Combustível mais caro? Petróleo chega a US$ 105 e 5 motivos explicam a alta
Navios sob ataque, estoques menores e risco geopolítico elevam o prêmio cobrado pelo barril

O petróleo voltou a disparar nesta quinta-feira, 8, com investidores elevando o prêmio de risco diante de novos ataques a navios no Golfo Pérsico, da queda no tráfego pelo Estreito de Ormuz, do risco de uma nova ofensiva dos Estados Unidos contra o Irã e de ameaças adicionais à produção no Golfo do México.
Por volta das 8h50 (horário de Brasília), o parâmetro global Brent para dezembro avançava 4,44%, a US$ 104,64 por barril; enquanto o West Texas Intermediate (WTI, referência americana de preços) para novembro subia 4,47%, a US$ 92,21.
A escalada recoloca o petróleo acima de US$ 100 e aumenta a preocupação com o custo dos combustíveis, bem como com uma nova rodada de pressão inflacionária. O mercado continua extremamente sensível a qualquer ameaça à oferta global após uma breve trégua nos preços.
Ataques a petroleiros voltam a assustar o mercado
O primeiro fator é a escalada dos ataques a embarcações na região do Golfo Pérsico, porque um petroleiro foi atingido por vários projéteis a 51 milhas náuticas ao norte de Madinat ash Shamal, no Qatar. O episódio foi o primeiro ataque registrado tão profundamente por lá em quase um mês.
A frequência dos incidentes também cresceu rapidamente, e um exemplo disso é que a UK Maritime Trade Operations registrou nove ataques na região do Estreito de Ormuz apenas nos primeiros sete dias de outubro, número equivalente à metade de todos os ataques registrados em setembro.
Na semana encerrada em 5 de outubro, pelo menos 12 ataques atingiram ou tiveram como alvo navios que transportavam petróleo, gás natural liquefeito e gás liquefeito de petróleo.
O Joint Maritime Information Center, coordenado pela Marinha dos EUA, descreveu um ambiente de pressão constante sobre a navegação comercial.
"Essas ações continuam demonstrando a intenção do Irã de afirmar sua presença ao longo das principais rotas de trânsito e manter pressão sobre as embarcações em passagem", esclareceu.
Menos petróleo passa pelo Estreito de Ormuz
O segundo motivo está no Estreito de Ormuz, uma das rotas mais importantes para o mercado mundial de energia. O tráfego de petroleiros caiu ao menor nível em dois meses quando os ataques voltaram a se intensificar.
Analistas da Kpler calcularam que o volume de petróleo bruto que atravessou o estreito recuou 27% em relação ao pico registrado durante a guerra na semana anterior, para pelo menos 10,1 milhões de barris por dia.
Apenas sete embarcações de commodities cruzaram a passagem na terça-feira, 6, o menor número desde o fim de julho. "Isso voltou à média de setembro, mas representa 74% do nível anterior à guerra", disseram os analistas.
A própria Administração de Informação Energética dos EUA (EIA, na sigla em inglês) calcula que o risco maior enfrentado pelos petroleiros já elevou os custos de transporte e o prêmio de risco embutido no petróleo.As tarifas dos navios chegaram a níveis recordes em setembro, acompanhadas por seguros mais caros. Algumas embarcações também passaram a escolher trajetos mais longos para evitar áreas de conflito, reduzindo a disponibilidade de navios.
Trump aumenta o temor de nova ofensiva contra o Irã
Já a possibilidade de uma nova fase do conflito entre os EUA e o Irã voltou ao radar. O Pentágono prepara opções para uma nova rodada de operações militares que poderia atingir instalações de energia, infraestrutura e alvos nucleares iranianos.
O presidente americano Donald Trump indicou na noite de quarta-feira, 7, que não considera um acordo necessariamente desejável neste momento. "Acho que o acordo não é realmente algo que eu queira fazer, mas eles estão dispostos a nos oferecer qualquer coisa para parar."
A possibilidade de retomada de grandes operações militares também aumentou. Um oficial israelense afirmou que as chances seriam menores antes das eleições americanas de meio de mandato, mas poderiam crescer significativamente depois da votação.
O economista-chefe do UBS Global Wealth Management, Paul Donovan, destacou à Fortune que o choque do petróleo vai além do mercado de energia. "Os preços do petróleo bruto e do diesel estão subindo. Títulos e ações não gostam disso", explicou.
Ele acredita que uma tentativa dos bancos centrais de compensar a inflação provocada por um choque do petróleo exigiria uma política monetária suficientemente restritiva para esfriar com força a economia não ligada ao setor energético, cenário pouco favorável para ações e títulos.
Estoques estratégicos ainda não convenceram o mercado
O quarto motivo está na dificuldade de compensar rapidamente uma eventual perda de oferta do Oriente Médio. Há dúvidas sobre quanto dos 400 milhões de barris de reservas estratégicas cuja liberação havia sido acordada em março efetivamente chegou ao mercado.
O G7 também anunciou uma liberação adicional de 100 milhões de barris, enquanto a Agência Internacional de Energia (IEA, em inglês) afirmou que seus membros acelerariam o uso dos estoques.
Mesmo assim, a reação dos preços mostra que os investidores ainda veem risco de escassez. A EIA estima que os estoques globais de petróleo caíram em média 1,9 milhão de barris por dia no terceiro trimestre e projeta nova redução média de 700 mil barris por dia no quarto trimestre.
Furacão ameaça produção no Golfo do México
Um furacão também se aproxima do Golfo do México e pode interromper temporariamente a produção de petróleo na região, acrescentando uma nova ameaça à oferta no mesmo momento em que o mercado acompanha os ataques no Oriente Médio.
A combinação desses riscos foi suficiente para levar novamente o WTI acima de US$ 90 e o Brent acima de US$ 100.
Combustível pode ficar mais caro
A alta do petróleo aumenta a pressão sobre derivados porque o barril representa uma parcela importante do custo de produção de gasolina e diesel. O efeito não é imediato nem igual em todos os países. A experiência recente mostra, porém, como a alta do petróleo pode chegar rapidamente aos derivados.
Nos EUA, a gasolina no varejo alcançou média de US$ 4,35 por galão em setembro e o diesel chegou a US$ 6,29, movimentos associados tanto ao petróleo mais caro quanto à ampliação das margens de refino.
A EIA afirma que essa escassez também alimenta o próprio preço do petróleo, porque refinarias precisam de mais matéria-prima para atender à demanda pelo combustível.
Onde o preço do petróleo vai parar
A EIA elevou de forma expressiva sua projeção e agora espera que o Brent tenha preço médio de US$ 105 por barril no quarto trimestre de 2026, US$ 14 acima da estimativa feita um mês antes. Para 2027, a agência ainda trabalha com queda da média para US$ 84.
A revisão parte da expectativa de que os fluxos do Oriente Médio continuem limitados durante o último trimestre deste ano. A EIA estima que a produção paralisada na região fique próxima de 4,5 milhões de barris por dia no período.
O órgão espera que rotas alternativas, transferências de petróleo entre navios e novas estruturas de transporte reduzam gradualmente as interrupções. Nesse cenário, o Brent cairia para uma média de US$ 87 no segundo trimestre de 2027 e para US$ 74 no quarto trimestre.
Entretanto, a agência alerta que a volatilidade de curto prazo pode ser maior do que suas próprias projeções indicam.
Já o UBS elevou sua projeção para o Brent no quarto trimestre de 2026 para US$ 100 por barril, ante cerca de US$ 80 anteriormente. Para a média de 2026, a previsão passou de US$ 83,74 para US$ 91,57.
"Embora os fluxos por Ormuz tenham se recuperado materialmente nas últimas semanas, essa melhora ocorreu a um custo elevado e continua frágil diante dos ataques iranianos em andamento", disse.
O banco trabalha com uma normalização gradual dos fluxos de petróleo da região ao longo do primeiro semestre de 2027, mas reconhece que o caminho permanece incerto e, por isso, incorporou um prêmio de risco maior às estimativas de curto prazo.
*Com agências de notícias internacionais
