inovação no primeiro semestre de 2026. A demanda foi suficiente para ocupar integralmente as instalações existentes e o edifício Innovation One.
A resposta foi a expansão do complexo com o Innovation Two.
“O dia em que lançamos o DIFC Innovation Hub foi o dia em que anunciamos sua expansão, porque tivemos um rápido aumento da demanda. Hoje, o Innovation Hub abriga mais de 1.900 startups”, afirma Mohammad Alblooshi, CEO do DIFC Innovation Hub. Segundo ele, o hub opera com 100% de ocupação.
A escassez não está restrita ao espaço destinado a startups. Em Dubai, a ocupação dos escritórios corporativos chegou a 92,4%, segundo dados da Cushman & Wakefield Core, enquanto os imóveis Grade A nos principais distritos operam acima de 96%.
A disponibilidade de escritórios Grade A prontos em regiões centrais é inferior a 5%.
O preço também acompanha a demanda. Escritórios vendidos na planta ultrapassaram R$ 60 mil por metro quadrado no segundo trimestre de 2026, mais que o dobro do patamar registrado no início de 2025.
No DIFC, o movimento já aparece em novos projetos. O DIFC Square, com quase 40 mil metros quadrados de escritórios, foi 100% pré-locado oito meses antes da entrega. A Immersive Tower já havia superado 40% de pré-locação ainda durante a construção.
A próxima etapa é reservar espaço especificamente para empresas de inteligência artificial. Dentro do masterplan de expansão imobiliária do DIFC, estimado em 100 bilhões de dirhams até 2040, está previsto um setor dedicado à inovação e tecnologia.
O projeto inclui o Dubai AI Campus, com uma torre de aproximadamente 9.300 metros quadrados destinada exclusivamente a empresas e laboratórios de IA.
“Teremos um setor dedicado para inovação e tecnologia e um campus de IA único em seu tipo, uma torre de aproximadamente 100 mil pés quadrados [cerca de 9,3 mil metros quadrados] dedicada a empresas de IA”, afirma Saleh Al Akrabi, porta-voz do DIFC.
Segundo ele, a demanda já existe nos escritórios atuais. “Em termos de empresas de IA, temos muita demanda nos escritórios existentes. Teremos um campus especial dentro do plano diretor focado no desenvolvimento desse setor”, afirma.
A expectativa é que o novo espaço atraia empresas que hoje estão espalhadas pelo ecossistema de Dubai.
*A repórter viajou a convite do DET (Dubai Department of Economy & Tourism)
