Como a Renner se prepara para enfrentar juros altos e concorrência estrangeira
Fabio Faccio diz não ver ainda clareza sobre os rumos da política fiscal e econômica após as eleições, em outubro

RESUMO +
A varejista de moda Renner (LREN3) projeta que 2027 será tão desafiador quanto 2026, diante do crescimento econômico mais fraco, da inflação persistente e dos juros altos. No terceiro trimestre de 2026, a receita líquida do varejo caiu 1,6%, mas a margem Ebitda avançou. A empresa retirou as projeções de crescimento da receita até 2030.
A Renner (LREN3) projeta que o próximo ano será tão desafiador quanto 2026 para o varejo de moda, diante da perspectiva de crescimento mais fraco da economia, inflação persistente e juros elevados. A avaliação é do presidente da varejista, Fabio Faccio, que afirma que a empresa já considera esse cenário em seu planejamento, mas ainda não pretende antecipar mudanças mais profundas na estratégia. A falta de visibilidade sobre os rumos da política fiscal e econômica após as eleições presidenciais, em outubro, segundo o CEO, impede projeções mais definitivas.
"Temos visto uma redução nas projeções de crescimento do PIB para 2026 e 2027, um aumento da inflação e a manutenção das taxas de juros em níveis mais elevados. Por essas projeções, temos uma visibilidade de que 2027 também deve ser tão desafiador quanto 2026. Mas ainda é muito cedo para afirmar alguma coisa", disse Faccio em entrevista à EXAME, acompanhado do diretor financeiro (CFO), Daniel Martins.
A cautela da administração vem em um momento em que a varejista enfrenta dificuldades para recuperar o ritmo de vendas. No terceiro trimestre de 2026,a receita líquida do negócio de varejo caiu 1,6%, para R$ 3,029 bilhões, enquanto as vendas em mesmas lojas recuaram 2,5% na comparação anual. Na categoria de vestuário, principal operação da companhia, a retração foi de 0,7% na receita e de 1,8% nas vendas em mesmas lojas.
Faccio reconheceu que o desempenho ficou abaixo tanto das expectativas da companhia quanto das projeções do mercado. Segundo o CEO, julho foi o mês mais fraco do trimestre, enquanto setembro apresentou a melhor evolução. A recuperação, porém, não foi suficiente para compensar o início mais difícil do período.
O executivo atribuiu a desaceleração a uma combinação de fatores. Entre eles estão os juros elevados por um período prolongado, a inflação acumulada, o aumento do endividamento das famílias e a concorrência mais intensa com plataformas internacionais.
O Imposto de Importação de 20% sobre compras internacionais de até US$ 50, conhecida como "taxa das blusinhas", foi extinto após o Congresso Nacional aprovar a Medida Provisória, convertida em lei em setembro de 2026, zerando a alíquota federal.
"Temos fatores como juros altos por muito tempo, inflação crescendo e endividamento das famílias crescendo — tudo isso pressiona o consumidor. Ao mesmo tempo, um ambiente concorrencial com plataformas internacionais tornou a concorrência mais difícil".
Para responder a esse cenário, a Renner começou a rever o sortimento e a estrutura de preços, especialmente na faixa de entrada dos produtos. A ideia é oferecer opções mais competitivas sem abrir mão da qualidade e da proposta de valor da marca. A companhia também pretende intensificar as promoções nos próximos meses, em particular durante aBlack Friday neste mês de novembro.Rentabilidade compensa vendas mais fracas
Apesar da retração da receita,a Renner conseguiu entregar resultados de rentabilidade acima das expectativas dos analistas. O lucro líquido ajustado caiu 24,5%, para R$ 187,1 milhões, mas o resultado contábil, de R$ 246,4 milhões, ficou acima da projeção média de R$ 199 milhões compilada pela LSEG.
No negócio de varejo, o Ebitda ajustado avançou 3,2%, para R$ 530,3 milhões, enquanto a margem Ebitda subiu 0,8 ponto percentual, para 17,5%. A margem bruta de varejo atingiu 55,5%, alta de 0,4 ponto percentual e recorde para um terceiro trimestre.
Segundo Faccio, a companhia conseguiu compensar parte da pressão sobre as vendas com uma gestão mais eficiente de estoques, promoções e despesas operacionais. Os gastos de varejo, considerando os efeitos do IFRS 16, recuaram 1,1%, para R$ 1,195 bilhão, mesmo em um período de inflação e expansão da área de vendas.
"Mesmo com uma venda muito abaixo do que prevíamos, conseguimos fazer uma excelente gestão de estoques. Mesmo em um ambiente mais competitivo, que demandou algumas promoções a mais, conseguimos gerir bem o estoque, as promoções e ter uma margem bruta que foi mais uma vez recorde", afirmou o CEO.
O desempenho operacional também se refletiu na posição financeira. A companhia encerrou setembro com R$ 2,02 bilhões em caixa e aplicações financeiras, diante de uma dívida bruta de R$ 847,1 milhões. O caixa líquido somou R$ 1,17 bilhão.
De acordo com Martins, a capacidade de geração de caixa e a disciplina operacional permitem à Renner atravessar um ambiente mais difícil sem comprometer os investimentos. Nos primeiros nove meses do ano, a companhia distribuiu R$ 1,2 bilhão aos acionistas, entre R$ 700 milhões em juros sobre capital próprio e R$ 500 milhões em recompra de ações.
Renner retira projeções de crescimento da receita
Mas a maior incerteza sobre o ambiente econômico e competitivo também levou a companhia a abandonar suas projeções de crescimento da receita líquida para 2026 e para o período de 2027 a 2030. A decisão representa um novo passo em relação à revisão feita no segundo trimestre, quandoa Renner já havia reduzido sua estimativa de crescimento da receita de varejo em 2026, de uma faixa entre 9% e 13% para outra entre 4% e 8%.Agora, a empresa optou por descontinuar o indicador, sem estabelecer uma nova faixa de crescimento. Segundo Faccio, a medida não representa uma mudança na estratégia ou uma perda de confiança na capacidade operacional do negócio, mas uma decisão de prudência diante da dificuldade de estimar o comportamento da receita nos próximos anos.
"Se projetarmos alguma coisa para os nossos acionistas, precisamos ter um elevado nível de confiabilidade nessas projeções. Nesse momento, quando olhamos as premissas do final de 2025 e comparamos com agora, elas são totalmente diferentes. Pela falta de visibilidade, entendemos que é muito mais prudente não dar uma projeção sobre o crescimento de receita", disse.
A retirada do guidance não altera, segundo o executivo, os demais compromissos de longo prazo da companhia. Nesse sentido, permanecem as projeções relacionadas à expansão da margem, à participação dos produtos financeiros, aos investimentos, ao número de lojas e à distribuição de lucros até 2030.
A administração também mantém o plano de expansão física. A Renner já abriu 30 lojas em 2026 e espera encerrar o ano com 50 a 60 inaugurações, apontando maior probalidade de estar mais próxima do limite superior da faixa. O potencial de expansão até 2030 também permanece inalterado, embora o ritmo anual de abertura de unidades seja definido no início de cada exercício, de acordo com as condições econômicas.
Black Friday mais promocional
No curto prazo, a principal aposta para recuperar o fluxo de clientes está na combinação de preços mais competitivos e promoções. Faccio afirmou que novembro será um mês mais promocional para a Renner, em linha com aestratégia de Black Friday, mas que a empresa pretende financiar parte dos descontos com ganhos de eficiência operacional.
"No mês de novembro, estamos sendo mais promocionais. Estamos usando parte do ganho de eficiência do nosso modelo para conseguir fazer isso sem ferir demais a nossa margem bruta", afirmou.
A companhia espera que a margem bruta do quarto trimestre fique próxima à registrada no mesmo período do ano passado, sem repetir necessariamente a expansão observada entre julho e setembro. A expectativa é que dezembro ofereça condições melhores de rentabilidade, com a chegada das coleções de alto verão e de produtos voltados às compras de fim de ano.
A Renner também afirmou que não consegue dimensionar o efeito daproibição das apostas esportivas, as bets, sobre o consumo. A medida entrou em vigor em 25 de setembro, mas outubro foi considerado um mês atípico pela administração, devido aos dois finais de semana de eleições e às manifestações realizadas pelo país, que alteraram o fluxo de consumidores.
No segundo trimestre, a companhia havia apontado queas bets, o streaming e a Copa do Mundo contribuíram para reduzir a circulação de clientes nas lojas físicas. Agora, segundo Faccio, ainda não há dados suficientes para afirmar que a restrição às apostas já tenha produzido algum efeito positivo sobre o consumo.
"É muito difícil estimar ainda, principalmente porque outubro é um mês muito atípico. Tivemos eleições em dois finais de semana, o que muda o fluxo bastante, e manifestações pelo país. Outubro tira um pouco da visibilidade de qualquer tendência, mas o trimestre depende muito mais de novembro e dezembro", afirmou.
O fim da escala 6x1
Outro desafio no horizonte é a adaptação à mudança na jornada de trabalho do varejo. Questionado sobre os efeitos do fim da escala 6x1, o CFO da companhia afirmou que a Renner pretende recorrer aos investimentos em tecnologia e à reorganização das equipes para absorver parte dos custos da transição.
Atualmente, 75% das lojas já contam com caixas de autoatendimento. A empresa pretende ampliar a utilização desses equipamentos e avaliar sua instalação nas unidades que ainda não dispõem da tecnologia. Também considera aumentar a participação de trabalhadores intermitentes no quadro das lojas, modalidade que permite ajustar a quantidade de funcionários aos horários de maior movimento.
O objetivo, segundo Martins, é evitar que a mudança provoque aumentos de preços ou comprometa a rentabilidade."Também vamos buscar maior eficiência na distribuição dos funcionários ao longo do horário de funcionamento das lojas. Todo o varejo terá o desafio de se adaptar a essa mudança sem precisar repassar custos aos preços. Para isso, será necessário investir em tecnologia e eficiência operacional, de modo a absorver o máximo possível dos impactos sem comprometer a rentabilidade", disse Martins.
Na avaliação dos executivos, o desafio da Renner continua sendo conciliar a retomada do crescimento com a expansão das margens, de modo a ampliar a participação de mercado e as vendas sem comprometer a rentabilidade e a capacidade de investir.
