Como a Andorinha virou líder do azeite extra virgem no Brasil — e agora aposta em squeeze e crianças

Depois de dois anos de preço nas alturas, o azeite de oliva voltou a caber no carrinho do brasileiro.
Entre 2023 e 2024, a alta global empurrou a garrafa para um patamar que afastou parte dos consumidores e fez o mercado encolher. A virada começou no segundo semestre de 2025, quando o preço na gôndola finalmente cedeu. Em 2026, a recuperação ganhou velocidade: nos primeiros cinco meses do ano, as vendas em volume cresceram acima de 20% no mercado.
É nesse mercado em recuperação que a Andorinha se move para ganhar ainda mais mercado. A marca, do grupo português Sovena, lidera o segmento de azeite extra virgem no Brasil — o de maior consumo no país.
Quando a Sovena chegou por aqui, em 2006, tinha apenas 2% de participação. Hoje, são quase 30%.
Agora a marca prepara dois lançamentos para a segunda metade do ano, e nenhum deles tem cara de azeite tradicional. O primeiro é o Squiz, umaembalagem de plástico que se aperta para dosar o azeite, no estilo dos frascos de cozinha profissional.
O segundo é mais inusitado: um azeite com licenciamento de personagem infantil, estampado com a Bluey — a cachorrinha australiana que virou fenômeno entre crianças e pais.
Os dois tiveram pré-lançamento no APAS Show, a maior feira de varejo de alimentos do país, e chegam ao varejo no segundo semestre.
A leitura de fundo é que o produto precisa sair da despensa para entrar na rotina — e em novos públicos. Trabalho que a Andorinha vem fazendo nos últimos 20 anos e que, segundo o grupo, tem ajudo a posicionar a empresa na liderança do setor.
"Vale mais a pena você colocar o investimento em estar próximo, em ações onde a gente consiga estar perto do consumidor final", afirma Loara Villares da Costa, diretora de marketing do grupo. A marca aposta em degustações, eventos gastronômicos e embalagens mais práticas para transmitir conhecimento sobre o que diferencia um azeite do outro.
O plano para os próximos anos é dobrar a aposta na educação do consumidor e abrir frentes que a categoria ainda não ocupava: a criança, alcançada pela parceria com a Bluey, e o consumidor jovem e prático, mirado pelo Squiz e pelo spray, que ganhou tração com a popularização das airfryers.
A leitura é que ampliar as ocasiões de uso do azeite é o caminho para crescer num país onde a penetração do produto ainda é baixa.
Como o grupo está no Brasil
A Sovena, do Grupo Nutrinveste, é uma das líderes mundiais no setor de azeite, com as marcas Oliveira da Serra e Andorinha, além de presença em óleos vegetais com Fula, Vêgê e Frigi.
Segundo a empresa, são operações diretas em onze países — Portugal, Espanha, Estados Unidos, Brasil, Chile, Argentina, Marrocos, China, Angola, Tunísia e Colômbia — e exportação para mais de 70. O grupo emprega cerca de 1.250 pessoas no mundo, e a operação internacional responde por aproximadamente 80% do negócio.
No Brasil, a aposta da Andorinha sempre foi o segmento extra virgem, o de maior consumo e maior contração nos últimos dois anos. Foi também o que liderou a recuperação recente.
Para Vasco Campos, diretor regional do grupo para a América Latina, o país tem espaço para crescer porque o consumidor brasileiro quer saber mais sobre o produto.
"Há um interesse muito grande do consumidor brasileiro em azeite, em saber mais sobre azeite", afirma. Campos mora em São Paulo há 14 anos e diz ter acompanhado essa curva de perto: questões que antes geravam dúvida — a diferença entre extra virgem e refinado, ou em que momento usar cada um — hoje circulam com mais naturalidade na hora da compra.
Um mito que pode travar o crescimento
Um obstáculo persiste, e mexe direto com o quanto de azeite entra na casa do brasileiro: a crença de que o produto não pode ir ao fogo.
"Se eu acho que eu não posso esquentar, eu vou ter com certeza um óleo ou alguma outra gordura complementar minha cozinha", afirma Loara.
O raciocínio da marca é direto: quem acredita no mito reserva o azeite só para finalização e usa outra gordura no resto, o que limita o consumo.
Derrubar essa ideia é parte central da estratégia. Por isso o foco em estar perto do consumidor, explicando e fazendo degustar.
As embalagens entram na mesma lógica. O Squiz nasce dessa leitura: um formato que já era comum em outros mercados e que a marca decidiu testar no Brasil com a chancela da Andorinha. O spray, mais antigo no portfólio, também segue relevante por ser um produto mais fácil de aplicar em produtos cozinhados com uma airfryer, que se popularizou no Brasil desde a pandemia.
Qual é a estratégia para o público infantil
A parceria com a Bluey é a aposta mais incomum.
Anunciada com a BBC Studios, é, segundo a empresa, a primeira vez que uma marca de azeite se associa a uma franquia de entretenimento infantil. A escolha do desenho não é aleatória: o Brasil é uma das principais audiências da série, e o conteúdo é assistido por pais e filhos juntos.
A lógica comercial é entrar na casa da família por uma porta nova.
"No final, ela trata muito dos valores que a família tenta trazer para os filhos", afirma Loara, sobre a série.
Em vez de mirar apenas o público gourmet, a marca quer alcançar a criança e plantar o contato com o azeite cedo — um movimento que Vasco associa à cultura dos países do sul da Europa, onde o azeite está presente na alimentação desde a infância.
No Brasil, onde não há essa tradição com crianças, a marca enxerga um mercado a ser criado.
As novas possibilidades com o acordo Mercosul-EU
Por cima de tudo isso paira o acordo entre Mercosul e União Europeia, aprovado pela UE no início de 2026 e visto pelo setor como um vento a favor.
A leitura da Sovena é que ele torna o azeite europeu mais competitivo e amplia o acesso do consumidor brasileiro a um produto de qualidade por um preço mais atrativo. "A partir do momento em que a taxa fique zerada", o azeite tende a ficar cerca de 10% mais barato, afirma Vasco.
A própria empresa, porém, faz a ressalva do tempo. O efeito é faseado e se estende por um horizonte longo — Vasco fala em 15 a 16 anos até a tarifa zerar por completo, o que dilui o impacto ano a ano. "Não é um impacto assim tão forte e imediato", afirma.
Há ainda quem questione o efeito prático. O Instituto Brasileiro de Olivicultura (Ibraoliva), que representa os produtores nacionais e apoia o acordo, afirmou em nota que os azeites europeus já entram no Brasil com tarifa zero desde março de 2025 e que, no que toca à taxação do produto, a assinatura do tratado não altera o cenário atual do mercado.
Produção brasileira: parceria, mas sem escala
A Sovena também olha para o azeite produzido no Brasil.
Desde 2019, a Andorinha mantém edições em parceria com produtores nacionais, reunidas numa linha chamada Criações do Brasil. Uma delas é com a Ouro de Santana, de Santana do Livramento, no Rio Grande do Sul; outra, mais recente, com a Vertentes, de Minas Gerais.
Segundo a empresa, os azeites passam pelos testes da área de qualidade do grupo em Portugal e são avaliados como excepcionais.
O limite, reconhece a própria marca, é a escala. "O clima e o solo não ajudam a que realmente o Brasil seja um grande player na produção de azeite quando o assunto é escala", afirma Vasco.
Por isso as parcerias seguem como edições pequenas, de caráter mais institucional do que comercial. A intenção, diz a marca, é não interromper a linha.
Num segmento que ainda concentra mais de 300 marcas e onde concorrentes como a Gallo disputam a liderança, manter presença na produção local é mais sobre posicionamento do que sobre faturamento.
