Começa velório do aiatolá Khamenei no Irã, 4 meses após sua morte

O governo do Irã prepara o funeral do aiatolá Ali Khamenei, líder supremo do país desde 1989, morto nas primeiras ondas de ataques dos EUA contra Teerã em fevereiro.
O escopo do funeral começa nessa sexta-feira, 3, serão seis dias consecutivos de luto em massa, com grandes cerimônias planejadas em pelo menos cinco cidades no Irã e no Iraque. As autoridades iranianas estimam que a procissão reúna dezenas de milhões de pessoas. A partir de sábado, 4. um feriado de três dias será decretado em Teerã exclusivamente para a ocasião.
Afinal, Khamenei não era apenas o líder iraniano; o aiatolá também era um respeitado clérigo muçulmano xiita, com milhares de seguidores devotos no Iraque, no Líbano, no Paquistão e em diversos outros países com uma população xiita considerável. Como líder da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC), patrocinou grupos militantes xiitas, como o Hezbollah e os Houthis, em todo o Oriente Médio.
Ao mesmo tempo, Khamenei também foi responsável por autorizar, ou não barrar,repressões brutais contra seus próprios cidadãos, incluindo a prisão, tortura e morte de dissidentes.
Seu governo registrou diversos casos de corrupção e viu o controle das riquezas e das forças armadas do Irã cada vez mais concentrado nas mãos da administração clerical — quando sua morte foi confirmada, muitos iranianos celebraram abertamente, arriscando serem presos.
Portanto, o funeral vem acompanhado de simbolismo: ocorre quatro meses após sua morte nos primeiros ataques-surpresa americanos, e seis meses após as ruas do país terem sido tomadas por protestos massivos que exigiam o fim de seu governo — enquanto se espera que milhões acompanhem o período de luto genuíno, muitos iranianos seguem insatisfeitos com o que o mandato de Khamenei trouxe ao país em quase quatro décadas de liderança autoritária.
Imagem de união nacional
Muçulmano xiita ergue retrato de Khamenei em apoio ao aiatolá. Apesar das repressões, muitos fiéis ainda seguem sua autoridade política e religiosa
O presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, instou os iranianos "de todas as etnias, religiões, preferências e tendências políticas" a comparecerem ao funeral, associando explicitamente a participação deles à imagem que o país deseja projetar no cenário mundial.
"Sua presença em massa será uma resposta decisiva à lógica do terrorismo, da violência e da intimidação, e uma mensagem clara ao mundo de que a nação iraniana permanece unida e solidária na defesa de sua independência e dignidade", afirmou Pezeshkian em um comunicado nesta quinta-feira, 2.
O longo intervalo entre a morte do líder supremo do Irã e seu funeral chamou a atenção por contrariar uma tradição importante da cultura muçulmana, na qual os enterros costumam ocorrer pouco tempo após o falecimento, idealmente em até 24 horas.
O adiamento refletiu as circunstâncias excepcionais enfrentadas pelo país, que passou semanas sob intensos bombardeios. Autoridades iranianas negaram rumores de que o corpo de Ali Khamenei tenha sido enterrado temporariamente e afirmaram que ele foi mantido em conformidade com os preceitos religiosos.
O governo iraniano tenta transformar o funeral em um momento de unidade nacional e luto coletivo, além de uma demonstração de capacidade administrativa e de resistência diante de um inimigo externo. O símbolo oficial da cerimônia traz um punho cerrado de Khamenei acompanhado do slogan: "Devemos nos reerguer".
As homenagens também servirão para que Teerã reafirme sua influência regional e seus laços religiosos transnacionais. É, em parte, por isso que o governo também planeja grandes cerimônias de luto no Iraque, outro país de maioria xiita e que abriga milícias apoiadas pelo Irã, em uma tentativa de projetar a continuidade de sua liderança e de sua rede de alianças no Oriente Médio, segundo o jornal The New York Times.
Todavia, um desafio para essa imagem de continuidade e união é a ausência pública do sucessor de Khamenei, seu filho Mojtaba Khamenei. Temendo atentados, o novo líder dirige o país dos bastidores desde o início do conflito. Ainda não se sabe se Mojtaba participará do grande velório.
Um pesadelo de logística: as lições do passado
Pessoas se reúnem para um protesto contra a onda de ataques israelenses contra o Irã no centro de Teerã: manter as multidões sob controle é uma grande sombra na logística do grande velório (Atta Kenare/AFP)
Mesmo assim, as autoridades municipais fizeram grandes planos para o evento: grandes estacionamentos foram construídos nos arredores da capital, onde viajantes de todo o país poderão deixar seus carros e pegar ônibus para entrar na cidade; quartéis militares e escolas estão sendo utilizados para acomodar as pessoas que vêm prestar suas homenagens.
Garantir a segurança e o controle das multidões durante a semana de homenagens representa um dos principais desafios para as autoridades iranianas, que têm em mente os problemas registrados em funerais de outras figuras centrais do regime.
Os precedentes mais marcantes são os enterros do aiatolá Ruhollah Khomeini, fundador da República Islâmica e antecessor de Khamenei, em 1989, e do general Qassem Soleimani, morto em um ataque americano em 2020. No funeral de Khomeini, cerca de três milhões de pessoas foram às ruas, provocando cenas de caos. Em determinado momento, o corpo do líder caiu de um caixão de madeira e foi cercado por uma multidão em desespero, que precisou ser dispersada por soldados com tiros de advertência. O episódio terminou com oito pessoas mortas por esmagamento.
Já durante o funeral de Soleimani, uma debandada deixou dezenas de mortos, reforçando as preocupações das autoridades iranianas com a segurança e a organização das cerimônias de despedida de Khamenei.
Em um grande complexo de oração, o Grand Mosalla — onde o corpo de Khamenei será inicialmente velado —, equipes trabalham na construção de plataformas e de vias de acesso e saída para as enormes multidões que devem comparecer para vê-lo. A cerimônia fúnebre, que inclui um cortejo com o corpo por algumas das principais ruas de Teerã, ocorrerá na capital na segunda-feira; em seguida, será realizada outra cerimônia em Qom, o centro de estudos religiosos do Irã.
O corpo de Ali Khamenei será levado nesta quarta-feira ao Iraque, onde estão previstas cerimônias nas cidades sagradas de Karbala e Najaf, importantes centros de peregrinação para os xiitas de todo o mundo. Segundo especialistas do Times, a iniciativa reflete a tentativa de Teerã de reafirmar o caráter transnacional que definiu a República Islâmica e sua política externa.
Na mesma nota, as cerimônias também representam uma oportunidade para a Guarda Revolucionária Islâmica demonstrar a capacidade de projeção regional do país, servindo como símbolo da influência e do poder regionais do Irã.
Na quinta-feira, Khamenei será enterrado em Mashhad, sua cidade natal, no santuário do imã Reza, uma das figuras mais importantes do islamismo xiita. De acordo com o Times, a escolha do local servirá como um monumento ao status que ele detém no regime iraniano, mesmo após a sua morte, e entre seus apoiadores, mas não necessariamente refletirá como ele era visto pelo povo iraniano como um todo.
A decisão também evita comparações diretas com o aiatolá Khomeini, que foi enterrado em um mausoléu próprio, transformado em um local de peregrinação para seus seguidores. Ao optar por um santuário já existente, ainda que seja o mais importante do país, o governo iraniano reduz o risco de expor diferenças no legado e na popularidade dos dois líderes.
