Como a Sabesp ajudou esta construtora do Paraná a dobrar de tamanho e faturar R$ 560 milhões

Em 2023, a construtora paranaense Elevação tomou uma decisão que vai contra o manual da maioria das empresas de infraestrutura: em vez de alugar perfuratrizes e escavadeiras conforme a obra pedisse, comprou as próprias. Foram 90 milhões de reais em frota.
Três anos depois, a conta dessa aposta apareceu no balanço. A empresa dobrou de faturamento e fechou 2025 com 560 milhões de reais em receita.
A Elevação nasceu em Curitiba há 50 anos, instalando cabos de fibra ótica. Foi dela a primeira ligação de fibra entre São Paulo e Rio de Janeiro. Hoje a telefonia ficou para trás e a empresa se concentra em duas frentes: saneamento e óleo e gás. O crescimento recente, porém, tem um nome por trás: a Sabesp, cliente da construtora há mais de 25 anos.
A privatização da companhia paulista, em meados de 2024, mudou o tamanho do jogo. A Sabesp anunciou um plano de investimento de70 bilhões de reais para os próximos anos, e a Elevação entrou fundo nessa fila. São cinco negócios com a estatal hoje, entre consórcios, obra própria e um modelo de aluguel de ativos.
O maior deles é o retrofit da estação de tratamento de esgoto de Barueri — um contrato de 1,4 bilhão de reais que a empresa toca em consórcio. "A grande mudança de jogo nessa questão sem dúvida alguma foi a privatização da Sabesp", diz Eduardo Feldmann, CFO da Elevação.
Para os próximos cinco anos, a empresa não vê motivo para desacelerar. A aposta é que saneamento e óleo e gás sustentem o crescimento sozinhos — e há mais movimento no radar, como a possível privatização da Copasa, a estatal de saneamento de Minas Gerais.
Qual é a história da Elevação
A história da Elevação começou com o engenheiro José Antônio da Fontoura, então diretor da antiga Telepar — a estatal de telecomunicações do Paraná, anterior às privatizações do setor. Foi ele quem fundou a construtora, que deu os primeiros passos instalando cabos de fibra ótica. A obra que ligou São Paulo ao Rio de Janeiro saiu dali.
Com o tempo, a empresa migrou para saneamento e óleo e gás, e deixou a telefonia de lado, embora ainda carregue o acervo técnico da área. Hoje as duas verticais funcionam em revezamento: quando uma desacelera, a outra puxa o crescimento.
Há dois ou três anos, era o óleo e gás que estava mais forte. Agora é a vez do saneamento.
Há cerca de oito anos, a morte do fundador acelerou a passagem do comando para a segunda geração. Hoje os controladores são três irmãos — Marco, Andrea e Ana Fontoura. Marco, engenheiro civil com mais de 20 anos de casa, assumiu a presidência depois de passar por todas as áreas. "Ele desde pisou no barro até a diretoria", diz Feldmann.
A empresa prepara agora a criação de um conselho de família.
Eduardo Feldmann, CFO da Elevação: "A grande mudança de jogo nessa questão sem dúvida alguma foi a privatização da Sabesp" (Construtora Elevação/Divulgação)
A aposta que evitou o gargalo
Foi por volta de 2023 que a Elevação identificou na vertical de saneamento um potencial de crescimento que ainda não tinha explorado.
A partir daí, começou a se preparar — e não só na ponta da obra. Entraram profissionais de mercado, a área de TI foi reforçada e o RH deixou de ser um departamento pessoal de empresa pequena para virar uma estrutura de atração de talentos.
Mas o movimento mais decisivo foi outro. Em vez de depender do aluguel de equipamentos pesados, principalmente perfuratrizes e escavadeiras, a empresa investiu 90 milhões de reais em frota própria.
A decisão antecipou um problema que hoje trava boa parte do setor: a escassez de máquinas em um mercado de infraestrutura aquecido, com obras demais disputando os mesmos recursos.
O resultado é um modelo de baixa alavancagem, termo que o mercado usa para o nível de endividamento de uma empresa. A Elevação fechou o ciclo com dívida líquida de 26 milhões de reais, menos de 5% da receita. Em um setor onde crescer rápido costuma significar se endividar, o número destoa.
Como são os negócios com a Sabesp
A relação com a Sabesp é antiga — mais de 25 anos —, mas mudou de patamar com a privatização.
Hoje são cinco negócios com a companhia. A Elevação participa de dois consórcios, toca uma obra sozinha e mantém um modelo menos óbvio: junto com outros sócios, construiu ativos e os aluga para a estatal. São dois investimentos nesse formato de aluguel.
A obra que a empresa toca sozinha é a estação de tratamento de esgoto de Ilhabela, 100% Elevação.
Mas o contrato de maior porte é Barueri, tocado em consórcio. A estação faz parte do projeto Integra Tietê, voltado à recuperação do Rio Tietê, e trata o esgoto de cerca de 11 milhões de paulistanos. Pela descrição de Feldmann, é a maior obra de saneamento da América Latina.
A primeira fase, o retrofit, é um contrato de 1,4 bilhão de reais, com término previsto para 2027.
As fases dois e três ainda estão em negociação pela Sabesp. "Simplesmente é um capex de outro mundo", diz Feldmann sobre o tamanho do projeto. Capex é o termo para o investimento em bens de capital, como obras e equipamentos.
A receita da Elevação dobrou nesse período, levando a empresa a 560 milhões de reais em 2025 e à 8ª posição no Ranking da Engenharia Brasileira.
Mas a construtora não cresceu apenas na sombra da Sabesp. Um exemplo está no óleo e gás: a primeira obra para um cliente do setor saiu em 2023 e, dali em diante, vieram mais duas.
Somados, os três contratos chegam a cerca de 800 milhões de reais. O segredo, nesse caso, é encadear as obras: aproveitar o pessoal de uma quando a anterior está terminando.
Mão de obra é o nó
O setor de infraestrutura está aquecido, e isso tem um custo.
"Existem várias obras, muitas obras, então o mercado está demandante", diz Feldmann. A disputa por gente qualificada é o principal gargalo.
A empresa tem contornado isso de duas formas. A primeira é a continuidade das obras, que evita demitir e recontratar a cada novo contrato.
A segunda é formar a própria mão de obra: numa obra de óleo e gás no interior do Maranhão, a Elevação ajudou a criar, junto com Sesi e Senai, uma escola para preparar soldadores, pedreiros e outros profissionais — que depois seguem qualificados para novos canteiros.
O que vem pela frente
A aposta da Elevação é que saneamento e óleo e gás sustentem o crescimento pelos próximos cinco anos sem grande margem de erro.
No saneamento, o próximo movimento que a empresa acompanha de perto é a possível privatização da Copasa, em Minas Gerais. No óleo e gás, há obras em andamento na NTS, na Gasmig e na Bahiagás, empresas que precisam investir para cumprir contratos de concessão.
Fora dessas duas frentes, a construtora estuda outros caminhos com mais cautela. Já analisou entrar como sócia em uma PPP — parceria público-privada — e avaliou obras de transmissão de energia, mas optou por não avançar nos dois casos.
"Sempre atentos", resume Feldmann sobre o apetite por novos negócios. O acervo técnico, diz ele, permite encarar esses outros trabalhos quando a hora chegar.
