Como a dona de Le Lis e Dudalina lucrou R$ 30,7 milhões com menos estoque e expansão seletiva
Depois de anos de reestruturação, companhia direciona capital conforme o retorno de cada marca e mantém a abertura de lojas próprias sob critérios mais rígidos

A Veste, dona das marcas Le Lis, Dudalina, BO.BÔ, John John e Individual, encerrou o segundo trimestre de 2026 com lucro líquido ajustado de R$ 30,7 milhões, alta de 80,5% sobre o mesmo período de 2025.
O resultado vem de uma estratégia que a companhia tenta manter sem grandes mudanças de direção: fortalecer as marcas, vender mais peças sem descontos, diminuir o peso dos estoques, controlar despesas e selecionar com mais rigor onde investir.
“Não tem nada que tenha sido fora da curva para a gente encurtar algum caminho para chegar num bom resultado”, afirma Alexandre Afrange, CEO da Veste. Segundo ele, a expansão do lucro é consequência das decisões tomadas ao longo dos últimos anos, e não de alguma medida pontual adotada no trimestre.
A abordagem contrasta com umperíodo anterior da empresa. Ainda sob o nome Restoque, a companhia chegou a 2020 com dívida próxima de R$ 1,8 bilhão, depois de anos de expansão agressiva, aquisições e uma estrutura de custos pesada. Em 2022, converteu R$ 1,6 bilhão em dívida em ações. Desde então, a gestão passou a priorizar rentabilidade e reorganização das marcas.
Nesse último semestre, a receita líquida ajustada chegou a R$ 353,2 milhões, avanço de 9,5%, enquanto o EBITDA ajustado somou R$ 89,8 milhões, 19,1% acima de um ano antes.
Comprar melhor, e não simplesmente comprar menos
Uma das medidas mais visíveis da nova estratégia está nas araras. No segundo trimestre, 86% das vendas da companhia foram realizadas a preço cheio. Ao mesmo tempo, o saldo de estoques caiu 5,2% na comparação anual, para R$ 249,7 milhões, e a cobertura foi reduzida em 25 dias.
A lógica é reduzir a quantidade de peças que precisam terminar a coleção em liquidação — movimento que preserva as margens e exige mais precisão na definição do que será produzido e distribuído para as lojas.
Afrange diz que a diminuição dos estoques não significa apenas reduzir pedidos.
“A gente está comprando melhor, a gente está alocando melhor e a gente conhece muito bem nosso cliente”, afirma. “Sempre tem melhoria, sempre tem algum ajuste, sempre tem algum aperto de parafuso aqui e ali. Mas nada que mude a estratégia que a gente adotou".
O efeito aparece na rentabilidade. O lucro bruto ajustado do trimestre alcançou R$ 237,4 milhões, avanço de 14,3%, e a margem bruta subiu 2,9 pontos percentuais, para 67,2%.
A estratégia é uma continuação de mudanças iniciadas nos últimos anos. Em 2025, a companhia encerrou o exercício com 177 dias de estoque, 45 dias abaixo do registrado um ano antes. Naquele período, a gestão já dizia ter revisto coleções, preços e volumes comprados para reduzir a dependência das promoções.
A expansão de lojas passa por uma conta mais rígida
O resultado melhor não significa que a Veste pretenda voltar a acelerar a abertura de lojas próprias. Para aprovar um novo ponto, a companhia considera fatores como risco de canibalização de unidades existentes, prazo de retorno do investimento e capacidade de conquistar novos clientes.
“A gente não tem um plano agressivo de expansão de lojas, mas a gente vem abrindo algumas. A decisão de uma nova loja é uma decisão bastante criteriosa", diz o CEO do grupo.
Um teste recente dessa política foi feito no Morumbi Shopping, em São Paulo. Neste ano, o grupo abriu quatro operações no empreendimento, de Le Lis, Dudalina, BO.BÔ e John John.
A Le Lis, que não tinha loja no shopping, já colocou a nova unidade entre as três maiores da rede. A marca faturou R$ 237,2 milhões no segundo trimestre, crescimento de 11,5%, e ampliou sua base ativa de clientes em 6%.
Segundo Afrange, havia demanda não atendida pela marca naquela região. A nova loja passou a atrair tanto novos consumidores quanto clientes que haviam deixado de comprar Le Lis.
“O aprendizado ali está que a gente exatamente escolhe muito bem aonde a gente vai fazer o investimento para colocar uma loja e ter um retorno adequado”, afirma.
Além das inaugurações, a companhia continua reformando unidades existentes. A estratégia vem sendo usada para aumentar as vendas sem a necessidade de adicionar novos pontos à rede. Segundo Afrange, as reformas costumam produzir retorno mais previsível porque a marca já conhece a localização, o shopping e a base de consumidores.
“Essas reformas trazem um payback (retorno do investimento) muito certeiro, porque você já está no shopping, você já está num ponto, você já é conhecido”, afirma. Segundo o executivo, a mudança de arquitetura e da experiência de compra tem elevado vendas e resultados das unidades.
Alexandre Afrange, CEO da Veste: companhia evita uma nova corrida por lojas e concentra investimentos em pontos com retorno esperado e franquias (Veste/Divulgação)
Como Dudalina e John John estão crescendo
Onde existe disposição maior para aumentar a rede física é no modelo de franquias.
A Dudalina é a marca mais avançada nessa frente. A Veste trabalha com unidades de aproximadamente 60 metros quadrados, capazes de acomodar a coleção da marca. O investimento inicial, incluindo loja e estoque, fica em torno de R$ 800 mil, segundo Afrange, com prazo de retorno estimado em aproximadamente três anos.
A companhia afirma também participar da seleção dos pontos comerciais dos franqueados.
“Meu interesse é que eles ganhem dinheiro, porque eu não vou ganhar dinheiro simplesmente fazendo a venda para eles. Eu quero é a marca que está sendo apresentada para o público. A marca é uma marca só”, afirma Afrange.
Depois de concluir uma primeira etapa de expansão da Dudalina, a Veste prepara uma segunda leva de unidades e começou também a prospectar candidatos a franqueados da John John.
No segundo trimestre, a Dudalina registrou aumento de 7,4% nas vendas. A John John, por outro lado, teve retração de 1,8% na receita, movimento atribuído pela companhia à decisão de reduzir liquidações e priorizar vendas a preço cheio. A margem bruta do canal B2C da marca aumentou 4,7 pontos percentuais.
Como a Veste decide onde investir entre cinco marcas
A expansão não ocorre de maneira uniforme entre as marcas. A Le Lis continua como a maior operação do grupo e, nas palavras de Afrange, funciona como o principal motor de crescimento e geração de resultado. A divisão do capital, porém, acompanha a participação de cada marca no faturamento e nos resultados.
“Os investimentos, na hora de alocar capital, a gente vai de acordo com o tamanho, com o desenho da pizza ali de resultado e de faturamento”, afirma Afrange.
No segundo trimestre, a BO.BÔ foi a marca que cresceu mais rapidamente. O faturamento chegou a R$ 46,2 milhões, alta de 30,9%, impulsionado por categorias como jeans, alfaiataria e couro. A Individual teve movimento inverso e terminou o período com receita de R$ 13,6 milhões, queda de 17,8% em relação ao segundo trimestre de 2025.
A companhia também combina produção própria e terceirizada. As duas fábricas, localizadas no Paraná e em Goiás, respondem por cerca de 22% da produção total do grupo. Em Dudalina e Individual, aproximadamente 70% do fornecimento vem dessas unidades, segundo Afrange. O desenho e o desenvolvimento dos produtos permanecem dentro das próprias marcas.
Outra frente que ganhou escala nos últimos trimestres é o digital. O canal faturou R$ 88 milhões no segundo trimestre, alta de 19,6% sobre o mesmo período de 2025. Os aplicativos próprios já representam 28,6% das vendas digitais.
A companhia havia iniciado em 2024 uma mudança na plataforma de comércio eletrônico das marcas. A migração permitiu integrar melhor os canais e lançar os aplicativos. Em 2025, o B2C digital já havia crescido 21,3%, para R$ 281,8 milhões.
Para Afrange, o ganho não está apenas na venda feita pelo telefone. O aplicativo e o CRM aumentaram a quantidade de informações disponíveis sobre o comportamento dos consumidores e passaram a alimentar decisões da operação.
“Quem sabe analisar e quem sabe extrair bem esses dados sempre acaba se beneficiando”, afirma. “É em cima de dados, é em cima do conhecimento do cliente, em cima da qualidade do nosso produto, que acaba sendo um círculo virtuoso.”
Quais serão os próximos passos
Por ser uma empresa de capital aberto, a Veste não divulga uma meta de expansão para os próximos trimestres. Contudo, Afrange diz que a ideia é continuar procurando oportunidades pontuais para novas lojas e manter as demais frentes já em execução.
“Mais do que o crescimento em si, é a qualidade desse crescimento”, afirma. “A gente está focado muito no crescimento com qualidade, no crescimento rentável e sustentável. Então a gente não tem feito atalhos para entregar números bons.”
O balanço deixa a companhia com mais espaço financeiro para executar essa estratégia. Ao fim do segundo trimestre, a dívida líquida correspondia a 0,5 vez o EBITDA ajustado acumulado em 12 meses, excluindo o efeito do IFRS 16.
Para Afrange, o lucro do trimestre deve ser entendido como consequência desse processo, e não como o objetivo isolado da gestão.
“Mais do que buscar o lucro, que obviamente toda empresa tem como objetivo, a gente tem como objetivo ser uma empresa absolutamente sólida, uma empresa com os seus fundamentos muito em ordem”, afirma. “A gente celebra os bons resultados, mas, mais do que isso, é a forma como a gente está alcançando.”
