Como a onda de empresas em recuperação impacta os retornos do crédito privado
Para CEO da Valora, valores em recuperação são pequenos em relação aos estoques de crédito e investidor não está pedindo mais prêmio

O noticiário sobre recuperações judiciais e extrajudiciais ganhou volume nos últimos meses, com casos como Casas Bahia, Braskem e Grupo Pão de Açúcar dominando as manchetes. Um olhar mais superficial sobre o tema sugere ser essa a deixa para investidores pedirem prêmios maiores no mercado de crédito privado. Mas não é isso o que uma das casas mais tradicionais do segmento têm percebido.
"Se você acompanhar os spreads, na verdade, continua fechando", afirma Daniel Pegorini, CEO e fundador da Valora. Segundo ele, os papéis triple A caíram cerca de 0,8 ponto percentual no intervalo do último mês. "Esse mercado não está abrindo taxa por causa dos programas de recuperação de crédito". Boa parte dos casos em evidência, argumenta, são situações conhecidas há mais de um ano. "Se você pegar Braskem, Pão de Açúcar, Casas Bahia, esses casos estão rolando já há mais de um ano. Óbvio que sempre tem uma novidade, mas são poucas."
Os pedidos de recuperação extrajudicial já somam R$ 174,5 bilhões em dívidas em 2026, segundo levantamento do OBRE (Observatório Brasileiro de Recuperação Extrajudicial) . Foram 45 casos no ano, movimento impulsionado principalmente pelas reestruturações da Raízen e da Braskem, as duas maiores já registradas no país. Na avaliação de Pegorini, o número não é desprezível, mas é pequeno do tamanho total do mercado de crédito. "Quanto é de estoque? 2%", resume.
No pior cenário aritmético, o retorno do crédito privado recuaria apenas para perto do que paga o título público, sem o colapso que o volume absoluto de R$ 174 bilhões parece sugerir à primeira vista.
O problema é concentração, não o crédito
Para Pegorini, a percepção de crise tem origem menos no crédito em si e mais em como esses papéis foram distribuídos. Quando os fundos exclusivos deixaram de ter o tratamento tributário antigo, parte do dinheiro migrou para carteiras administradas de pessoa física em busca de papéis isentos. Nomes grandes e conhecidos como Braskem, Pão de Açúcar e Raízen acabaram muito concentrados nessas carteiras individuais. "Os nomes saltaram aos olhos", diz.
O contraste com o fundo de crédito privado aberto é o cerne do argumento. "Me fala uma pessoa física que tem uma carteira de 500 mil reais que tenha 170 posições de crédito", provoca, citando um dos fundos da casa. O investidor individual, diz ele, costuma carregar 20 nomes no máximo, com papéis representando 5% a 10% da carteira. Na renda fixa, uma posição desse tamanho que vira problema não se recupera.
Fundos absorvem o recuo do papel direto
Sobre o rumo dos juros, em um cenário no qual o Banco Central encontra dificuldades para fazer reduções mais relevantes na Selic, Pegorini diz que o trabalho do gestor é entregar o spread sobre o CDI, não apostar em alta ou queda da taxa. "Eu não estou apostando na queda dos juros ou na alta. Eu estou apostando em crédito", diz. O foco recai sobre duration (prazo médio para resgate do investimento), a relação entre prêmio e inadimplência do título, alavancagem e capacidade de sobrevivência das empresas.
"A pior coisa que pode acontecer para um gestor de crédito é ele criar amor pelas suas previsões."
Nos FIDCs, veículo em que a Valora atua desde a fundação e onde Pegorini estima carregar cerca de R$ 18 bilhões de reais em ativos, o diagnóstico é de crescimento com espaço para avançar.
Um cenário em que a Selic elevada por mais tempo tende a favorecer esses fundos, afirma. Para o investidor pessoa física, a recomendação é acessar a classe por meio de gestores, e não montar posição direta, já que os bons fundos são vendidos em lotes de bilhões e uma aplicação individual dificilmente captura as melhores estruturas.
Questionado sobre risco sistêmico, Pegorini descarta o cenário. "O problema sistêmico de crédito, a gente teve em 2008. Hoje em dia não é sistêmico", afirma, ao se definir como cauteloso, mas não preocupado.
