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Future of MoneyCPTO
05/09/2026
5 min

Como ecossistemas digitais estão mudando as regras do crédito no Brasil

Para um ecossistema que o acompanha diariamente, o empreendedor é um dado com histórico, padrão e potencial mensurável

Como ecossistemas digitais estão mudando as regras do crédito no Brasil

Por Bruno Henriques*

Há uma pergunta que o sistema bancário tradicional raramente consegue responder com precisão sobre um pequeno empreendedor: ele é um bom pagador? Para responder isso, o banco pede documentos que muitos não têm, exige garantias que poucos podem oferecer e analisa um balanço que a maioria não produz. O resultado é conhecido: 88% das micro e pequenas empresas não buscam crédito em bancos quando precisam, segundo o Sebrae, porque sabem de antemão que serão recusadas.

Mas o comportamento de pagamento já existe e os ecossistemas digitais estão revertendo essas informações a favor de pequenos e médios estabelecimentos. Quando uma plataforma integrada ao dia a dia desse mesmo restaurante faz a mesma avaliação, ela já sabe quanto ele fatura por semana, como se comporta em períodos de alta demanda, se honra compromissos dentro do próprio ecossistema e o que os clientes dizem sobre ele. Essa diferença de perspectiva é o que define, hoje, quem acessa crédito no Brasil e quem continua invisível para o sistema financeiro.

O problema da invisibilidade financeira dos pequenos negócios não é novo, mas os números continuam expressivos. O Sebrae estima que 88% das micro e pequenas empresas não buscam crédito em instituições tradicionais quando precisam de financiamento, pois sabem antecipadamente que a resposta não será positiva. Sem balanços organizados, sem histórico bancário estruturado e sem garantias formais, o pequeno empreendedor raramente passa pelo crivo do modelo convencional. O IBGE aponta que 20% das empresas empregadoras fecham no primeiro ano e quase dois terços não chegam ao quinto.

A desorganização financeira e o acesso restrito ao capital estão entre os principais fatores que contribuem para esse cenário.

O que muda com a digitalização?

A digitalização dos pagamentos começou a alterar essa lógica. O Pix, as carteiras digitais e os pagamentos por aproximação criaram uma camada densa de dados transacionais sobre o comportamento real dos negócios. Cada venda registrada, cada ciclo de sazonalidade mapeado e cada recebimento liquidado passou a funcionar como substituto do balanço que o pequeno negócio não produz. Em vez de julgar o empreendedor pelo histórico que ele não documentou, tornou-se possível avaliá-lo pelo que ele faz todos os dias.

Mas há uma diferença relevante entre ter acesso a dados e saber interpretá-los com profundidade. É nesse ponto que os ecossistemas integrados apresentam uma vantagem estrutural que as instituições financeiras convencionais dificilmente conseguem replicar.

Quando uma plataforma opera no centro da cadeia de um negócio, ela acompanha mais do que números isolados. Acompanha padrão de comportamento. Sabe quais empreendedores mantêm volume consistente de vendas, quais reagem bem a períodos de alta demanda, quais têm avaliação positiva de clientes e quais honram seus compromissos dentro do próprio ambiente digital. Esses sinais, combinados e analisados ao longo do tempo, constroem um perfil de risco muito mais preciso do que qualquer ficha cadastral consegue refletir. O resultado é uma análise que aprova crédito com base em comportamento concreto, não em documentação que o pequeno negócio muitas vezes não tem condições de produzir.

Na prática, esse modelo já demonstra resultados. Fintechs conectadas a ecossistemas de negócios operam com taxas de inadimplência menores do que a média do mercado, mesmo atendendo empreendedores que nunca haviam acessado financiamento por vias convencionais. A explicação está na qualidade da informação disponível, não na seleção prévia de um perfil de cliente menos arriscado. O que muda é a capacidade de enxergar bons pagadores antes que o extrato bancário os reconheça.

Open Finance

O avanço do Open Finance aprofundou esse movimento. Os consentimentos ativos no sistema saltaram de 43 milhões em janeiro de 2024 para 62 milhões em janeiro de 2025, crescimento de 44% em um ano, segundo o Portal de Dados do Open Finance Brasil. As fintechs de crédito integradas ao sistema passaram de 28% para 44% no mesmo período, conforme levantamento da PwC Brasil e da Associação Brasileira de Crédito Digital. Em 2024, 44 fintechs mapeadas pela mesma pesquisa concederam R$ 35,5 bilhões em crédito, alta de 68% em relação ao ano anterior. Dos clientes atendidos, 71,7% eram micro e pequenas empresas. Os números indicam uma mudança de relevância prática, não apenas de tese de mercado.

A inteligência artificial potencializa esse modelo ao permitir ajustes dinâmicos de limite, identificação de anomalias e recomendações em tempo real. Mas a tecnologia, sozinha, não substitui a proximidade com o cliente. O diferencial de um ecossistema integrado é exatamente esse: o crédito deixa de ser um processo paralelo e passa a ser parte da experiência do empreendedor. Ele acessa antecipação de recebíveis dentro da própria plataforma onde opera, sem navegar por formulários ou aguardar análises que não levam em conta o que ele demonstra todos os dias.

Para o sistema financeiro tradicional, o pequeno empreendedor continua sendo uma incógnita. Para um ecossistema que o acompanha diariamente, ele é um dado com histórico, com padrão e com potencial mensurável. Transformar essa proximidade em crédito mais justo e mais acessível não é apenas uma oportunidade de negócio. É a condição para que milhões de pequenos negócios deixem de operar à margem do sistema financeiro e comecem a crescer com ele.

*Bruno Henriques, CEO do iFood Pago e COO do iFood

AutorDa Redação
FonteExame
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