Como a Rússia dribla sanções do Ocidente com ajuda da China para manter sua guerra
Estudo aponta que Moscou substitui componentes ocidentais por alternativas chinesas e reorganiza suas cadeias de suprimentos, mantendo a produção militar apesar das restrições

Em maio de 2026, o comissário de sanções da Ucrânia, Vladyslav Vlasiuk, apontou a substituição de componentes ocidentais por alternativas chinesas em mísseis e drones russos como um sinal de que as restrições comerciais estavam funcionando.
Na mesma ocasião, porém, reconheceu que o uso dessas armas pela Rússia havia aumentado em relação ao ano anterior.
Em estudo publicado pelo think tank Center for Strategic and International Studies (CSIS), centro de estudos dos Estados Unidos, pesquisadores alertam que as sanções podem perder eficácia à medida que empresas e governos demoram a acompanhar as adaptações da Rússia.
Esse processo, denominado sanctions decay, ou desgaste das sanções, ocorre quando novas empresas, fornecedores e rotas comerciais reduzem o impacto prático das restrições, mesmo que estas permaneçam formalmente em vigor.
Com isso, Moscou é capaz de contornar grande parte das sanções e custear seu esforço de guerra, apesar das severas restrições comerciais impostas ao país.
O fenômeno depende, em parte, da chamada elasticidade de substituição: a facilidade com que um país consegue substituir produtos, fornecedores ou rotas de abastecimento por alternativas disponíveis.
Se a substituição for rápida, barata e preservar o desempenho dos equipamentos, o efeito das sanções tende a ser limitado. Se exigem adaptações técnicas demoradas, elevam custos ou prejudicam a confiabilidade dos sistemas, as restrições podem continuar a impor obstáculos relevantes.
Contornando sanções
Presidente russo, Vladimir Putin, e seu homólogo chinês, Xi Jinping, aproveitam laços proveitosos mesmo em meio à controvérsia guerra na Ucrânia (Sergei BOBYLYOV/POOL/AFP/Sputnik )
Dados do KSE Institute, centro de pesquisas ligado à Kyiv School of Economics, ilustram essa dinâmica. Desde 2022, os controles de exportação reduziram em mais da metade o valor das importações russas de bens prioritários para a produção militar, incluindo componentes e equipamentos industriais.
Ao mesmo tempo, a China passou a responder por cerca de 75% das exportações desses produtos para a Rússia. Em 2025, segundo o instituto, Moscou pagava um prêmio de cerca de 300% por determinados bens adquiridos da China.
Os números mostram que as sanções elevaram os custos de abastecimento, mas não permitem concluir, isoladamente, que tenham reduzido a capacidade militar russa. A Rússia pode continuar obtendo os produtos de que necessita, embora a preços mais altos, de fornecedores diferentes e por meio de redes comerciais mais complexas.
Para medir o impacto real das restrições, é necessário verificar se elas provocaram atrasos, limitaram a escala de produção ou prejudicaram o desempenho dos armamentos.
A substituição também não representa uma substituição completa da tecnologia ocidental pela chinesa. A análise de equipamentos recuperados na Ucrânia identificou, por exemplo, componentes chineses e americanos em um mesmo modelo de drone russo, o Geran-4. E
stoques antigos, produtos recém-adquiridos e alternativas de diferentes origens podem coexistir na mesma plataforma, tornando insuficiente avaliar a eficácia das sanções apenas com base na nacionalidade das peças.
O papel da China nessa dinâmica assume três formas principais: intermediários que ajudam a redirecionar produtos ocidentais para a Rússia; fabricantes chineses que fornecem substitutos próprios; e empresas que contribuem para a integração de tecnologias ou para o desenvolvimento de sistemas militares. Cada situação exige uma resposta diferente.
Quando um intermediário revende tecnologia ocidental, ainda é possível rastrear o fabricante e reconstruir as transações; quando um produto chinês substitui o original, todavia, parte desses registros deixa de ser útil. Já quando empresas chinesas participam da produção de sistemas completos, o desafio vai além do simples desvio de componentes ocidentais.
A adaptação também pode ocorrer por meio de novas empresas e estruturas comerciais. O CSIS cita o caso da Avinex Global, registrada em Hong Kong e operando a partir de um endereço em Shenzhen associado à fabricante de semicondutores Avtex. A empresa foi constituída uma semana antes dos Estados Unidos incluírem a Avtex em uma lista de restrições comerciais.
Posteriormente, o Departamento do Tesouro dos EUA informou que a Avinex havia enviado milhares de remessas de microeletrônicos à Rússia, incluindo componentes importantes para armas de precisão.
O caso ilustra como uma restrição dirigida a uma empresa pode perder alcance quando outras entidades estão preparadas para manter o abastecimento.
Alternativas para o Ocidente
Coordenação econômica é tão importante para a Otan quanto poderio militar em campo (Saul Loeb/AFP)
Para enfrentar o problema, o CSIS defende que os governos opostos à Rússiadeixem de avaliar as restrições apenas pelo número de componentes ocidentais encontrados nas armas russas e passem a investigar as capacidades que esses componentes viabilizam.
No caso de um sistema de navegação, por exemplo, a questão central é saber se a Rússia consegue encontrar uma alternativa compatível, integrá-la ao equipamento e utilizá-la sem perda relevante de desempenho.
Esse tipo de avaliação requer comparar componentes de diferentes versões dos armamentos e identificar quando ocorreram as substituições, quanto custaram e se exigiram mudanças de engenharia.
Também é necessário examinar dependências menos visíveis, como softwares, equipamentos industriais, materiais, testes, logística e integração de sistemas. Mesmo quando uma peça pode ser facilmente substituída, outras etapas da produção podem continuar a ser gargalos.
O estudo recomenda ainda que os Estados Unidos, a União Europeia, o Reino Unido e a Ucrânia compartilhem informações sobre fornecedores, empresas sucessoras e rotas de aquisição, além de monitorar sistematicamente os resultados das medidas adotadas.
O rastreamento de componentes recuperados em campo, combinado com dados comerciais, societários e logísticos, pode revelar redes de abastecimento que mereçam investigação antes que se consolidem como alternativas permanentes.
A conclusão do CSIS é que as sanções devem ser avaliadas pelo impacto sobre a capacidade militar russa, e não apenas pela origem dos componentes utilizados. A redução da presença de produtos ocidentais não comprova o sucesso das restrições, assim como a existência de substitutos chineses não implica necessariamente o seu fracasso.
O indicador decisivo é saber se as medidas tornam a produção de armamentos mais cara, mais lenta, menos confiável, mais difícil de ampliar ou mais vulnerável à fiscalização. Quando a adaptação russa supera a capacidade de resposta dos governos, as sanções permanecem em vigor, mas parte de sua eficácia prática se perde.
