Com Selic estacionada, incorporadora adia lançamentos de alto padrão para 2027
AW Realty, que lançou R$ 400 milhões no primeiro semestre, agora segura o restante do ano e diz ter R$ 2,5 bilhões em projetos para os próximos três anos

Um ano depois de lançar R$ 1 bilhão em empreendimentos, a AW Realty decidiu tirar o pé do acelerador. A incorporadora paulistana de alto padrão adiou para 2027 todos os projetos que estavam previstos para o segundo semestre de 2026.
A decisão acompanha a mudança de humor do mercado após as eleições, que culminou na interrupção do ciclo de cortes de juros. Na quarta-feira, 4, o Comitê de Política Monetária (Copom) manteve a Selic em 13,75% ao ano.
Para 2026, a companhia projetava lançar entre R$ 800 milhões e R$ 1 bilhão em valor geral de vendas (VGV), com empreendimentos nas zonas Norte, Sul e Oeste de São Paulo. A maior parte desse volume estava concentrada no segundo semestre.
No primeiro semestre, a AW Realty colocou dois produtos na rua, que somam R$ 400 milhões em VGV e, segundo a empresa, tiveram bom desempenho de vendas. O restante ficou na gaveta.
"Optamos por uma postura prudente frente ao ambiente macroeconômico e decidimos postergar para 2027 o que estava previsto para o segundo semestre", afirmou Claudio Carvalho, sócio e CEO da AW Realty, à EXAME.
O adiamento não significa encolhimento do pipeline. A incorporadora afirma ter R$ 2,5 bilhões em projetos para lançar nos próximos três anos.
O alto padrão costuma ser apontado como o segmento mais protegido dos juros, já que depende menos do crédito bancário. Na primeira metade do ano, esse mercado esteve aquecido, segundo Carvalho.
O período eleitoral, porém, colocou compradores e incorporadoras em compasso de espera. Na avaliação do executivo, a hesitação tem a ver com a natureza da compra nessa faixa de preço.
"Sem clareza dos rumos das contas públicas, da inflação e dos juros, a decisão de compra de um imóvel de alto padrão, movida mais por desejo do que por necessidade, ficou em suspenso", disse.
Mesmo quem não precisa de financiamento reage ao cenário. Segundo Carvalho, parte dos clientes de alto padrão prefere manter uma fatia maior do patrimônio aplicada em momentos de incerteza, em vez de travá-la em um imóvel.
Segundo o executivo, os cenários internacional e doméstico de 2026 se mostraram muito diferentes daqueles usados nas projeções da companhia.
As tensões geopolíticas pressionaram o custo dos materiais de construção. A escassez de mão de obra também pesou, e o resultado, afirma Carvalho, foram margens mais apertadas.
A AW Realty não definiu data para retomar os projetos. O gatilho, segundo Carvalho, é ter mais clareza sobre o ambiente macroeconômico.
A cautela não é exclusiva da empresa. "Olhando para 2027, a combinação de juros elevados, inflação pressionada, dólar alto e incertezas fiscais aponta para um cenário desafiador para o setor, que já começa a refletir esse contexto na revisão e postergação de lançamentos pelas incorporadoras", disse Fabrício Schveitzer, conselheiro do Ecossistema Sienge.
Da urna ao juro futuro
A pausa nos cortes da Selic foi a primeira decisão do Banco Central após o segundo turno. Antes do resultado, o mercado apostava em um sexto corte seguido, de 0,25 ponto percentual. A alta dos juros futuros e a incerteza fiscal levaram o mercado a apostar na manutenção nos dias seguintes à votação.
No comunicado, o Copom citou a piora do cenário de inflação, a política fiscal e o risco de desvalorização persistente do real. Para Carvalho, foi a preocupação com as contas públicas e com a inflação depois das eleições que puxou os juros futuros e levou o mercado a revisar suas estimativas.
"A interrupção dos cortes da Selic não é a notícia que gostaríamos de ver, mas a AW Realty segue comprometida com o setor imobiliário e com o Brasil", afirmou.
A próxima reunião do Copom, a última de 2026, acontece nos dias 8 e 9 de dezembro.
O efeito chegou ao crédito antes mesmo do Copom. Um dia depois do segundo turno, o Bradesco elevou a taxa mínima do financiamento imobiliário de 11,69% para 15% ao ano mais Taxa Referencial (TR). O Itaú elevou a sua de 11,99% para 12,95% e o Santander, de 11,69% para 12,49%, ambos mais TR.
A Selic, explica Carvalho, não se converte de imediato no custo do financiamento, mas tem impacto relevante. "Os custos aumentam para incorporadoras e para compradores de imóveis", disse.
