Como a onda de calor e a seca na Europa se transformaram em uma crise energética
Um dos principais rios europeus enfrenta seca histórica que afeta energia nuclear e prejudica transporte fluvial em vários países europeus

Segundo maior rio da Europa, o Danúbio é um dos corpos fluviais mais importantes do continente. Ele atravessa dez países e, além de ser um corredor hidroviário relevante, é essencial para a geração de energia.
Com quase 3 mil quilômetros de extensão, o rio que nasce na Alemanha e desagua no Mar Negro atingiu um nível de baixa histórico devido a onda prolongada de calor e seca no continente europeu.
Pela primeira vez, devido à drástica queda no volume do rio, países como a Hungria e Romênia tiveram que desligar reatores nucleares que dependem do Danúbio para o resfriamento.
Seca e crise energética na Europa Oriental
A energia nuclear cobre aproximadamente um quarto da demanda energética da União Europeia. Para isso, isso grandes volumes de água são essenciais para o funcionamento das usinas.
Na Romênia, a vazão do rio caiu para 1.500 metros cúbicos por segundo, menos de um terço da média registrada em julho.
Diante da falta de expectativas de uma recuperação de curto prazo, o primeiro-ministro interino da Romênia, Ilie Bolojan, decretou na semana passada estado nacional de alerta no setor de energia.
As autoridades romenas já desligaram um dos dois reatores da única usina nuclear do país, responsável por gerar cerca de 20% da energia do território, segundo a Associação Mundial Nuclear.
Na Sérvia, o primeiro-ministro, Djuro Macut, convocou uma reunião de emergência sobre o setor energético. Com um nível recorde na baixa do Danúbio, a principal usina hidrelétrica do país está operando com apenas 20% da capacidade.
Em Budapeste, capital da Hungria, o nível do rio chegou a 10 centímetros na última segunda-feira (3), bem abaixo da mínima histórica anterior, registrada em 2018, de 33 centímetros.
A única usina do país, Paks, localizada a cerca de 90 quilômetros da capital e construída pela antiga União Soviética, foi desligada quase completamente pela primeira vez em 44 anos de funcionamento.
Até a manhã de segunda-feira, o primeiro-ministro afirmou que ainda havia uma última turbina em funcionamento. Mesmo assim, a usina operava com capacidade bastante reduzida, gerando apenas 240 megawatts, bem abaixo dos cerca de 2000 megawatts produzidos normalmente.
Tentativas de conter a crise
Os países afetados pela seca estão implementando algumas medidas para tentar conter o prejuízo.
Na última segunda-feira, as forças navais da Romênia promoveram uma explosão controlada com 180 quilos de explosivos para tentar redirecionar o fluxo da água do rio para uma usina.
Na Hungria, o país enfrenta uma forte onda de calor e seca, com um recorde histórico de 42ºC na última semana. Diante desse cenário, a tendência é de aumento no uso da água e eletricidade.
Apesar disso, na semana passada, o governo húngaro solicitou publicamente ao setor industrial para minimizar o consumo de energia.
Pediu também às famílias que economizassem água voluntariamente, a fim de preservar o abastecimento, especialmente nos horários de pico entre as 17h e as 22h.
O país também anunciou a pausa na circulação de trens de carga elétricos nos horários de maior movimento, com objeto de economizar 70 a 90 megawatts-hora de eletricidade por dia.
Complicações no transporte
O Danúbio é um dos rios mais internacionais do mundo. Ele passa por diversas capitais como Viena, Budapeste e Belgrado.
Segundo o The Wall Street Journal, a navegação comercial e turística tem sofrido impactos com a queda no nível das águas do rio.
Com menor profundidade, embarcações de carga passaram a operar com capacidade reduzida ou tiveram que ficar paradas. Na Hungria, cruzeiros turísticos foram cancelados e navios precisaram atracar em áreas distintas das usuais.
Já na Sérvia, uma quantidade considerável de navios cargueiros e pequenas embarcações ficaram encalhados próximos à cidade de Novi Sad, no norte do território.
Não é só o Danúbio
Não se trata apenas do Rio Danúbio. O Rio Reno, considerado o mais importante da Europa, também passa por uma seca. Uma das principais rotas de comércio do continente está com limitações de navegação.
Em certos trechos do rio na Alemanha, os níveis da água caíram tanto que as embarcações podem transportar apenas 20% a 30% da sua carga normal, para não correr risco de encalhar. Consequentemente, as tarifas de frete na região estão aumentando.
*Sob supervisão de Ricardo Gozzi
