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28/07/2026
7 min

Com US$ 44,6 bilhões em jogo, Brasil e China podem liderar cadeias livres de desmatamento

Estudo do WRI Brasil divulgado nesta terça-feira mapeou 21 iniciativas de rastreabilidade no país e propõe um protocolo único para destravar acordos com o maior comprador global de soja e carne

Com US$ 44,6 bilhões em jogo, Brasil e China podem liderar cadeias livres de desmatamento

Enquanto o mundo assiste à escalada de barreiras comerciais e disputas geopolíticas em torno de commodities estratégicas, Brasil e China podem liderar cadeias livres de desmatamento da soja e carne bovina.

É o que aponta um novo estudo do WRI Brasil divulgado nesta terça-feira, 28, e desenvolvido em parceria com WRI China, BV Rio, Amigos da Terra, PRI e Proforest.

Sua proposta é construir um protocolo técnico integrado de rastreabilidade para as duas cadeias que mais conectam economicamente os dois países: o Brasil é o maior exportador mundial e a China, o maior comprador.

A aposta ganha força num momento de aproximação política. Em maio de 2025, o presidente Lula esteve em Pequim e assinou mais de 20 acordos de cooperação com o gigante asiático, incluindo iniciativas de restauração de vegetação nativa e monitoramento ambiental via satélite.

O estudo do WRI Brasil propõe transformar essa intenção em padrão internacionalSoja e carne bovina, juntas, representaram cerca de 60% do valor das exportações agropecuárias do Brasil em 2024  e a China é o destino de boa parte.

Em 2023, 74% das exportações de soja do país (US$ 38,6 bilhões) foram para o mercado chinês. Somando as exportações de carne bovina no mesmo período, o comércio bilateral dessas duas commodities girou cerca de US$ 44,6 bilhões entre 2023 e 2024.

É esse volume que dá peso à proposta: qualquer mudança nas regras de rastreabilidade e sustentabilidade dessas cadeias afeta diretamente a espinha dorsal do agronegócio brasileiro.

O motivo pelo qual o setor está no centro das atenções ambientais e climáticas fica claro nos números de uso da terra e no papel que tem nas emissões brasileiras de gases estufa.

No Cerrado, onde a agropecuária ocupa cerca de metade do bioma, 38,2 milhões de hectares de vegetação nativa foram perdidos entre 1985 e 2023 e representou uma área do tamanho do Japão.

Na Amazônia, quase 90% das áreas desmatadas nas últimas quatro décadas viraram pastagem, tornando a pecuária a principal responsável pela mudança no uso da terra na região.

Ao mesmo tempo, a agricultura regenerativa traz uma oportunidade bilionária: só no Cerrado essas boas práticas podem gerar US$ 100 bilhões ao PIB nacional.

A pressão que vem de fora

O comércio global de commodities agrícolas atravessa uma transformação: compradores, governos e instituições financeiras têm ampliado as exigências por garantias socioambientais, e a sustentabilidade deixou de ser diferencial para virar "barreira de entrada".

O exemplo mais claro é o Regulamento Europeu de Desmatamento (EUDR), que exige comprovação de que produtos como soja, carne e derivados não estejam ligados a desmatamento ou degradação florestal após dezembro de 2020.

Mas a pressão não vem só da Europa. A própria China está se movendo: a China Meat Association já tem especificações de "comércio verde" alinhadas a padrões internacionais, uma das maiores companhias nacionais enviou seu primeiro carregamento de soja livre de desmatamento em 2024, e Pequim sinalizou que vai exigir rastreabilidade total da cadeia de carne bovina importada.

Na prática, o WRI destaca que mesmo o maior comprador do agro brasileiro está endurecendo critérios socioambientais. Para o Brasil, ignorar esse movimento significa "risco de perder competitividade justamente no mercado que mais depende do país", diz a organização.

Sobra controle, falta padrão nacional

Um dos achados do estudo é que o Brasil não carece de instrumentos de controle: foram mapeadas 21 iniciativas diferentes usadas hoje para monitorar as cadeias de soja e carne, entre protocolos, plataformas públicas, acordos voluntários e certificações, como a Moratória da Soja, o Protocolo Verde dos Grãos do Pará, o SeloVerde e os Termos de Ajustamento de Conduta da pecuária.

O gargalo, segundo o WRI, é que esses sistemas não conversam entre si. Cada um usa uma data de corte diferente para considerar uma área "livre de desmatamento" e a maioria ainda usa julho de 2008 (o marco do Código Florestal), enquanto a exigência internacional já é dezembro de 2020.

Critérios de fiscalização de fornecedores indiretos, mecanismos de verificação e nível de rigor também variam, e essa fragmentação, "prejudicaria a compreensão e a confiança de compradores internacionais, inclusive os chineses".

Outro dado ajuda a entender o tamanho do desafio: o Brasil tem cerca de 8 milhões de propriedades rurais registradas no Cadastro Ambiental Rural (CAR), mas apenas 25% passaram por algum nível de análise ambiental e só 6% completaram a validação total.

Sem lei nova, um protocolo comum

O WRI deixa claro que a solução não passa por nova legislação. A recomendação central é integrar o que já existe e aproveitar ferramentas que já existem em um protocolo unificado, com linguagem técnica comum entre produtores, empresas, governos e compradores.

Entre as dez propostas prioritárias listadas pelos pesquisadores estão: adotar a propriedade rural (e não apenas a área plantada) como unidade de monitoramento e bloqueio; usar exclusivamente bases de dados oficiais e cientificamente validadas; garantir rastreabilidade de fornecedores indiretos, especialmente na pecuária; e criar mecanismos claros de remediação para fornecedores que corrigirem irregularidades.

Segundo os pesquisadores, a Moratória da Soja, em vigor desde 2006, é um "lembrete" de que mesmo os pilares mais consolidados do sistema de rastreabilidade brasileiro não estão isentos de disputa e reforça a necessidade de fortalecer a governança.

A janela política parece favorável para o protocolo: o Brasil sediou a COP30 em Belém no ano passado e reafirmou compromissos como zerar o desmatamento ilegal até 2030, enquanto a China avança sua própria agenda ambiental através compromissos como o Marco Global de Biodiversidade de Kunming-Montreal.

Se a proposta avançar, o WRI Brasil aposta que o ganho vai além ambiental: reduz incerteza jurídica para exportadores, facilita o acesso a mercados mais exigentes como a União Europeia, e transforma a relação Brasil-China em referência de rigor técnico e sustentabilidade para o comércio agrícola global.

AutorSofia Schuck
FonteExame
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