Como é trabalhar no Cirque du Soleil? Artista brasileira conta rotina, riscos e vida em turnê
Trapezista de voo do espetáculo “Alegría – In a New Light”, Patricia Kuwai revela estilo de vida circense (e que ninguém vê por trás do espetáculo)

Maior circo contemporâneo do mundo, o Cirque du Soleil já levou suas produções para mais de 430 milhões de espectadores em 86 países desde sua criação, em 1984. Por trás desse espetáculo, está também uma estrutura global de artistas. Hoje, o Cirque reúne cerca de 900 profissionais circenses de mais de 80 nacionalidades nos palcos ao redor do mundo. Entre eles, está a brasileira Patricia Kuwai, paulistana e trapezista de voo de Alegría – In a New Light, atualmente em cartaz em São Paulo.
Aos 32 anos, Pati, como é chamada, construiu uma carreira que mistura algumas das características mais desejadas (e desafiadoras) de uma vida no entretenimento: viaja pelo mundo fazendo o que gosta, mas precisa manter o corpo pronto para performances o ano inteiro.
“Meu endereço oficial é São Paulo, mas eu moro onde o Cirque estiver”, conta em entrevista para o Seu Dinheiro Lifestyle. Atualmente, isso significa estar de volta à cidade onde tudo começou. Alegría está em cartaz no Parque Villa-Lobos até 8 de novembro, e depois segue para Curitiba, de 19 de novembro a 13 de dezembro, antes de chegar a Santiago, no Chile, em janeiro.
Da ginástica ao Cirque du Soleil: como Pati Kuwai transformou o circo em profissão
Pati começou a ginástica olímpica aos quatro anos e competiu até os 14 ou 15. Na época do ensino médio, porém, conciliar estudo e esporte ficou pesado demais. Assim, ela deixou a ginástica, sem imaginar que, alguns anos depois, aquela formação seria a base de uma carreira internacional.
O circo apareceu somente aos 21 anos — e sem qualquer pretensão profissional.
“Comecei fazendo aula em escola de circo como como hobby, para mexer o meu corpo. Até que fiz uma aula de trapézio de voos, que é o que faço atualmente, e me apaixonei”, conta Pati Kuwai.
A memória muscular da ginástica ajudou. De acordo com a atleta, o aprendizado foi rápido, e pouco a pouco, as aulas se tornaram apresentações.
“As oportunidades foram aparecendo. Comecei fazendo shows com a escola, depois apareceu um contrato na França. E meu primeiro contato com o Cirque du Soleil foi num show fixo que eles tinham na Disney. Entrei pelo casting: mandei meus vídeos, me inscrevi e eles me chamaram”, explica.
A rotina de uma artista circense do Cirque du Soleil
Com apresentações de quarta a domingo, a rotina de Pati pode chegar a dez sessões em uma única semana. Em alguns dias, como aos sábados, são duas ou até três apresentações.
Pelas regras do Cirque du Soleil, os artistas precisam estar no local pelo menos uma hora e meia antes do início da sessão. Pati, porém, prefere chegar ainda mais cedo. “Gosto de almoçar e comer tranquila. Reservo pelo menos 50 minutos para me maquiar com calma, porque é o meu momento de preparação para entrar no mood do show. Gosto de tomar meu tempo, escutando música ou podcast”, revela a artista.
Como o trapézio de voo é o último número de Alegría, ela passa praticamente todo o espetáculo se preparando para entrar em cena. É nesse período que aquece o corpo e se concentra para a performance. “No fim, passamos o dia inteiro se preparando para aquelas duas horas de show.”
Fora do palco, o trabalho continua
Mesmo com um ensaio semanal do número, Pati mantém uma rotina paralela de condicionamento para que o corpo suporte a sequência de sessões. Entre os compromissos estão treinos de força, alongamento, pilates e fisioterapia.
“Treinamos por fora para conseguir manter o nível”, explica. Para ela, estar pronta fisicamente é parte do próprio trabalho, até mesmo durante o seu período de férias. “Temos a pressão de entregar o nível esperado e estar sempre pronto para a performance. O corpo tem que estar preparado”.
Esse preparo também ajuda a lidar com uma característica incontornável do trapézio: o risco.
“Tenho muito respeito pelo trapézio e pelos perigos que ele envolve. Fazemos tudo o que podemos para minimizar os riscos, mas eles existem. Ao mesmo tempo, foram muitos anos de treino até chegar aqui, então tenho confiança no que sei fazer.”
O frio na barriga, porém, não desaparece. O que muda, segundo Pati, é a relação com ele. “Quando estou lá em cima, me sinto muito à vontade. Ainda mais agora, depois de dois anos participando da dinâmica do número”, conta.
A vida em turnê
Antes de chegar à América do Sul, a brasileira passou cerca de dois anos em turnê com Alegría pela Europa. A temporada começou em Barcelona e depois seguiu por diferentes países do continente.
“Juntou dois universos perfeitos para mim: fazer o que amo e poder viajar. Sou muito privilegiada do meu trabalho me levar a lugares que nunca pensei em ir”, diz Pati Kuwai ao Seu Dinheiro Lifestyle.
Alegría acompanha um reino que perdeu seu rei e vive uma disputa entre uma antiga ordem e personagens que buscam renovação, e é uma das produções mais simbólicas da história do Cirque du Soleil.
O espetáculo original estreou em 1994 e permaneceu em turnê até 2013, período em que foi visto por mais de 14 milhões de pessoas em 255 cidades e 40 países. Em 2019, para celebrar seus 25 anos, voltou reimaginado como Alegría – In A New Light.
