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Sacre Investimentos
NegóciosMPOL
07/08/2026
10 min

Com vendedores robôs, a startup dele já movimentou R$ 75 milhões em seu primeiro ano

Fundada por Eduardo Petrelli e Paulo Monçores, a Agent.Shop desenvolve agentes capazes de recomendar produtos, montar carrinhos, receber pagamentos e atender consumidores

Com vendedores robôs, a startup dele já movimentou R$ 75 milhões em seu primeiro ano

Quando o engenheiro curitibano Eduardo Petrelli fundou o James Delivery, em 2014, pedir refeições por aplicativo ainda era uma experiência limitada. O iFood funcionava principalmente como um catálogo de restaurantes, enquanto a entrega dependia dos próprios estabelecimentos. Farmácias, supermercadose boa parte do comércio estavam fora desse ambiente.

Petrelli enxergou espaço para um “delivery de tudo”. Pelo aplicativo do James, o consumidor podia solicitar produtos de qualquer estabelecimento disponível no Google Maps. Um entregador ia até o local, fazia a compra e levava o pedido à casa do cliente.

A empresa foi posteriormente vendida ao Grupo Pão de Açúcar, o GPA. Sob o controle do grupo, chegou a movimentar cerca de R$ 500 milhões por ano, reuniu quase 1.000 funcionários e operou em 30 cidades, segundo o fundador. Petrelli permaneceu mais três anos no negócio antes de iniciar uma nova trajetória.

A segunda tentativa, o Mercado Diferente, terminou de outra forma. A startup de alimentos chegou a quase R$ 50 milhões em vendas anuais, mas dependia de sucessivos aportes para manter sua expansão. Sem concluir uma rodada de investimento nem uma negociação de venda, encerrou as atividades no fim de 2024.

Agora, Petrelli está à frente da Agent.Shop, uma empresa que desenvolve ferramentas de inteligência artificial para o varejo. Criada em 2025, a startup quer permitir que marcas vendam e atendam seus clientes por meio de conversas no WhatsApp, no Instagram, em seus sites e, futuramente, em assistentes como ChatGPT, Gemini, Claude e Perplexity.

O que faz a Agent.Shop

A tese da Agent.Shop é que o comércio eletrônico está entrando em uma terceira fase.

A primeira ocorreu com a popularização dos computadores e da internet, quando as marcas passaram a construir lojas virtuais. A segunda veio com os smartphones, que transferiram boa parte das compras para aplicativos e páginas adaptadas ao celular.

A próxima interface, na avaliação dos fundadores, será a conversa. Em vez de navegar por categorias, aplicar filtros e comparar dezenas de páginas, o consumidor poderá explicar diretamente o que precisa.

“Quando você vai a uma loja física, existe um humano que ajuda e auxilia. O site, por muito tempo, foi uma jornada muito fria: você entra, clica, compra e acabou. Essa é a oportunidade da IA dentro das jornadas de compra.”

Um consumidor poderia, por exemplo, pedir um tênis para correr uma meia maratona dentro de três meses e informar quanto pretende gastar. O agente interpretaria o contexto, pesquisaria produtos compatíveis, verificaria o estoque, apresentaria as alternativas e concluiria o pagamento.

Para fazer isso, a Agent.Shop conecta os modelos de inteligência artificial aos sistemas já usados pelas varejistas. A plataforma acessa catálogos, estoques, regras de promoção, cupons, meios de pagamento, prazos de entrega e informações sobre os clientes.

“O agente precisa fazer tudo o que nós humanos faríamos”, afirma Petrelli. “Ele precisa ter acesso ao catálogo, ao inventário, ao pagamento, à logística e às regras de negócio.”

A tecnologia integra mais de 30 sistemas de e-commerce, logística, pagamento e gestão de relacionamento com clientes. A proposta é acrescentar a camada de inteligência artificial sem obrigar as marcas a substituir a estrutura tecnológica que já utilizam.

Como a plataforma já movimentou R$ 75 milhões

Em sete meses de operação, a Agent.Shop alcançou o equivalente a R$ 75 milhões em vendas anualizadas. O número não corresponde à receita da startup, mas ao valor das compras que passaram ou foram influenciadas pelos agentes de inteligência artificial da empresa.

“Nosso indicador de sucesso é o volume de transações do comércio feito por agentes: quanto estamos impactando as vendas pelos nossos agentes”, afirma Petrelli. “Chegamos a um patamar de R$ 75 milhões de GMV anualizado.”

GMV é a sigla em inglês para valor bruto de mercadorias. O indicador mede o total financeiro das vendas realizadas por uma plataforma antes de descontar devoluções, taxas, custos e outras despesas.

A startup possui 25 clientes ativos e uma equipe de nove funcionários. Entre as marcas atendidas estão VAIO, Positivo, Maria Filó, do Grupo Soma, Heineken e Reckitt, dona de Veja e Vanish. Em alguns clientes, a tecnologia já responde, em média, por 7% da experiência digital atribuída às vendas e interações online, segundo o fundador.

“Somos bem focados em eficiência”, afirma Petrelli. A empresa recebeu um aporte de US$ 1 milhão (aproximadamente R$ 5,5 milhões da época), em uma rodada anunciada em 2025. Participaram investidores que já haviam apoiado o Mercado Diferente, além de fundos como Maya Capital, Caravela Capital e Mira Capital.

De vendedores no WhatsApp ao atendimento pós-compra

A empresa divide sua plataforma em produtos voltados a diferentes partes da jornada de consumo.

O Agent.Store transforma WhatsApp, Instagram e sites em canais de venda conduzidos por agentes de IA. Eles podem tirar dúvidas, sugerir itens, aplicar cupons, montar o carrinho, calcular o frete e gerar uma cobrança via Pix.

“É como se houvesse alguém fazendo toda essa venda, mas, na verdade, são agentes por trás”, afirma Petrelli.

A conversa pode começar no Direct do Instagram depois que o consumidor visualiza uma promoção. Em vez de receber um link e ser enviado a um site, o cliente pergunta sobre tamanho, cor ou prazo de entrega e pode concluir a compra no próprio canal. 

O Agent.Marketing usa os dados dessas interações para sugerir novas compras. Um consumidor que adquiriu whey protein pode receber uma recomendação de creatina. Quem costuma comprar barras de proteína pode receber opções mais adequadas a uma rotina fora de casa. A ferramenta também atua na recuperação de carrinhos abandonados e em lembretes de reposição.

Já o Agent.CX cuida do período posterior à compra. Os agentes respondem perguntas sobre entrega, rastreamento, troca e devolução. Quando não conseguem resolver o caso, encaminham a conversa para um atendente humano, seja na plataforma da Agent.Shop, seja no sistema de atendimento já usado pelo cliente.

“Quando consegue resolver, o agente resolve. Quando não consegue, escala para um humano que tem os acessos ou a possibilidade de tratar o problema de forma mais eficiente”, afirma Petrelli.

Uma espécie de SEO para o ChatGPT

Outra frente é o Agent.GEO, ferramenta criada para melhorar a presença dos produtos nas respostas de serviços de inteligência artificial.

GEO é a sigla em inglês para otimização para mecanismos generativos. A lógica lembra a do SEO, conjunto de práticas usado para fazer páginas aparecerem nas buscas do Google. A diferença é que, no GEO, as marcas organizam seus dados para aumentar a possibilidade de serem citadas ou recomendadas nas respostas produzidas por modelos de IA.

A Agent.Shop analisa os catálogos e sugere mudanças na descrição dos produtos, nas perguntas frequentes e na estrutura técnica das páginas. A empresa também acompanha quais marcas aparecem em determinadas consultas e atribui uma pontuação à visibilidade do cliente.

“Agora existe o Generative Engine Optimization: como melhorar o posicionamento dentro das pesquisas generativas, seja no ChatGPT, no Gemini, no Perplexity ou em qualquer outro que possa aparecer”, afirma Petrelli.

Segundo o empreendedor, o catálogo criado para uma loja virtual não contém necessariamente as informações exigidas por uma pesquisa conversacional. Uma página pode informar que um tênis é azul, por exemplo, mas não esclarecer se ele é apropriado para uma meia maratona, para determinado tipo de pisada ou para um corredor iniciante.

Para preencher essa lacuna, a startup acrescenta termos semânticos — informações que descrevem o contexto e as possíveis aplicações do produto — aos dados oferecidos aos agentes.

A trajetória do James Delivery ao Mercado Diferente

Petrelli é formado em engenharia de produção pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná. Sua primeira experiência como empreendedor foi uma empresa de bicicletas elétricas, ainda em 2008. A tese era vender os veículos aos funcionários de companhias por meio de programas de benefícios.

O negócio permaneceu aberto por dois anos, mas não conseguiu ganhar escala. Petrelli seguiu então para uma pós-graduação em negócios e finanças na Universidade da Califórnia, em Berkeley, e trabalhou em uma desenvolvedora de software em Nova York antes de voltar ao Brasil e fundar o James Delivery.

Depois de vender o James ao GPA e deixar a empresa, ele fundou o Mercado Diferente. A startup vendia alimentos perecíveis por meio de um modelo que tentava prever o consumo recorrente das famílias.

A ideia era usar dados para antecipar quando itens como frutas e verduras acabariam. Com compras mais previsíveis, a empresa buscava reduzir o desperdício e, consequentemente, oferecer preços mais baixos.

O modelo, porém, exigia investimentos em estoques, centros de distribuição, separação e entrega dos produtos. No fim de 2024, a empresa tentou captar uma rodada Série A — nome dado ao primeiro investimento institucional de maior porte realizado depois que uma startup comprova a viabilidade inicial do negócio.

A captação não avançou. Uma possível venda da empresa também fracassou nas etapas finais, e os fundadores decidiram encerrar a operação, que tinha cerca de 100 funcionários.

“Foi, com certeza, o momento mais desafiador da minha trajetória como empreendedor”, afirma Petrelli. “Tivemos que encerrar uma jornada de três anos.”

A equipe passou o primeiro trimestre de 2025 ajudando na recolocação dos funcionários. Parte dos investidores decidiu apoiar novamente os fundadores na criação da Agent.Shop.

“Eles viram que fizemos tudo o que estava dentro do possível para ser menos doloroso para todos”, afirma. “Os investidores entendem o risco desse tipo de investimento e acabaram acreditando na gente novamente.”

A meta de construir uma empresa global

Na Agent.Shop, Petrelli voltou a trabalhar com Paulo Monçores, que também havia sido seu sócio no Mercado Diferente e mentor no James Delivery. Monçores foi diretor de tecnologia da Shopifye da VTEX, duas empresas que fornecem infraestrutura para operações de comércio eletrônico.

A comparação ajuda a explicar a ambição dos fundadores. Assim como Shopify e VTEX oferecem os sistemas necessários para uma marca vender em sites e aplicativos, a Agent.Shop quer fornecer a infraestrutura para que empresas vendam por meio de agentes. 

“A Shopify e a VTEX construíram um sistema operacional para a época da web. Nós nos juntamos para construir o sistema operacional para o comércio por agentes”, afirma Petrelli.

A startup pretende levantar uma nova rodada de investimento entre o fim de 2026 e o começo de 2027. O dinheiro deverá ser usado principalmente para financiar uma entrada nos Estados Unidos.

A companhia também afirma estar próxima do break-even, ponto em que a receita da empresa se iguala às suas despesas: ela deixa de consumir caixa, mas ainda não gera lucro relevante. A partir desse patamar, qualquer avanço de receita que não seja acompanhado pelo mesmo aumento de custos pode levar a operação ao lucro.

A decisão de mirar os Estados Unidos está apoiada na avaliação de que as barreiras para internacionalizar uma companhia de inteligência artificial são menores do que eram na época do James Delivery.

Diferenças de idioma podem ser tratadas pelos próprios modelos de IA, enquanto fornecedores de pagamentos, computação e grandes modelos de linguagem atendem vários países. Na visão do fundador, isso permite que uma startup brasileira desenvolva o produto, desde o início, para concorrer em diferentes mercados.

“Não há por que não começar uma empresa global desde o começo”, afirma Petrelli. “O Brasil ficou por muito tempo pensando que seu mercado era grande o suficiente e deu espaço para empresas gigantes entrarem na nossa geografia. Temos um pensamento diferente.”

AutorGuilherme Gonçalves
FonteExame
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