Pular para o conteúdo principal
Sacre Investimentos
NegóciosMPOL
01/08/2026
6 min

Como a Galeria do Rock sobreviveu à crise da música e do centro de SP e hoje fatura R$ 185 milhões

O fluxo caiu 40% na década passada, no auge da insegurança do centro. A retomada veio com shows no terraço aos sábados, que esgotam 300 ingressos, e a chegada de um novo público

Como a Galeria do Rock sobreviveu à crise da música e do centro de SP e hoje fatura R$ 185 milhões

O mercado que deu origem à Galeria do Rock, a mais tradicional galeria de São Paulo, não existe mais. Quando o prédio da República, no coração paulistano, virou endereço obrigatório para quem gostava de música, ouvir uma banda significava comprar um LP. Depois, um CD. Imagine o desafio da empresa quando o streaming de música enxugou (e muito) esse modelo.

Sob a mesma gestão desde 1993, a Galeria respondeu trocando o disco pela experiência. Hoje reúne cerca de 200 lojas em funcionamento, o equivalente a 92% da ocupação do prédio, com camisetas, tênis, cervejarias, estúdios de tatuagem e também, lojas de discos.

Juntas, as lojas faturaram 185 milhões de reais em 2025. Para este ano, a expectativa é de que a receita suba 10%, puxada pelos shows e pela revitalização do centro. Todos os dias, 15.000 pessoas passam por ali. Nos fins de semana, o número salta para 25.000.

Chegar até aqui não foi simples. Além da mudança no consumo de música, a Galeria enfrentou a degradação do centro.

"Mais de 40% do público, na década passada, deixou de vir para a galeria por medo de insegurança", afirma Marcone Moraes, filho do síndico Toninho e vice-presidente do Instituto Cultural Galeria do Rock.

Alguns lojistas não sobreviveram. "Quem ficou, sobreviveu se endividando", diz.

A retomada da segurança nos últimos tem feito a circulação de pessoas por ali aumentar. Mas teve mais uma estratégia adotada por Marcone e seu pai.

A Galeria abre ao meio-dia e fecha às 19h. Nos sábados, depois das 14h, o movimento sumia. O terraço do prédio, um espaço amplo no alto da Galeria, ficava ocioso. Foi ali que a gestão decidiu apostar.

A ideia foi transformar o sábado à tarde em programa de família. "O pai vai assistir a uma banda que gosta, mas vai poder trazer os filhos", diz Marcone.

Deu certo: hoje o terraço vende 300 ingressos todo sábado, e já foram mais de 200 shows, com duas a três bandas por fim de semana. Para chegar até lá, o público atravessa a galeria inteira, o que puxa o fluxo das lojas embaixo.

Rooftop da Galeria do Rock, no centro de São Paulo (Leandro Fonseca /Exame)

Com o terraço consolidado, o plano para os próximos anos é fisgar o turista que desembarca em São Paulo para os grandes shows internacionais. Em parceria com a marca de roupas licenciadas Consulado do Rock, a Galeria inaugurou uma loja de produtos oficiais de bandas, com a ideia de montar ativações completas, da experiência de compra nas lojas a shows no terraço antes do espetáculo principal.

Em shows grandes, a expectativa é receber até 30.000 pessoas.

Como é a aposta no novo público

A operação do terraço mudou o perfil de quem frequenta a Galeria. O público hoje se concentra na faixa de 35 a 55 anos, casais que vêm com os filhos.

"A família vem a passeio, almoçar, curtir o show. Não vem só para comprar", diz Marcone.

Para chegar ao terraço, é preciso atravessar a galeria inteira, o que aumenta o fluxo nas lojas. A venda de ingressos ilustra a curva: começou em 50, passou a 80, depois 110, até chegar aos 300 atuais.

Toninho chama o modelo de oceano azul, expressão de gestão para um mercado sem concorrência direta. "Não existe rock and roll à tarde. É um fato novo", diz.

O ambiente diurno também afasta a imagem que cercava o rock à noite. "Você vai à noite no espaço de rock, é o cabeludo bêbado. Aqui, é outro clima."

Qual é a aposta no centro

A retomada da Galeria depende de um fator fora do controle da gestão: a segurança do centro.

Marcone credita parte da virada ao investimento recente do governo do Estado e da prefeitura. "Se fôssemos fazer isso em 2017, 2018, quando a situação estava complicada, a estratégia não ia funcionar", afirma.

O centro também virou rota de turista.

"Isso aqui virou um grande hostel. Tem gente de todos os países", diz Marcone. Segundo ele, cada visitante puxa outros: "Cada pessoa que vem para o centro traz cinco. Porque ela fala, convida."

O tempo médio de permanência dos lojistas é de 15 anos, e há comerciantes no prédio desde 1993.

"São empresários resilientes há muito tempo", diz Marcone. Alguns começaram ali e cresceram, como as marcas Kings e Your ID.

Qual é a história da Galeria do Rock

A Galeria não nasceu ligada à música.

Inaugurada em 1963 como Centro Comercial Grandes Galerias, na esquina da avenida São João com a região da 24 de Maio, ela foi por anos o maior centro comercial da cidade, dominado pelo comércio têxtil, com mais de 100 alfaiates, além de lojas de serigrafia e salões de beleza.

Famosa arquitetura da Galeria do Rock, em São Paulo (Leandro Fonseca/Exame)

Com a chegada dos shoppings a São Paulo no fim dos anos 1960, os lojistas migraram para a zona sul e oeste, e o prédio ficou praticamente abandonado por cerca de cinco anos.

A vocação musical veio na década seguinte. Em 1976, o vocalista da banda Olho Seco, Fábio Sampaio, abriu ali a loja punk Wop Bop, e outras lojas de disco foram surgindo nos corredores.

O rock era o forte aliado da juventude paulistana, e o apelido pegou. Nos anos 1980, quando andar de skate em espaços públicos ainda era criminalizado, a Galeria abrigou a primeira loja de skate de São Paulo. Mas brigas generalizadas afastavam o público.

No início dos anos 1990, a situação era crítica. Apenas 50 lojas estavam ocupadas, as brigas eram comuns, havia pontos de venda de drogas e o prédio, deteriorado, tinha até uma ordem de interdição da prefeitura.

Foi nesse cenário que Antonio de Souza Neto, o Toninho, largou a loja de fotografia que mantinha e assumiu a administração, em 1993. Em vez de manter a proibição, ele fez o oposto: suspendeu a restrição às lojas de rock e passou a incentivar as manifestações underground que já ferviam nos corredores.

A aposta contrariava a lógica anterior, mas deu forma à identidade que o prédio carrega até hoje. Toninho investiu nas reformas elétrica e hidráulica exigidas pela prefeitura e pelo Corpo de Bombeiros e apostou na sensação de segurança como chave para trazer o público de volta — uma estratégia que voltaria a usar três décadas depois.

O prédio, com seis andares e arquitetura de linhas onduladas assinada pelo escritório Siffredi e Bardelli, abriga hoje cerca de 200 lojas.

Três décadas depois, o prédio segue fazendo o que sempre fez de melhor: manter o rock vivo enquanto conquista novas gerações.

AutorDaniel Giussani
FonteExame
Distribuído por