Como a Galinha Pintadinha foi de vídeo esquecido no YouTube a um filme de R$ 35 milhões
Criada em 2006 a partir de um vídeo publicado na internet, a personagem infantil chega ao cinema com uma produção milionária e novos planos de expansão

RESUMO +
A personagem infantil brasileira Galinha Pintadinha estreia seu primeiro filme nos cinemas nesta quinta-feira, 1º de outubro, com investimento de R$ 35 milhões e quase 500 profissionais envolvidos, segundo os criadores Marcos Luporini e Juliano Prado. O longa em computação gráfica levou cerca de cinco anos para ser desenvolvido. A marca soma 40,94 bilhões de visualizações na plataforma YouTube.
Foi para economizar que a Galinha Pintadinha foi parar no YouTube, em 2006, quando a plataforma ainda engatinhava no Brasil. Os criadores subiram o clipe apenas para enviar o link a uma reunião de negócios — era mais barato do que mandar o DVD por motoboy.
Depois, chegaram até a perguntar se poderiam apagar o vídeo e ouviram que sim. Por esquecimento, porém, o clipe permaneceu no ar. Seis meses depois, já tinha 500 mil visualizações.
"Foi o que chamamos de 'efeito borboleta'. Foi o acaso mesmo", diz Marcos Luporini, um dos criadores, em entrevista à EXAME.
Vinte anos depois, aquele vídeo que deveria servir apenas como material de apresentação deu origem a uma marca que agora chega a um novo estágio. Nesta quinta-feira, 1º de outubro, aGalinha Pintadinha estreia seu primeiro filme nos cinemas, uma produção de R$ 35 milhões que, segundo os criadores Marcos Luporini e Juliano Prado, é a maior animação brasileira já realizada.
Os dois contam que a personagem infantil brasileira conseguiu atravessar duas décadas de mudanças no consumo de mídia sem depender de uma única plataforma. Mais do que acompanhar a migração do DVD para o streaming e da televisão para o celular, a Galinha Pintadinha construiu um catálogo que "pode ser reaproveitado em diferentes formatos e uma marca que se tornou reconhecível para mais de uma geração."
Atualmente, a personagem soma mais de 65 milhões de inscritos em seus canais digitais e registra mais de 15 milhões de visualizações diárias em seus conteúdos. A soma total de visualizações chega a 40,94 bilhões no YouTube.
Do acaso ao primeiro modelo de negócio
A audiência veio sem que os criadores a procurassem. E quando o número de visualizações começou a crescer, Luporini e Prado perceberam que havia uma demanda que poderia ser transformada em negócio. A estratégia foi publicar alguns clipes gratuitamente no YouTube e direcionar parte desse público para uma loja, onde era possível comprar o DVD. O primeiro disco reunia 13 músicas.
“A personagem foi eleita por aclamação, porque tudo isso não era o nosso plano. Foi o público que se mostrou e falou: ‘Eu gosto muito dessa galinha, meu filho adora’. O público mostrou para a gente o que tinha ali”, afirma Luporini.

As vendas começaram pequenas: 1 mil, 2 mil, 5 mil, 10 mil unidades. Os comentários e pedidos dos consumidores funcionavam, na prática, como uma pesquisa de mercado. Os pais diziam quais músicas as crianças queriam ouvir e pediam novos vídeos.
O repertório inicial ajudou nesse processo. Em vez de criar todas as músicas do zero, Luporini e Prado recorreram ao cancioneiro popular brasileiro, com músicas que já faziam parte do repertório de diferentes gerações. A novidade estava menos nas canções do que na forma de distribuí-las e transformá-las em conteúdo audiovisual.
O modelo também permitiu que a personagem não ficasse restrita a um único produto. Segundo os criadores, o conteúdo gratuito atraía audiência; os DVDs transformavam parte dessa audiência em receita; e o reconhecimento da personagem abria espaço para novas formas de exploração comercial.
O salto de R$ 35 milhões para o cinema
Levar a Galinha Pintadinha para os cinemas levou cerca de cinco anos para ser desenvolvido e envolveu quase 500 profissionais, segundo os criadores. Com investimento de R$ 35 milhões, o filme foi produzido em computação gráfica e exigiu uma estrutura muito maior do que a produção de clipes para a internet.
A decisão também foi não simplesmente transformar os vídeos existentes em um filme. A equipe criou uma história inédita, novos personagens e um universo mais amplo, com cenários e relações que não apareciam nos clipes.
Até a protagonista passou por uma mudança: pela primeira vez, a Galinha Pintadinha fala no longa, em vez de se comunicar apenas por sons traduzidos por outros personagens.
"É um novo patamar para a Galinha. Para contar uma história no cinema, achamos muito necessário que ela falasse. Também tem a questão simbólica da liderança feminina e a própria trajetória da personagem dentro do filme. Prestamos muita atenção nisso: a Galinha é a nossa heroína", conta Juliano Prado.
Para os criadores, o filme precisava funcionar como uma experiência de cinema, e não apenas como uma extensão do YouTube.

"O mercado brasileiro de animação quer um marco que mostre que conseguimos criar algo com tração em todas as áreas: licenciamento, parques e produtos", diz Luporini. "Estamos acostumados a ver a Disney fazer isso, então ver um projeto nacional ter brinquedos nas lojas e atingir essa dimensão é uma grande vitória. Lutamos muito por isso."
Os primeiros sinais dessa expansão já aparecem. Segundo os criadores, há conversas para levar o filme a mercados como México, Portugal, Estados Unidos, França e outros países europeus, embora os planos ainda estejam em prospecção.
O próximo capítulo? Série
Para os próximos anos, a intenção é voltar a produzir músicas novas com maior frequência, sem abandonar o repertório já consolidado. Outro caminho considerado é desenvolver uma série com o visual do filme. Esse movimento, segundo os criadores, já desperta interesse de plataformas.
