Pular para o conteúdo principal
Sacre Investimentos
NegóciosMPOL
20/07/2026
7 min

Com R$ 500 milhões em obras, construtora brasileira prepara expansão nos EUA

Com R$ 500 milhões em obras, construtora brasileira prepara expansão nos EUA

A Zait Engenharia passou a maior parte de seus 41 anos longe dos holofotes do mercado imobiliário. Fundada em São Paulo em 1985, a companhia cresceu prestando serviços de construção para terceiros, inicialmente em agências bancárias e, depois, em obras de grandes empresas, shopping centers, indústrias e empreendimentos residenciais. 

Agora, a construtora familiar tenta mudar de escala — e de endereço. A empresa criou a Zait Global, braço de desenvolvimento imobiliário que começará pela Flórida, nos Estados Unidos, com casas voltadas ao comprador americano, e não ao brasileiro interessado em manter um imóvel no exterior.

A operação está captando US$ 5 milhões para os primeiros projetos e trabalha com a perspectiva de alcançar aproximadamente US$ 100 milhões em Valor Geral de Vendas (VGV) nos próximos anos. A estreia será em bairros consolidados da região central da Flórida, com residências avaliadas entre US$ 1,5 milhão e US$ 3 milhões. 

O novo braço nasce no momento em que a Zait também acelera no Brasil. A empresa faturou R$ 140 milhões em 2025 e projeta chegar a R$ 400 milhões neste ano. O valor não inclui os projetos americanos, que ainda estão em estruturação. Hoje, são cerca de R$ 500 milhões em obras contratadas, e a meta é elevar essa carteira para R$ 1,5 bilhão até o fim de 2027.

A companhia emprega entre 150 e 250 pessoas, dependendo do estágio dos canteiros, e mantém 15 projetos em execução. Seu modelo de negócios continua baseado principalmente na prestação de serviços de engenharia e construção para incorporadoras, investidores, empresas e proprietários de imóveis.

A Zait, portanto, não é uma incorporadora tradicional. Em alguns negócios, porém, passou a assumir participação nas sociedades criadas para desenvolver os empreendimentos. Nesses casos, além de executar a obra, contribui com estudos de viabilidade, orçamento, planejamento e soluções construtivas.

“Não somos uma incorporadora. Entramos na incorporação ajudando no desenvolvimento, mas a inteligência da incorporação continua com o parceiro”, diz Henrique Oliveira, CEO da Zait e filho do fundador.

O que significa construir para o mercado de luxo

A entrada no chamado altíssimo padrão começou há cerca de três anos, com o Brisas de Avaré, empreendimento residencial no interior de São Paulo. A partir daquele projeto, a companhia passou a se apresentar menos como uma executora de obras e mais como uma plataforma de soluções de engenharia.

Na prática, isso significa entrar antes do início do canteiro. A Zait realiza estudos sobre terrenos e edifícios, analisa a viabilidade de reformas e retrofits, aproxima escritórios de arquitetura e fornecedores e estrutura custos, cronogramas e métodos construtivos.

A empresa acumula mais de 1 milhão de metros quadrados construídos e atua em projetos residenciais, corporativos, comerciais, hoteleiros e de uso misto.

O reposicionamento também tenta resolver uma imprecisão frequente do setor. Não existe uma fronteira única que determine quando um empreendimento passa a ser de luxo. A classificação varia de acordo com a cidade, o perfil do comprador, a localização e o preço relativo do imóvel.

A consultoria Knight Frank, por exemplo, considera imóveis “prime” aqueles que estão entre os 5% mais caros e desejados de cada mercado. Já estudos brasileiros de demanda imobiliária utilizam a renda familiar como referência e classificam como alto padrão o público com rendimento mensal superior a R$ 24 mil. São critérios diferentes e que mostram por que o luxo não pode ser definido apenas por um preço nacional fixo.

No caso da Zait, o termo se refere principalmente ao grau de personalização, à complexidade arquitetônica, aos materiais utilizados e à quantidade de engenharia necessária para entregar o projeto. Essa lógica também é aplicada a obras que não são residenciais, como hospitais, hotéis, escolas, fábricas e centros comerciais. 

“Gostamos dos projetos complexos, seja pelo volume, por uma solução tecnológica diferente ou pela arquitetura. Quanto mais difícil, mais conseguimos nos destacar”, afirma Oliveira.

Essa definição é relevante porque parte dos maiores contratos da companhia não pertence ao mercado residencial. A principal obra atualmente é um shopping center de cerca de 50 mil metros quadrados na região do Brás, em São Paulo. A empresa também executa uma escola, um hospital, uma concessionária e um projeto do Sesc em Paraty, no Rio de Janeiro.

Na frente residencial, são 16 casas de alto padrão em construção. A carteira inclui ainda um edifício de madeira próximo ao Parque Ibirapuera, em São Paulo, desenvolvido para a Comporta, além de projetos em condomínios como Fazenda Boa Vista e Brisas de Avaré.

Brisas de Avaré: empreendimento marcou a entrada da Zait Engenharia no segmento de altíssimo padrão (Zait Engenharia/Divulgação)

A segunda geração muda a rota

A mudança de posicionamento ganhou força com o retorno de Henrique Oliveira à empresa. Formado em engenharia civil pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, ele começou como estagiário na companhia fundada pelo pai, mas deixou o negócio para trabalhar durante oito anos em uma grande empresa do setor.

Oliveira voltou em 2015, depois de passar por diferentes posições em obras imobiliárias. Nos últimos três anos, liderou uma revisão da marca, da estrutura interna e dos mercados atendidos pela companhia.

Além da construtora, o grupo começou a organizar negócios complementares. Entre eles estão um ateliê dedicado a mobiliário, equipamentos e montagem de hotéis e residências de alto padrão e o Hub Multiconstrutivo, que reúne fornecedores de sistemas industrializados para a construção.

A empresa também prepara um produto de casas com projetos arquitetônicos assinados e componentes industrializados. A promessa é oferecer prazo mais curto e custo previamente definido, dois pontos que continuam pouco previsíveis em obras altamente personalizadas.

O reposicionamento ajudou a ampliar a prospecção, mas não produz contratos imediatos. Segundo Oliveira, algumas negociações podem levar anos entre o primeiro estudo e o início do canteiro. A meta de R$ 400 milhões em receita, por isso, é resultado de projetos analisados e negociados ao longo dos últimos dois ou três anos — e não da recém-criada operação americana.

Casas para americanos na Flórida

A ideia de internacionalização surgiu após a Zait desenvolver a pré-engenharia de uma residência nas Bahamas. A casa ainda não foi construída, mas o trabalho levou os executivos a avaliar se o conhecimento acumulado poderia ser aplicado em outros mercados.

Depois de uma primeira viagem aos Estados Unidos, a companhia estudou diferentes modelos de negócio e contratou a Terracotta Ventures para ajudar a estruturar a tese. A opção escolhida foi a aquisição de terrenos ou imóveis antigos em bairros consolidados da Flórida.

As construções existentes poderão ser demolidas e substituídas por residências modernas, reposicionadas no segmento premium. A empresa criou ainda uma ferramenta própria para analisar terrenos, imóveis e oportunidades de desenvolvimento na região.

“Escolhemos bairros já desenvolvidos e um produto destinado ao público americano. São residências na faixa de US$ 1,5 milhão a US$ 3 milhões”, diz Daniel Bertolucci, diretor de operações da Zait e sócio da Zait Global.

A empresa pretende iniciar as primeiras aquisições de terrenos em setembro. O capital inicial deverá vir de investidores brasileiros, mas o comprador final será americano. Depois de validar o modelo de casas individuais, a companhia considera avançar para outras cidades e formatos imobiliários.

A aposta encontra um mercado de alto padrão mais seletivo. Em 2025, os preços residenciais de luxo cresceram, em média, 3,2% entre os cem mercados acompanhados pela Knight Frank, mas a América do Norte apresentou desempenho negativo.

Em Miami, os preços recuaram ligeiramente após a forte valorização registrada desde 2021. Ao mesmo tempo, imóveis novos, prontos e que dispensam reformas continuam escassos — exatamente o tipo de ativo que a Zait pretende entregar.

A operação internacional começa pequena diante dos números brasileiros, mas representa uma transformação importante no modelo da companhia. No Brasil, a Zait é remunerada principalmente pelo custo das obras que executa. Nos Estados Unidos, pretende participar de toda a cadeia: aquisição do terreno, desenvolvimento, construção e venda.

Para uma empresa que passou quatro décadas construindo projetos concebidos por terceiros, o maior teste agora será provar que também consegue escolher onde, para quem e o que construir.

AutorGuilherme Gonçalves
FonteExame
Distribuído por