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Sacre Investimentos
Mundo
11/08/2026
6 min

Como a disputa por Ormuz pode redesenhar o mercado global de gás natural liquefeito

Novo estudo do CSIS estuda os efeitos do conflito no mercado da commodity, essencial fonte de energia para grande parte do mundo

Como a disputa por Ormuz pode redesenhar o mercado global de gás natural liquefeito

O estreito de Ormuz, principal corredor de exportação de petróleo e gás do Oriente Médio, voltou ao centro das atenções do mercado global de energia. A nova escalada do conflito entre Estados Unidos e Irã aumenta os riscos para a navegação na região e ameaça reconfigurar o comércio mundial de gás natural liquefeito (GNL), commodity da qual o Catar é um dos maiores fornecedores.

Um estudo do Center for Strategic and International Studies (CSIS) aponta que a deterioração da segurança na região ocorre em um momento particularmente delicado para o mercado de GNL.

Além da crescente tensão em torno de Ormuz, ataques iranianos atingiram instalações de liquefação do Catar, reduzindo a capacidade de exportação do país e ampliando as preocupações sobre a oferta global da commodity.

O relatório aponta que, desde o ataque do Hamas contra Israel em outubro de 2023, o Irã ampliou significativamente a atuação de sua rede de proxies — grupos armados patrocinados pelo Irã que lutam em alinhamento com Teerã — em Gaza, no Líbano, no Iraque, no Iêmen e no Mar Vermelho, aumentando a pressão simultânea sobre Israel e sobre os interesses militares e econômicos dos Estados Unidos na região.

A segurança dessa passagem tornou-se o cerne da guerra no Irã, pois afeta todas as potências do Golfo, atores fundamentais na geopolítica e na economia global: o estudo realça que o Catar, segundo maior exportador mundial de gás natural liquefeito (GNL), é um dos países mais expostos, pois não dispõe de uma rota alternativa relevante para escoar sua produção. Com isso, o conflito pode redesenhar o futuro da commodity e reverberar nos mercados do mundo.

O emirado depende fortemente do estreito para escoar sua produção de gás natural liquefeito e planeja quase dobrar sua capacidade de exportação nos próximos anos, consolidando-se como um dos maiores fornecedores globais.

Os planos, todavia, foram abalados após ataques iranianos ao complexo de Ras Laffan, coração da indústria de GNL do país.

Duas unidades de liquefação foram atingidas, e a QatarEnergy, estatal de energia, estima que os reparos possam levar de três a cinco anos, reduzindo em cerca de 17% a capacidade total de exportação do país — já um dos principais produtores da commodity — e reestruturando o mercado de GNL.

Salvando o mercado

Refinaria de petróleo em Doha, Catar

Refinaria de petróleo em Doha, Catar: estruturas assim correm risco na guerra, e são fundamentais tanto para a economia local quanto para a global (Franck Fife/AFP) (Franck Fife/AFP)

Diante disso, o CSIS estima que a prioridade imediata de Doha é restaurar a capacidade não afetada e acelerar a expansão do projeto North Field East. Dessa forma, segundo os especialistas, o governo também precisa garantir condições seguras para a passagem diária de navios pelo Estreito de Ormuz antes de colocar toda a infraestrutura em operação.

Outro desafio é preservar a reputação do Catar como fornecedor confiável. As declarações de força maior e os atrasos nas entregas ameaçam relações comerciais construídas ao longo de décadas, especialmente com compradores asiáticos que dependem de contratos de longo prazo.

Nos bastidores, Doha avalia alternativas diplomáticas, o que pode ajudar a resolver simultaneamente os dois problemas do país.

Uma possibilidade seria negociar com Teerã um arranjo bilateral que permita a continuidade parcial das exportações, mesmo sem a reabertura completa da hidrovia. A ideia, porém, pode gerar atritos com Washington e com outros parceiros ocidentais.

O CSIS também considera o surgimento de dois corredores marítimos concorrentes no Estreito de Ormuz. Um seria controlado ou autorizado pelo Irã, atendendo países alinhados a Teerã; o outro contaria com proteção naval liderada pelos Estados Unidos e seus aliados.

Apesar da crise, o Catar ainda pode recuperar espaço no mercado global de LNG. O país mantém uma das estruturas de produção mais baratas do mundo e aposta na combinação de competitividade comercial, diplomacia energética e expansão de sua frota de navios para retomar a participação perdida.

No entanto, especialistas alertam para um risco mais profundo: uma perda prolongada de parte relevante do gás catari no mercado internacional. Novos ataques, instabilidade política no Irã ou mudanças na relação entre os dois países sobre o megacampo compartilhado North Field–South Pars podem prolongar a incerteza por anos.

Ao mesmo tempo, os EUA e o Canadá avançam rapidamente na expansão de sua capacidade de exportação de LNG.

Novos projetos em construção devem adicionar mais de 120 milhões de toneladas por ano à oferta americana nos próximos cinco anos, reduzindo a dependência global de qualquer fornecedor isolado.

Para o mercado internacional, a principal questão é se o mundo continuará sentindo falta do gás catari daqui a três ou cinco anos.

Quanto mais diversificada e abundante for a oferta global de energia, menor tende a ser o impacto de interrupções temporárias, mesmo quando essas interrupções envolvem um produtor tão importante quanto o Catar.

Limbo

Fumaça e chamas sobem no local dos ataques aéreos a um depósito de petróleo em Teerã, em 7 de março de 2026. Os Estados Unidos e Israel lançaram ataques contra o Irã em 28 de fevereiro, provocando a retaliação iraniana com ataques de mísseis em toda a região e intensificando as preocupações sobre a interrupção da energia e dos transportes globais. (Foto de Sasan / Middle East Images / AFP via Getty Images)

Fumaça e chamas sobem no local dos ataques aéreos a um depósito de petróleo em Teerã. Sem solução bélica ou diplomática em vista, apesar da destruição, conflito no Irã segue num limbo inconclusivo (Foto de Sasan / Middle East Images / AFP via Getty Images) (Sasan / Middle East Images / AFP /Getty Images)

A guerra no Oriente Médio abriu um período de incerteza prolongada para as economias do Golfo. Em vez de uma escalada total ou de um acordo de paz, o cenário predominante é o de “nem guerra, nem paz”, marcado por ataques esporádicos e riscos permanentes ao setor energético.

Esse cenário é descrito no texto do CSIS como o caso mais provável para o futuro próximo e, para muitos exportadores do Golfo, possivelmente o mais prejudicial.

Desde o início do conflito, instalações de gás natural liquefeito, terminais de exportação de petróleo, refinarias, oleodutos e redes elétricas foram atingidos em diferentes países do Conselho de Cooperação do Golfo.

Mais de 25 empresas de energia declararam força maior, evidenciando a dimensão da interrupção nas operações.

A instabilidade tem levado companhias e investidores a adiar decisões importantes. Sem previsibilidade quanto à segurança das rotas marítimas e da infraestrutura energética, as empresas do setor passaram a priorizar planos de contingência, mitigação de riscos e revisão de investimentos futuros.

O Estreito de Ormuz continua sendo o principal ponto de tensão. Há momentos em que petroleiros conseguem atravessar a região, mas novos ataques podem interromper o tráfego em questão de horas. Dados da consultoria Kpler indicam que as travessias caíram cerca de 70% em relação ao período de trégua observado entre junho e julho.

AutorMatheus Gonçalves
FonteExame
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