Como é treinar na academia mais cara do Brasil, onde a mensalidade chega a R$ 5.400
SIX Wowness Club investe cerca de R$ 20 milhões em cada endereço, limita as unidades a cerca de 500 a 600 membros e pretende terminar 2026 com sete academias

Treinar durante um mês na unidade da Vila Nova Conceição, em São Paulo, da SIX Wowness Club pode custar R$ 5.400. É a modalidade mais cara oferecida atualmente pela rede de academiasfundada pelo arquiteto Eilson Studart e pelo médico Leandro Vaz.
O preço dá acesso a aparelhos de musculação e aulas coletivas, mas boa parte da conta está fora daquilo que normalmente se espera de uma academia.
Há valet, concierge, salão de beleza, sauna, crioterapia, espaços de recuperação muscular, snacks, suplementos e serviço de rouparia. Em algumas unidades, o aluno também encontra quadras de beach tennis, brunch aos finais de semana e DJs.
A estratégia é cobrar mais de um grupo menor de clientes. Cada academia tem capacidade para cerca de 500 a 600 membros e emprega aproximadamente 70 pessoas. Em horários de pico, a empresa afirma trabalhar com um professor para cada três alunos.
Agora, os fundadores querem provar que esse modelo pode ganhar escala. A SIX tem cinco unidades abertas e deve inaugurar outras duas, em Alphaville, na Grande São Paulo, e Belo Horizonte, até o final do ano. Com elas, chegará a sete operações cerca de dois anos depois da primeira academia.
A projeção atualizada da empresa é alcançar R$ 120 milhões em faturamento em 2026, considerando o potencial de receita das novas unidades. Em 2025, teve receita de R$ 24 milhões.
“Com essas duas lojas novas, seria R$ 120 milhões, com as lojas que abrem agora em outubro e novembro, quando a gente projeta o faturamento”, diz Vaz.
O que faz uma mensalidade chegar a R$ 5.400
Os preços mudam conforme a unidade e o tempo de permanência. O contrato mais curto é também o mais caro. Segundo Vaz, a mensalidade avulsa na Vila Nova Conceição chega a R$ 5.400. No plano de 15 meses, a mesma unidade cobra cerca de R$ 3.900 por mês. No Lago Sul, em Brasília, o valor fica próximo de R$ 3.000.
Já o plano semestral de Alphaville aparece por seis parcelas de R$ 3.900, além de uma taxa de adesão de R$ 600. Há outras modalidades que encarecem ou barateiam os custos para o cliente.
Vaz afirma que os valores sobem conforme a pré-venda avança. As novas unidades chegaram a vender contratos de 15 meses a partir de R$ 2.200 e a expectativa é que o preço fique em torno de R$ 2.700 na inauguração. Perfil do público e custo do imóvel também interferem na tabela.
Para os fundadores, a justificativa para a conta está no serviço.
“Se a gente quer fazer alguma coisa premium, não é equipamento. Equipamento é uma commodity. O nosso cliente pode comprar o melhor equipamento que tem. É serviço”, diz Vaz.
O modelo foi pensado para fazer o aluno passar mais tempo dentro da academia. Segundo os executivos, um membro permanece, em média, duas horas e meia por visita durante a semana. Aos finais de semana, o tempo sobe para três ou quatro horas. A frequência média fica entre quatro e cinco dias por semana.
Além dos equipamentos da linha de luxo da italiana Technogym, há pulseiras que registram exercícios e se conectam às máquinas, avaliações físicas e áreas dedicadas à recuperação. Studart afirma que a inspiração veio mais da hotelaria do que de concorrentes do setor fitness.
“A gente não foi visitar nenhuma academia porque a gente não era fã de nenhuma academia. A gente achava que o cara que era classe A tinha a casa dele maravilhosa, se hospedava em hotéis maravilhosos, andava de classe executiva, ia para restaurantes maravilhosos. Mas boa parte do tempo do dia dele, que era numa academia, era um serviço meia-boca”, diz Studart.
Na prática, isso significou colocar madeira e pedras naturais na arquitetura, aumentar os banheiros, separar áreas de sauna e recovery para homens e mulheres e incluir serviços como manicure, escovação e produtos para cabelo e pele. Há ainda aulas de bike, dança, calistenia, meditação e uma modalidade chamada Reset, voltada a relaxamento.
Eilson Studart e Leandro Vaz: fundadores da rede de academias de luxo que projeta faturamento de R$ 120 milhões em 2026 (SIX Wowness Life/Divulgação)
Como nasceu a rede
A ideia nasceu em 2024, depois que Studart deixou o negócio em que havia passado os 16 anos anteriores. Arquiteto formado pela Universidade Federal do Ceará, ele começou a carreira em 2006 trabalhando com projetos para clientes de alta renda. Dois anos depois, entrou em sociedade com o empresário Afrânio Barreira em um negócio de restaurantes que mais tarde se tornaria o Coco Bambu.
Studart afirma ter participado da implantação de 83 restaurantes, em uma operação que chegou a reunir 9 mil funcionários e unidades de Miami a Porto Alegre. Em 2024, vendeu sua participação e decidiu procurar um novo negócio.
Na época, morava em Brasília. O bairro em que morava ainda tinha pouca oferta de academias, e Studart tinha um imóvel comercial com uma loja vazia. Ele também enfrentava um problema de hérnia de disco, precisava emagrecer e dizia não gostar de frequentar academias.
Foi quando procurou Vaz. Médico com atuação em nutrologia, medicina esportiva e envelhecimento saudável, Vaz cresceu em uma família ligada ao Grupo Sabine trouxe para a sociedade a experiência com saúde e serviços.
A dupla começou a desenhar um espaço voltado justamente para um cliente que tinha condições de montar uma academia dentro de casa, mas que poderia pagar pela conveniência e pelo ambiente social de um clube.
O primeiro endereço abriu em Brasília. A segunda operação foi levada a São Paulo como um teste do modelo fora da capital federal.
“Desde o dia 1, a gente já falou: se for para fazer, não vamos fazer uma só. Vamos fazer algo que seja para expandir”, diz Vaz.
Desde então, a rede também mudou de nome. Até o começo desse ano, a empresa empresa se chamava SIX Sport Life. A marca passou a usar SIX Wowness Club, numa tentativa de ampliar o posicionamento de academia para um clube de bem-estar. Em fevereiro, a rede ainda projetava R$ 90 milhões em receita para 2026.
Quanto custa para abrir cada unidade
A primeira geração de unidades demandava cerca de R$ 15 milhões em investimento. Hoje, a conta passa dos R$ 20 milhões por endereço, considerando obras e equipamentos.
Parte do aumento veio da mudança para a linha mais cara da Technogym, importada da Itália, e da valorização do euro. Outra parte está na construção: a empresa diz utilizar pedras e madeira naturais e manter um padrão arquitetônico semelhante entre as unidades.
O custo também aparece na folha de pagamento. São cerca de 70 funcionários em cada academia, incluindo professores, limpeza, manutenção, concierge e recepção.
O número é alto para uma operação que limita sua base a 600 membros. A decisão é deliberada. Studart compara o modelo a academias de baixo custo, que podem matricular milhares de pessoas em espaços de tamanho parecido. Na SIX, a empresa diz trabalhar com um aluno matriculado para cada 1,5 metro quadrado.
A lógica é compensar a menor escala de clientes com receita maior por aluno.
Segundo Vaz, as primeiras academias faturam cerca de R$ 15 milhões por ano. Nas novas operações, a expectativa está entre R$ 20 milhões e R$ 22 milhões anuais.
A pré-venda ajuda a reduzir o risco da abertura. A empresa costuma vender cerca de um terço das vagas antes da inauguração e afirma que as unidades anteriores chegaram à capacidade entre quatro e seis meses depois de abertas.
“A gente normalmente preenche um terço das matrículas antes de abrir a academia. E depois, em até quatro a seis meses, a gente preenche todas as unidades”, diz Vaz.
SIX Wowness Club: mensalidades podem chegar a R$ 5.400 no plano mensal da unidade de Vila Nova Conceição, em São Paulo (SIX Wowness Club/Divulgação)
Como a SIX quer crescer mais
A SIX chegará ao final de 2026 com uma presença ainda concentrada em São Paulo e Brasília. Hoje são cinco academias em funcionamento. Alphaville deve abrir em outubro e Belo Horizonte, no bairro Belvedere, em novembro, levando a rede a sete endereços.
A operação de Belo Horizonte terá 2.000 metros quadrados, capacidade para 600 alunos e investimento de R$ 20 milhões. Além das áreas de treino, terá spa e espaço para aulas coletivas ao ar livre. Alphaville também recebeu cerca de R$ 20 milhões e terá capacidade para 600 alunos. A unidade ficará em um rooftop e terá 1.500 metros quadrados.
Para 2027, quatro contratos já foram assinados: Jardins, em São Paulo; Balneário Camboriú; Curitiba; e Ribeirão Preto. Os sócios negociam mais dois endereços. A meta passou a ser abrir cerca de seis academias por ano.
A escolha do ponto segue uma fórmula: encontrar o bairro de maior renda de uma grande cidade, de preferência em um imóvel de rua, e restringir a operação a algumas centenas de clientes.
“A gente acredita que todo melhor bairro de uma grande cidade comporta uma unidade da SIX”, diz Vaz.
Lojas de rua são a prioridade pela facilidade de acesso e visibilidade. Ribeirão Preto pode se tornar uma exceção: o endereço em negociação fica dentro de um shoppinge deve ser a primeira operação da rede nesse formato.
Além do interior paulista, a empresa diz olhar oportunidades no Sudeste e no Centro-Oeste, incluindo Mato Grosso e Goiás.
A expansão, porém, não está limitada às academias. A empresa criou a SIX Health, serviço vendido separadamente que reúne acompanhamento médico, nutrição, fisioterapia, psicologia e exames. A plataforma pode ser contratada inclusive por quem não frequenta as academias.
O programa anual Healthness custa R$ 75 mil sem medicamento e pode chegar a R$ 99 mil na modalidade que inclui tirzepatida, mediante indicação médica. O programa Intense, de três meses, custa R$ 21 mil ou R$ 26 mil, dependendo do pacote.
A ideia é aumentar o número de serviços vendidos ao mesmo público que já paga alguns milhares de reais por mês para treinar.
“O objetivo nosso é resolver todas as dores do cliente, que ele dentro do ecossistema consiga resolver tudo”, diz Vaz.
