Como empresa de bastidores da infraestrutura se tornou maior aliada da OpenAI

Por décadas, a Broadcom foi uma gigante que quase ninguém via. Fornecia os componentes invisíveis que fazem a internet funcionar — de chips de rede a semicondutores — sem aparecer para o consumidor final.
Agora, essa empresa de bastidores virou uma das peças mais importantes do plano da OpenAI, dona do ChatGPT, para construir o próprio futuro em silício e depender menos da Nvidia.
A virada foi selada em outubro de 2025, quando as duas empresas anunciaram uma colaboração para desenvolver 10 gigawatts de aceleradores de inteligência artificial (IA) personalizados — chips desenhados sob medida para rodar os modelos da OpenAI.
Com a parceria, a OpenAI projeta os aceleradores, e a Broadcom cuida do desenvolvimento, da fabricação e da instalação dos sistemas, integrando sua própria tecnologia de rede Ethernet.
Na quarta-feira, 8, a Apple também anunciou uma parceria com a Broadcom. O acordo, de mais de mais de US$ 30 bilhões, deve resultar na produção de mais de 15 bilhões de chips feitos em território americano.
O que é a Broadcom?
A Broadcom não constrói modelos de IA e nem aplicativos. O foco da empresa é a infraestrutura e os semicondutores personalizados e os equipamentos de rede que conectam os data centers por dentro.
É um papel discreto, mas que a tornou indispensável na era da IA — a ponto de a empresa se firmar como a principal fabricante de chips sob medida do mundo, os chamados ASICs, alternativa às placas de prateleira da Nvidia.
Segundo dados divulgados pela companhia, a Broadcom registrou US$ 8,4 bilhões em receita de semicondutores de IA no primeiro trimestre de seu ano fiscal de 2026, alta de 106% em relação ao ano anterior.
O presidente-executivo, Hock Tan, afirmou a investidores que a empresa tem "linha de visão" para superar US$ 100 bilhões em receita de chips de IA em 2027, amparada por uma carteira de pedidos de US$ 73 bilhões.
Sabor de Jalapeño
Jalapeño: chip da OpenAI quer diminuir dependência da empresa da Nvidia (X/Reprodução)
A colaboração ganhou nome e forma.
O primeiro chip da parceria se chama Jalapeño, um acelerador projetado do zero para a etapa de inferência — o momento em que o modelo de IA já treinado gera respostas aos usuários. A primeira instalação está prevista para o fim de 2026, e o projeto se estende até o fim de 2029.
Ao desenhar o próprio silício, a OpenAI pode embutir no hardware o que aprendeu construindo seus modelos, reduzindo o custo por consulta.
Com mais de 800 milhões de usuários ativos por semana, mesmo um ganho modesto de eficiência por resposta se traduz em economia de bilhões de dólares ao ano — um alívio para uma empresa que ainda opera no prejuízo.
A divisão de trabalho
O acordo tem uma divisão clara de papéis.
A OpenAI leva seu conhecimento profundo sobre como os modelos de linguagem funcionam diretamente para a arquitetura do chip. A Broadcom entra com a engenharia que transforma esse projeto em hardware real, apoiada em uma tecnologia de encapsulamento avançado que a empresa desenvolveu ao longo de mais de cinco anos.
Não é a primeira vez que a Broadcom faz isso. A empresa mantém seis grandes clientes de chips personalizados, entre eles o Google — parceiro desde 2014, com sete gerações de chips TPU co-desenvolvidos — e a Meta, que também fechou acordo para produzir seu chip MTIA.
A diferença, no caso da OpenAI, é a escala e o simbolismo. A dona do ChatGPT, maior expoente da atual onda de IA, escolheu a Broadcom para se emancipar da Nvidia. E o mercado pode seguir o mesmo caminho.
