Com R$ 1 mil emprestados e uma agulha, ela criou uma marca que veste Shakira e mira R$ 16 milhões
Fundada pela mineira Giovanna Resende, HISHA começou com cinco jaquetas bordadas e hoje tem quase 300 bordadeiras, lojas em São Paulo e Trancoso e clientes no exterior

RESUMO +
A marca mineira de moda autoral HISHA, fundada por Giovanna Resende, faturou R$ 9 milhões em 2025 e projeta alcançar R$ 16 milhões em 2026. A empresa combina bordados feitos à mão com roupas, calçados e acessórios, reúne quase 300 bordadeiras e já teve peças usadas por artistas como Shakira, Anitta e Demi Lovato.
Uma calça velha e uma agulha. Foi com essa combinação que a mineira Giovanna Resende começou a enxergar uma oportunidade de negócio na moda. Na época, ela havia transformado uma calça do namorado em um short bordado.
Ao sair de casa com a peça, foi abordada por uma mulher que ofereceu R$ 200 para comprá-la. Giovanna aceitou, entrou em uma loja de departamentos para trocar de roupa e saiu com duas notas de R$ 100.
O episódio ajudou a mudar os planos da então advogada, que estudava para concursos públicos. Hoje, oito anos depois, ela está à frente da HISHA, marca mineira de moda autoral que combina bordados feitos à mão com roupas, calçados e acessórios.
A empresa faturou R$ 9 milhões em 2025 e tem como meta alcançar R$ 16 milhões em 2026, um crescimento projetado de quase 78%. Nos últimos 12 meses, a receita acumulada ultrapassou R$ 12 milhões.
A estrutura de produção conta atualmente com quase 300 bordadeiras, e suas peças já foram usadas por artistas como Shakira, Anitta, Demi Lovato e Marina Sena.
"Eu comecei bordando, antes de pensar em ter uma marca. Quando uma cliente veste uma peça da HISHA, ela está vestindo horas de trabalho de uma mulher de Minas, e eu quero que isso seja visto", afirma Giovanna, fundadora e diretora criativa da empresa.
A expansão ocorreu sem rodadas de investimento. O negócio começou com R$ 1 mil emprestados pelo pai da empreendedora e cresceu com o dinheiro das próprias vendas. Nos últimos três anos, a entrada de novos sócios também ajudou a estruturar a operação, que hoje vende para consumidores brasileiros e estrangeiros.
Como uma advogada transformou R$ 1 mil em uma marca de moda
Natural de São João del-Rei, no interior de Minas Gerais, Giovanna cresceu em uma família familiarizada com trabalhos manuais. Aprendeu ponto-cruz com a avó e técnicas de macramê com a mãe, arquiteta e artista que também bordava peças para complementar a renda durante a faculdade.
Ainda adolescente, aos 14 anos, começou a vender desenhos de vestidos de festa junina. O dinheiro ajudava a pagar o aluguel das roupas que usava nas comemorações da cidade.
Mais tarde, cursou Direito e chegou a frequentar uma faculdade de moda, mas não concluiu a segunda graduação porque precisava conciliar os estudos com o trabalho em um escritório de advocacia.
Mesmo trabalhando na área jurídica, continuou produzindo as próprias roupas. Em uma dessas ocasiões, preparou uma jaqueta pintada e bordada para usar em um show de rock. Durante a apresentação, foi abordada por pessoas interessadas em saber onde poderiam comprar uma peça igual.
Dias depois, veio a venda do short por R$ 200. A experiência fez Giovanna perceber que poderia transformar um costume antigo em fonte de renda.
Ela pediu R$ 1 mil emprestados ao pai, com o compromisso de devolver o dinheiro em uma semana. Comprou cinco jaquetas, pintou e bordou as peças com a ajuda da mãe e colocou tudo à venda.
O plano era vender as cinco jaquetas, pagar o empréstimo e comprar outras cinco. Foi o que aconteceu.
No início, Giovanna levava cerca de quatro dias para produzir uma única jaqueta. Ela própria desenvolveu o nome, o logotipo e as primeiras peças da marca. Não havia investidores ou um plano de negócios formal.
A mudança para Uberlândia, também em Minas Gerais, permitiu que ela conhecesse outras bordadeiras e ampliasse a produção. Até então, boa parte dessas profissionais trabalhava com vestidos de festa e peças carregadas de pedrarias.
Giovanna decidiu aplicar as mesmas técnicas em roupas que pudessem ser usadas com mais frequência, especialmente jaquetas e calças jeans.
Em 2018, um tênis All Star bordado ganhou repercussão nas redes sociais e se tornou um dos primeiros produtos de maior procura da marca. Foi necessário ensinar novas técnicas às profissionais que começaram a trabalhar com ela.
O crescimento foi gradual. Em 2021, Giovanna deixou as outras atividades profissionais para se dedicar integralmente à empresa. Naquele ano, a HISHA passou a confeccionar suas próprias roupas, além de realizar os bordados.
Dois anos depois, em 2023, a chegada dos sócios Zália, Rafael e Breno marcou outra etapa do negócio. O grupo começou a organizar as áreas comercial, administrativa e de produção para permitir que a marca vendesse mais sem abandonar o trabalho manual.
Giovanna diz que não procurava apenas investidores. Queria pessoas que assumissem funções que ela não conseguiria desempenhar sozinha, especialmente nas áreas de gestão e crescimento da empresa.
O desafio era encontrar uma maneira de aumentar a quantidade de roupas produzidas sem substituir as bordadeiras por máquinas.
Como fazer um negócio de bordados à mão crescer
Quando Rafael Botelho entrou na sociedade, há três anos, a marca trabalhava com aproximadamente 10 a 15 bordadeiras. Atualmente, segundo ele, a estrutura reúne quase 300 profissionais dedicadas ao bordado.
O crescimento exigiu a criação de equipes de treinamento, desenvolvimento de novos pontos e organização da produção. Mulheres que começaram bordando peças passaram a ocupar cargos de liderança, coordenando outras profissionais.
O objetivo, segundo Giovanna, é que o bordado deixe de ser apenas uma atividade complementar e se torne a principal fonte de renda dessas mulheres.
Bordado mineiro: peças feitas à mão são a base da marca que pretende faturar R$ 16 milhões em 2026. (HISHA/Divulgação)
A própria empresária enfrentou essa limitação quando começou a trabalhar com bordadeiras que tinham filhos e não podiam permanecer durante todo o dia em um ateliê. A empresa precisou organizar sua produção considerando essas condições.
Atualmente, o bordado das peças continua sendo inteiramente manual. Máquinas são utilizadas na confecção tradicional das roupas e na estamparia, mas não para reproduzir os desenhos bordados.
"Não existe um bordado de máquina nem nada", afirma Giovanna.
Segundo ela, o plano é desenvolver técnicas cada vez mais elaboradas, utilizando novos materiais e acabamentos que sejam difíceis de reproduzir industrialmente.
Essa escolha tem consequências para o negócio. Como cada peça exige horas de trabalho, a abertura de novos pontos de venda depende da disponibilidade de bordadeiras e da formação de estoques.
Foi justamente o aumento da capacidade de produção que permitiu acelerar as vendas. A companhia espera concentrar parte das vendas no último trimestre, período de festas, viagens e eventos. Em dezembro de 2025, por exemplo, a receita mensal alcançou R$ 1,5 milhão. Para dezembro deste ano, a projeção apresentada pelos executivos é de R$ 2,5 milhões.
A meta anual de R$ 16 milhões é considerada ambiciosa pela própria administração. Rafael afirma que a empresa também trabalha com um cenário próximo de R$ 15 milhões para seus canais próprios.
Outro indicador do negócio é o aumento do tíquete médio. Em um ano e meio, o valor médio das compras passou de R$ 800 para R$ 3 mil, segundo Rafael. A alta acompanha o desenvolvimento de peças mais elaboradas e de produtos feitos sob medida.
A marca também criou uma operação de roupas exclusivas, voltada a clientes que procuram peças personalizadas, incluindo noivas e madrinhas. O atendimento ainda é limitado pela quantidade de profissionais necessárias para produzir cada encomenda.
Além disso, oferece um serviço de manutenção das roupas, para que os clientes possam conservar os bordados depois da compra.
Como a marca chegou a celebridades
A HISHA também ganhou espaço fora do comércio tradicional. Em 2026, a marca estreou no Rio Fashion Week e participou da São Paulo Fashion Week. No mesmo ano, criou um figurino usado por Shakira durante sua apresentação em Copacabana.
Outras artistas, como Anitta, Demi Lovato, Marina Sena e Elba Ramalho, já vestiram peças da empresa em shows e aparições públicas.
Segundo Rafael, a exposição proporcionada pelos desfiles e pelas artistas ajudou a levar a marca a novos consumidores. O empresário afirma que essas iniciativas fazem parte da estratégia comercial da HISHA para ampliar o alcance de suas coleções.
Atualmente, a principal fonte de receita vem das vendas online, realizadas pelo site e pelo WhatsApp. A empresa também mantém duas lojas próprias, em São Paulo e Trancoso, na Bahia.
A operação inclui pontos de venda temporários durante o Carnaval, o Réveillon e festivais de música. São ocasiões que, de acordo com os executivos, ajudam a apresentar a marca a consumidores que ainda não a conhecem.
Para os próximos meses, a empresa prepara uma expansão seletiva. Em novembro de 2026, pretende iniciar uma operação multimarcas no Matalab, no hotel Rosewood, em São Paulo. Para 2027, estuda ampliar sua presença no Rio de Janeiro, em Curitiba e em Brasília.
O interesse internacional também começou a ganhar peso. Segundo Rafael, as vendas para consumidores de outros países já representam cerca de 20% do faturamento do comércio eletrônico da HISHA. A marca atende clientes na Europa e nos Estados Unidose relata um aumento de pedidos de lugares como China e Abu Dhabi.
Todas as encomendas ainda são enviadas do Brasil. Para 2027, os sócios estudam instalar estruturas de distribuição na Europa e nos Estados Unidos, o que permitiria atender os compradores estrangeiros sem depender exclusivamente dos envios internacionais feitos a partir do país.
Giovanna também enxerga oportunidades em outras categorias. A marca já começou a trabalhar com calçados e acessórios e avalia desenvolver produtos para casa, aproveitando a experiência de Rafael como arquiteto.
A expansão, porém, continuará condicionada à capacidade de produção manual, diz a empreendedora.
Para Giovanna, que começou vendendo roupas feitas por ela mesma e chegou a improvisar seu primeiro ateliê na casa de uma bordadeira, o crescimento da empresa está ligado à possibilidade de formar novas profissionais.
"Nossa visão é levar Minas ao mundo com o bordado como protagonista. Quando a marca cresce, cresce também o trabalho das bordadeiras e o ensino desse ofício para as próximas gerações", afirma.
