'Começo todo mês devendo R$ 1,5 milhão': como o trem mais famoso do Brasil fatura R$ 70 milhões
Empresa vende almoço, transporte, passeios, eventos, hospedagem e pacotes turísticos para aumentar receita

RESUMO +
A operadora de trens turísticos Serra Verde Express faturou cerca de R$ 70 milhões em 2025 com a viagem de trem entre Curitiba e Morretes e serviços associados. Após mais de 5 milhões de passageiros desde 1997, a companhia aposta em roteiros, restaurantes, pousadas e eventos para cobrir os custos ferroviários e ampliar a receita além das passagens.
O trem deixa Curitiba e começa a descer a Serra do Mar em direção ao litoral do Paraná. No caminho, cruza pontes, túneis e trechos de Mata Atlântica até chegar à região de Morretes.
Para o passageiro, são algumas horas de passeio. Para quem opera a composição, a viagem começa muito antes.
Quando a família de Adonai Arruda Filho assumiu a operação, em 1997, havia 20 vagões disponíveis. Só quatro tinham condição de rodar.
A empresa não vinha do turismo. O pai era veterinário, a mãe tinha formação em enfermagem, uma das irmãs era advogada e Adonai cursava publicidade. A experiência da família estava em empresas de prestação de serviços.
Quase três décadas depois, a Serra Verde Express já transportou mais de 5 milhões de passageiros, e transformou o paseio de Curitiba a Morretes no mais famoso de trem do país.
Em 2025, a operação de Curitiba, somada aos roteiros e serviços associados ao trem, faturou cerca de 70 milhões de reais.
Mas a conclusão a que a família chegou ao longo desse caminho ajuda a explicar no que a companhia se transformou.
“Se eu fosse vender só bilhete de trem, a conta não fecha”, diz Arruda, diretor-geral da Serra Verde Express.
Adonai Arruda Filho, da Serra Verde Express (Priscilla Fiedler / Serra Verde Express/Divulgação)
Por isso, o negócio hoje vai bem além dos trilhos.
A empresa vende almoço, transporte, passeios, eventos, hospedagem e pacotes turísticos. Tem restaurantes e pousadas, prepara um hotel em Morretes e comprou um terreno em Itu, no interior paulista, onde pretende construir outra hospedagem. No Paraná, já oferece 29 roteiros — alguns deles nem sequer incluem uma viagem de trem.
Como começou a a história do Serra Verde
A entrada da família no setor ferroviário aconteceu em 1996, quando o governo federal abriu uma licitação para a operação turística do trecho no Paraná.
Eles decidiram participar porque já administravam empresas de serviços. Turismo, até então, era um mercado desconhecido.
A primeira viagem aconteceu em maio de 1997.
O estado da operação indicava o tamanho do trabalho pela frente. Dos 20 vagões, apenas quatro estavam aptos a circular, segundo Arruda. Era preciso recuperar a frota, aprender a operar um negócio turístico e lidar com os custos de uma estrutura ferroviária.
No primeiro ano, cerca de 50.000 passageiros fizeram o passeio. No segundo, o número saltou para 120.000.
Mais gente dentro dos vagões, porém, não significava dinheiro no caixa. “Foram nove anos rodando no vermelho, com prejuízos”, afirma Arruda.
A operação passou a dar resultado positivo apenas a partir do décimo ano.
Foi também nesse período que a empresa começou a entender que havia um limite para o modelo baseado apenas na passagem.
O passageiro chegava a Morretes e queria almoçar. Outros buscavam transporte para seguir viagem. Alguns queriam conhecer mais destinos na região. Havia quem pretendesse estender a viagem até a Ilha do Mel.
A Serra Verde começou a ocupar esses espaços.
Qual é a estratégia da empresa
Hoje, o passageiro pode comprar apenas a viagem de trem. Mas também pode combinar a passagem com refeições, transporte e outros passeios.
A empresa criou diferentes categorias dentro dos vagões, da classe econômica às litorinas de luxo, veículos ferroviários com uma experiência mais sofisticada. Ao mesmo tempo, ampliou a atuação fora deles.
São 29 roteiros no Paraná.
O grupo também opera um restaurante e uma pousada em Morretes e tem outra pousada na Ilha do Mel.
A expansão é resultado de uma lógica relativamente simples: se a própria companhia ajuda a levar milhares de turistas a uma região, pode tentar capturar uma parcela maior do gasto realizado por eles durante a viagem.
“Você identifica aquela demanda que gera e, a partir da demanda que gera, outras oportunidades de negócios”, afirma Arruda.
Essa diversificação também serve para compensar uma característica menos visível do negócio: manter um trem em circulação custa caro.
Uma roda de trem, por exemplo, custa cerca de 5.000 reais, segundo Arruda. A substituição em uma composição pode exigir 16 unidades. O problema é que o fornecedor não necessariamente vende 16.
“Eu tenho que comprar lotes de 100 rodas pelo menos”, diz.
Há ainda peças que deixaram de ser fabricadas e precisam ser reproduzidas. Componentes são feitos em tornos, máquinas usadas para moldar e usinar peças, ou recriados a partir de modelos existentes.
Nas litorinas de luxo, cada veículo possui dois motores. Arruda diz que uma manutenção envolvendo um motor e uma caixa de transmissão pode se aproximar de 180.000 reais.
A empresa também paga pela concessão e, no trecho ferroviário, pela circulação sobre a malha operada por outra empresa.
Quando soma infraestrutura, manutenção e outros custos fixos e variáveis, Arruda resume o começo de cada mês de uma maneira pouco turística.
“Eu começo todo dia primeiro do mês devendo 1,5 milhão de reais”, diz.
É essa estrutura que ajuda a explicar por que vender apenas assentos não basta.
Onde está a expansão da Serra Verde
A Serra Verde tenta agora reproduzir parte do modelo a cerca de 400 quilômetros dali.
Em dezembro de 2020, a companhia inaugurou o Trem da República, entre Itu e Salto, no interior de São Paulo.
Pouco depois da estreia, uma nova onda da pandemia voltou a restringir as atividades. Vieram fechamentos, reaberturas, cancelamentos e devoluções de dinheiro.
Internamente, a empresa considera que os dois primeiros anos quase não entram na conta de maturação do negócio.
Em 2025, o Trem da República recebeu cerca de 33.000 passageiros. Até julho deste ano, eram 25.000. A expectativa da companhia é chegar a 50.000 até dezembro.
O crescimento ainda não foi suficiente para colocar a operação no azul.
A projeção da Serra Verde é terminar 2026 com um resultado negativo de aproximadamente 1,2 milhão de reais. O ponto de equilíbrio, segundo Arruda, deve chegar em 2027 caso o crescimento siga o planejado.
A resposta para tentar acelerar esse caminho tem sido parecida com a adotada no Paraná: vender mais do que a viagem de trem.
Em Itu e Salto, a empresa já trabalha com seis a sete roteiros.
Há pacotes que começam em São Paulo, com saída da Barra Funda, seguem para um passeio pelo centro histórico de Itu, incluem a viagem ferroviária e depois passam pelos pontos turísticos de Salto. O almoço pode entrar no mesmo pacote.
Em determinadas datas, a composição muda de função. Há viagens de Halloween, jantares no Dia dos Namorados e outros eventos temáticos.
A empresa também explora as estações como espaços para eventos. Em São Paulo, há um restaurante em cada ponta do trajeto. Até casamento entrou no negócio.
A proposta permite que convidados embarquem em uma estação, façam o percurso de trem e cheguem ao local onde será realizada a cerimônia.
“O trem é só o começo. A partir do trem, a gente inventa o que tiver que inventar”, diz Arruda.
O próximo passo são os hotéis
A mesma estratégia começa agora a avançar sobre a hospedagem.
Em Itu, a Serra Verde comprou um terreno para construir uma pousada. Arruda diz que a companhia identificou uma oferta de hospedagem menor do que a demanda que pretende gerar na região.
No Paraná, o grupo já possui uma pousada em Morretes e outra na Ilha do Mel. Agora, prepara também a construção de um hotel em Morretes.
A expansão não significa que os trilhos tenham saído dos planos.
A empresa acompanha projetos de trens turísticos em Minas Gerais, Santa Catarina e São Paulo. O avanço, porém, depende do processo de renovação ou devolução de trechos ferroviários hoje concedidos a operadoras de carga.
Para Arruda, 2027 deve ajudar a definir quais desses projetos poderão sair do papel.
Até lá, a Serra Verde segue tentando resolver a mesma equação que encontrou quando recebeu aqueles primeiros vagões em 1997. O trem leva o turista. Para fazer o negócio funcionar, é preciso descobrir como acompanhá-lo depois que ele desembarca.
