Com R$ 1,4 bi em VGV, catarinense aposta em obras com padrão lixo zero
Grupo OAD leva gestão de resíduos a grandes projetos em Florianópolis, única cidade sul-americana entre 20 líderes globais reconhecidos pela ONU em 2026

Em uma cidade onde a paisagem ajuda a determinar o preço do metro quadrado, o lixo produzido para erguer novos empreendimentos passou a fazer parte da equação de negócios. Com cerca de R$ 1,4 bilhão em Valor Geral de Vendas (VGV) em canteiros ativos, o Grupo OAD Incorporações aposta na gestão de resíduos como diferencial operacional em projetos imobiliários de grande porte em Florianópolis.
A estratégia está concentrada no leste da Ilha de Santa Catarina, uma das regiões mais valorizadas da capital. É ali que estão o Makai Beachfront, no Novo Campeche, e o La Esmeralda Beach Village, no Morro das Pedras, apresentados pela incorporadora como os dois maiores canteiros de obras do país a assumir o Compromisso Lixo Zero.
Juntos, os empreendimentos somam aproximadamente 102 mil metros quadrados de área construída, 742 unidades residenciais e 55 espaços comerciais. A dimensão dos projetos transforma a redução de desperdícios em um desafio que vai além do discurso ambiental e alcança custos, produtividade, logística e controle de fornecedores.
O movimento acontece em uma cidade que ganhou reconhecimento internacional justamente pela gestão de resíduos. Em 2026, Florianópolis foi incluída em uma lista global da Organização das Nações Unidas que reúne 20 cidades líderes na busca pelo resíduo zero. A capital catarinense é a única representante da América do Sul no levantamento.
O reconhecimento não significa que a cidade tenha eliminado o envio de materiais para aterros. A escolha considera a adoção de políticas públicas, infraestrutura e iniciativas de mobilização capazes de reduzir a geração de resíduos e ampliar o reaproveitamento. Florianópolis estabeleceu como meta avançar na estratégia Lixo Zero até 2030.
Na construção civil, porém, o desafio ganha contornos próprios. Uma obra movimenta concreto, aço, madeira, vidros, embalagens e materiais de acabamento, produzindo descartes em praticamente todas as etapas. Quanto maior o canteiro, mais complexa se torna a separação, a rastreabilidade e a destinação adequada de cada material.
“Criamos um ambiente especializado em projetos que incorporam práticas ambientalmente responsáveis, tecnologias avançadas e designs que reduzem impactos ambientais, beneficiando não apenas os proprietários, mas também as comunidades ao entorno”, afirma Alexandre Groeler, CEO do Grupo OAD.
Morador do leste da Ilha há mais de 20 anos, Groeler fundou a incorporadora com a proposta de combinar empreendimentos de alto padrão, qualidade construtiva e uma gestão mais rigorosa dos impactos gerados pelas obras.
Da experiência inicial à escala bilionária
O maior teste dessa estratégia é o Makai Beachfront, no Novo Campeche. Com aproximadamente 64 mil metros quadrados, o empreendimento terá 406 unidades residenciais e 32 espaços comerciais.
O projeto adota um modelo híbrido de construção, combinando métodos convencionais com processos off-site. Nesse sistema, parte dos componentes é produzida em ambiente industrial e posteriormente transportada para montagem no canteiro, reduzindo cortes, sobras de materiais e operações realizadas dentro da obra.
A industrialização também busca aumentar a segurança, a produtividade e a previsibilidade do cronograma. Com maior controle sobre as etapas produtivas, a incorporadora tenta reduzir desperdícios que representam, ao mesmo tempo, impacto ambiental e perda financeira.
O paisagismo do Makai é assinado pelo escritório Burle Marx, referência brasileira na integração entre arquitetura e vegetação. A proposta prevê a utilização de espécies adequadas à paisagem local e a aproximação entre áreas construídas e espaços naturais.“Nosso principal pilar é deixar um legado positivo para as próximas gerações, priorizando obras com baixo impacto ambiental e integração entre qualidade de vida e natureza”, diz Groeler.
A poucos quilômetros dali, no Morro das Pedras, o La Esmeralda Beach Village aplica a mesma estratégia em outro projeto de grande porte. O empreendimento terá cerca de 38 mil metros quadrados, com 336 unidades residenciais e 23 espaços comerciais.
O conceito prevê áreas verdes, espaços integrados à natureza, medidas de eficiência energética e sistemas de captação de água da chuva. Durante a construção, os resíduos são separados de acordo com suas características e encaminhados para reutilização, reciclagem, compostagem ou outras formas de aproveitamento.
O Compromisso Lixo Zero não significa que uma obra deixe de produzir qualquer tipo de descarte. A proposta é evitar que a maior parte dos materiais termine em aterros, criando processos para mantê-los em circulação dentro de novas cadeias produtivas.
Essa mudança depende de uma rotina menos visível do que as fachadas e áreas de lazer apresentadas aos compradores. Exige treinamento das equipes, organização física do canteiro, pontos de separação, acompanhamento dos volumes descartados e articulação com empresas capazes de receber e reaproveitar cada categoria de resíduo.
Também há diferença entre assumir o compromisso e obter uma certificação. A comprovação dos resultados depende de indicadores, documentos, rastreabilidade e processos de verificação capazes de demonstrar qual parcela dos resíduos foi efetivamente desviada dos aterros.
Antes de levar a estratégia aos dois grandes empreendimentos, o Grupo OAD aplicou o modelo no Natura, no Porto da Lagoa. Segundo a incorporadora, o projeto foi o primeiro canteiro de obras de Santa Catarina a assumir o Compromisso Lixo Zero.
Em fase de conclusão, o Natura alcançou, de acordo com dados da empresa, 97,71% de destinação dos resíduos para reciclagem. A experiência serviu como laboratório para adaptar os processos a obras maiores, com mais trabalhadores, fornecedores e materiais em circulação.
É essa mudança de escala que transforma a iniciativa em uma discussão de negócios. Administrar resíduos em um projeto menor é diferente de repetir o modelo em dois empreendimentos que, juntos, reúnem centenas de apartamentos, dezenas de espaços comerciais e uma extensa cadeia de prestadores de serviços.
Com R$ 1,4 bilhão em VGV em construção, a incorporadora tenta demonstrar que responsabilidade ambiental, produtividade e imóveis de alto padrão podem fazer parte da mesma estratégia. O desafio será manter os indicadores à medida que as obras avançam e mudam os tipos e os volumes de materiais descartados.
Em Florianópolis, essa equação tem peso adicional. A natureza, as praias e a qualidade de vida estão entre os principais fatores de valorização do mercado imobiliário local. Para quem constrói na Ilha, reduzir o impacto dos canteiros começa a deixar de ser apenas uma obrigação ambiental e passa a ser também uma forma de proteger o valor econômico do próprio negócio.
