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Sacre Investimentos
NegóciosMPOLACS
16/10/2026
10 min

Como ele transforma lixo em dinheiro por meio de um negócio de R$ 47 milhões

Negócio criado por um ex-funcionário da Firjan atende gigantes como Ambev e JBS e amplia investimentos para fornecer materiais reciclados à indústria

Como ele transforma lixo em dinheiro por meio de um negócio de R$ 47 milhões
RESUMO +

A Polen, empresa de tecnologia voltada à cadeia de resíduos, prevê encerrar 2026 com faturamento de R$ 47 milhões, alta de 34,3% ante 2025. Para 2027, projeta crescimento de 40% a 50% e receita acima de R$ 70 milhões. A estratégia inclui ampliar de seis para dez hubs de reciclagem e desenvolver ferramentas de inteligência artificial.

Transformar lixo em dinheiro é um negócioque vem ganhando escala no Brasil. De olho nas empresas que precisam comprovar a reciclagem de suas embalagens e incorporar materiais reciclados à produção, a Polen está ampliando sua atuação na cadeia de resíduos.

A companhia, fundada pelo empreendedor Renato Paquet, prevê encerrar 2026 com faturamento de R$ 47 milhões, crescimento de 34,3% sobre os R$ 35 milhões registrados no ano passado.

O plano é acelerar ainda mais em 2027, quando a empresa espera crescer entre 40% e 50%. Se as projeções se confirmarem, o faturamento poderá passar dos R$ 70 milhões. Para isso, a Polen aposta na abertura de unidades próprias de reciclagem, no desenvolvimento de ferramentas de inteligência artificial e no aumento das exigências ambientais impostas à indústria.

A empresa já atende mais de 400 clientes, entre eles Ambev, JBS, Electrolux, Tramontina e Vivo, além de trabalhar com entidades setoriais. Agora, pretende ampliar sua rede de seis para dez centros de triagem e comercialização de materiais recicláveis, chamados de hubs, com investimentos de aproximadamente R$ 2 milhões por unidade.

"A gente sempre foi uma empresa de tecnologia trabalhando para resíduo", afirma Paquet, fundador da Polen. A expansão das obrigações ambientais criou oportunidades para desenvolver novos serviços e avançar sobre outras etapas da cadeia de reciclagem.

A mudança representa um novo capítulo para uma empresa que começou conectando indústriasinteressadas em comprar e vender resíduos e acabou encontrando um negócio mais promissor na necessidade de comprovar a destinação desses materiais.

Como nasceu a Polen

A relação de Renato Paquet, de 34 anos, com o meio ambiente começou muito antes da criação da empresa. Ele cresceu dentro de uma área de proteção ambiental e, até os 17 anos, tinha como principal ambição assumir a gestão daquela unidade de conservação.

Foi essa vontade que o levou a estudar Ecologia na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Durante a graduação, porém, a revisão do Código Florestal, em 2012, fez com que reconsiderasse seus planos profissionais.

Paquet percebeu que poderia trabalhar com conservação ambiental também dentro da iniciativa privada. Passou pelo Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS) e, posteriormente, pela Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan).

Na Firjan, onde trabalhou por dois anos, desenvolveu uma proposta para reestruturar uma plataforma de gestão de resíduos industriais. A ideia não foi adiante dentro da entidade.

Em janeiro de 2017, decidiu deixar o emprego para criar o próprio negócio. Nascia a Polen.

O empreendedor, entretanto, tinha experiência ambiental, mas pouco conhecimento de administração. Não dominava conceitos financeiros, marketingou vendas e tampouco dispunha de capital familiar para financiar a operação.

"Eu não sabia absolutamente nada de como tocar uma empresa, não sabia o que era um DRE, não sabia o que era balanço, não sabia nada de marketing, vendas", lembra.

Na época, Paquet também trabalhava como músico e utilizava parte do dinheiro obtido com apresentações para sustentar os primeiros passos do negócio.

Ainda em 2017, ingressou no Founder Institute, programa de formação de empreendedores. A experiência ajudou a estruturar a companhia, que lançou sua primeira plataforma em janeiro de 2018, depois de receber recursos de investidores-anjo.

O projeto inicial funcionava como uma espécie de "Mercado Livre" dos resíduos industriais. Empresas poderiam anunciar materiais que desejavam vender ou cadastrar demandas por matérias-primas recicláveis. A Polen faria a conexão entre as partes e organizaria pagamentos, transporte, seguros e garantias de qualidade.

O problema era ganhar escala. Para funcionar, a plataforma precisava reunir um grande número de compradores e vendedores, o que exigia investimentos superiores aos recursos disponíveis.

A saída veio de uma demanda inesperada de uma cliente.

Como uma cliente mudou o rumo da empresa

Em 2019, uma fabricante de cosméticosprocurou a Polen com um problema. A companhia precisava comprovar o cumprimento de suas obrigações de logística reversa, mas não conseguia acompanhar com precisão o destino dos recursos aplicados na reciclagem.

Naquele momento, a Polen já havia desenvolvido uma tecnologia de rastreabilidade baseada em blockchain para acompanhar o transporte de resíduos entre indústrias.

A cliente queria contratar apenas essa ferramenta, mas Paquet inicialmente recusou a proposta. A empresa estava concentrada no marketplace e não pretendia vender o sistema separadamente.

A insistência da executiva fez o empreendedor reconsiderar a estratégia. Ele e seu sócio, Lucas, passaram a conversar com outras indústrias para entender se a falta de rastreabilidade era um problema recorrente.

Descobriram que sim. Entre setembro e outubro de 2019, a Polen abandonou o marketplace original e passou a concentrar seus esforços na logística reversa de embalagens.

O modelo consiste em ajudar fabricantes a comprovar a recuperação e a destinação de resíduos equivalentes a parte das embalagens que colocam no mercado. Para isso, a empresa conecta indústrias a cooperativas, catadores e operadores de reciclagem, acompanhando as operações por meio de tecnologia.

A rastreabilidade permite documentar a movimentação dos materiais e fornecer informações sobre os resultados da operação, algo relevante para empresas sujeitas a obrigações ambientais.

A mudança abriu caminho para a expansão da carteira de clientes. Segundo Paquet, a companhia ganhou tração especialmente a partir da pandemia, acompanhando o avanço das exigências regulatórias e da demanda das empresas por comprovação dos resultados de suas iniciativas ambientais.

Hoje, além dos clientes contratados diretamente, a Polen trabalha com entidades como a Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove) e a Associação Brasileira de Reciclagem de Eletroeletrônicos e Eletrodomésticos (Abree).

Na avaliação do fundador, conquistar grandes empresas ajudou a abrir portas em outros segmentos.

"Quando você tem indústrias que são as maiores do mundo em seus setores, como Ambev, como grupo JF, da JBS, e outros confiando na Polen, isso te valida", afirma.

Quanto é investindo em cada hub

A nova etapa da Polen começou em novembro de 2024, quando a companhia inaugurou, em Porto Alegre, sua primeira unidade da Polen Materiais, divisão criada para fornecer matérias-primas recicláveis diretamente à indústria.

A decisão está relacionada a uma nova demanda do mercado. Além de comprovar a recuperação de embalagens pós-consumo, fabricantes passaram a enfrentar exigências para incorporar conteúdo reciclado a seus produtos.

Isso criou uma dificuldade adicional: encontrar materiais recicláveis com qualidade, características e fornecimento suficientemente padronizados para atender às linhas industriais.

A Polen enxergou uma oportunidade de atuar também como fornecedora. Nos hubs, a empresa compra resíduos de cooperativas e catadores autônomos, realiza a separação e a requalificação dos materiais e depois os comercializa para a indústria.

Um exemplo é o PET. Dependendo da origem, o material pode chegar com cores misturadas, rótulos ou diferentes padrões de separação. Essa falta de uniformidade dificulta seu aproveitamento industrial.

"Você fornece uma tonelada de PET para uma indústria, cada cooperativa e cada local separa essa tonelada de PET de uma maneira", explica Paquet.

O papel dos hubs é reduzir essas diferenças e oferecer materiais com maior padronização.

A rede já conta com seis unidades, localizadas em Porto Alegre (RS), Itajaí (SC), Curitiba (PR), Betim (MG), Rio de Janeiro (RJ) e Salvador (BA). Os próximos endereços previstos são Campo Grande (MS), Goiânia (GO), Recife (PE) e São Paulo (SP). A meta informada pela empresa é alcançar dez unidades até o encerramento de 2026.

Cada instalação exige aproximadamente R$ 2 milhões, incluindo equipamentos, adaptações de infraestrutura, licenciamento ambiental e outros custos.

Considerando esse investimento médio, as quatro novas unidades representam um desembolso estimado de R$ 8 milhões.

A escolha dos endereços também é orientada por tecnologia. A Polen utiliza um sistema próprio para avaliar o volume de resíduos gerados em cada região, a presença de cooperativas, a proximidade de indústrias recicladoras e a concorrência de outros operadores.

Essas informações ajudam a identificar localidades com maior potencial comercial e logístico.

Com a expansão, a empresa pretende ampliar a capacidade de fornecimento de materiais e aumentar a participação dessa atividade em suas receitas.

Como a inteligência artificial entra no negócio da reciclagem

A aposta em infraestrutura física não significa abandonar a tecnologia que deu origem à Polen.

A companhia também desenvolveu a Atlas, plataforma na qual as indústrias podem cadastrar informações sobre suas embalagens para calcular necessidades de recuperação de resíduos e planejar o cumprimento das exigências ambientais.

Dentro da ferramenta, a Polen incorporou uma solução de inteligência artificial chamada Circular AI.

O sistema cruza informações sobre composição das embalagens, fornecedores e preços de matérias-primas para ajudar os fabricantes a decidir onde incorporar materiais reciclados com menor impacto financeiro.

A proposta é especialmente relevante para empresas com milhares de produtos e diferentes tipos de embalagem.

Em vez de distribuir o mesmo percentual de conteúdo reciclado por todo o portfólio, a ferramenta permite avaliar alternativas e identificar quais mudanças podem ser mais eficientes.

Segundo Paquet, a tecnologia considera fatores como a localização dos fornecedores, o custo dos materiais e os efeitos das substituições sobre o conjunto de embalagens da indústria.

"Ela vai te dizer qual é a melhor embalagem para você introduzir material reciclável, quem é o melhor fornecedor perto de você, qual seria o impacto disso dentro do seu portfólio", afirma.

O modelo comercial também permite à Polen capturar parte da economia gerada para os clientes.

Para o empreendedor, a combinação de novas soluções digitais com o avanço da Polen Materiais está entre os principais fatores que deverão sustentar o crescimento nos próximos anos.

Qual é o papel dos catadores e das cooperativas nessa expansão

Além do fornecimento de materiais recicláveis, a Polen tenta enfrentar um dos problemas estruturais do setor: a informalidade de parte dos trabalhadores responsáveis pela coleta.

Nos hubs, a empresa desenvolveu um programa de apoio a catadores autônomos que inclui auxílio para abertura de MEI, regularização de documentos e emissão de notas fiscais.

As unidades também contam, segundo Paquet, com assistentes sociais e espaços destinados à educação de jovens e adultos. A proposta é oferecer alfabetização, continuidade dos estudos e orientações sobre gestão financeira e outros aspectos da vida profissional.

O trabalho se estende às cooperativas que integram a cadeia de fornecimento.

A Polen afirma investir recursos na compra de equipamentos, melhoria de galpões e contratação de serviços de contabilidade e assessoria jurídica. Também oferece capacitação em gestão, marketing e vendas.

Na avaliação do fundador, o aumento dos índices de reciclagem no Brasil depende de uma estrutura mais profissionalizada na base da cadeia.

O empreendedor também defende uma mudança na forma como as cooperativas são tratadas pelo mercado. Em sua avaliação, essas organizações precisam ser reconhecidas como negócios que necessitam de investimentos, gestão e capacidade de negociação.

"Se a gente precisa reciclar mais e aumentar os índices de reciclagem no Brasil, é ali que tem que ir o investimento", afirma.

AutorGuilherme Gonçalves
FonteExame
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