Como esta empresa vai faturar R$ 350 milhões barrando golpes na era da IA

Quando a Certisign nasceu, em 1996, a internet brasileira ainda engatinhava. Trinta anos depois, a empresa que começou vendendo certificados de segurança para sites tenta se reposicionar em um mercado muito mais amplo: o de confiança digital.
A mudança acontece em um momento em que os golpes online se tornaram parte da rotina dos brasileiros. Segundo a pesquisa Radar Febraban, o percentual de pessoas que sofreram ou foram alvo de tentativas de golpes subiu de 33%, em setembro de 2024, para 38%, em março de 2025. O levantamento aponta ainda que os bancos investiram cerca de R$ 5 bilhões em segurança e prevenção a fraudes e crimes cibernéticos no ano passado.
É nesse ambiente que a Certisign tenta acelerar. A empresa faturou R$ 320 milhões em 2025 e mira uma receita de R$ 350 milhões neste ano. Hoje, soma mais de 18 milhões de certificados digitais emitidos, mais de meio bilhão de documentos assinados em sua plataforma e cerca de 400 funcionários.
“Hoje, a nossa principal fortaleza é a identificação. O que nós vendemos é confiança”, afirma Marco Americo Deneszczuk Antonio, CEO da Certisign.
Do cadeado do navegador à biometria facial
A Certisign começou com os certificados SSL, tecnologia que criptografa a conexão entre o navegador e um site. É o recurso que ajudou a tornar possíveis operações como internet banking e compras online.
Em 2001, com a criação da Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira, a ICP-Brasil, a empresa passou a emitir certificados digitais como o e-CPF e o e-CNPJ. Na prática, são documentos eletrônicos usados para provar a identidade de uma pessoa ou empresa em transações digitais.
“Eu sempre digo que o certificado digital é como uma caneta eletrônica. E dentro dessa caneta, a tinta é a sua identidade”, diz Marco.
Hoje, a companhia atua em três frentes principais: certificados digitais, assinaturas eletrônicas e identificação biométrica. Essa última virou uma das áreas mais estratégicas diante do avanço de fraudes mais sofisticadas, inclusive com uso de inteligência artificial.
Como barrar um deepfake
Segundo Marco, a explosão de golpes no Brasil está diretamente ligada à digitalização da vida financeira e pessoal. “Hoje, praticamente você tem tudo que precisa no celular. Você pede comida, transporte, tem documentos, faz transações no mercado financeiro, compra passagens. A sua vida basicamente está toda dentro do celular”, afirma.
Para tentar reduzir esse risco, a Certisign usa biometria facial, comparação com bases de dados e uma tecnologia chamada liveness 3D, ou prova de vida em três dimensões. O objetivo é verificar se há uma pessoa real do outro lado da câmera — e não uma imagem, gravação ou avatar criado por IA.
“O liveness 3D identifica se quem está do outro lado da câmera é um ser humano ou se não é um ser humano. Depois, pegamos os vetores biométricos da face e comparamos com bases de dados para entender se a pessoa é ela mesma”, diz o CEO.
A tecnologia é usada tanto na emissão de certificados digitais quanto em processos de assinatura e identificação para empresas. Um exemplo é a abertura de contas em bancos, em que a checagem biométrica ajuda a reduzir tentativas de fraude no onboarding de novos clientes.
Em que a CertSign aplicará R$ 15 milhões
Para acelerar essa transformação, a Certisign está investindo R$ 15 milhões em tecnologia neste ano. Parte relevante do dinheiro foi destinada ao Validador 3.0, plataforma que moderniza a emissão de certificados digitais.
Antes, o processo podia levar perto de meia hora. Agora, segundo Marco, a validação ocorre em cerca de dez minutos. O release da companhia fala em redução superior a 40% no tempo médio de atendimento.
A emissão de um certificado exige uma espécie de “cerimônia” de validação. O cliente apresenta documentos, passa por biometria facial e, em alguns casos presenciais, pela coleta de digitais. Também há análise documental para checar se os papéis apresentados são verdadeiros.
“Esse projeto é para fazer com que a interação entre o agente de registro e o usuário final seja feita numa velocidade muito maior”, afirma Marco.
Assinatura digital, mas com peso jurídico
Além dos certificados, a Certisign tem uma plataforma de assinaturas digitais lançada entre 2012 e 2013. Nela, já foram formalizados mais de 500 milhões de documentos.
O diferencial, segundo o CEO, está no uso do certificado digital em assinaturas de maior valor jurídico. No Brasil, há três tipos de assinatura eletrônica: simples, avançada e qualificada.
A qualificada é feita com certificado digital ICP-Brasil e tem o maior grau de presunção de autenticidade.
“Ela é irrefutável. Você não tem como questionar que aquele documento foi assinado por você mesmo. O ônus da prova se inverte”, diz Marco.
O próximo mercado: agentes de IA
A empresa também começa a olhar para uma nova fronteira: a identificação de agentes de inteligência artificial.
A ideia ainda está em avaliação, mas parte de uma pergunta que deve ganhar importância nos próximos anos: como provar que um agente de IA pertence a determinada empresa, tem uma autorização específica e pode executar certas tarefas?
“É uma solução para identificação não humana de agentes de IA. A empresa conseguiria emitir certificados digitais para esses agentes dizendo de quem eles são, para quem servem e qual o nível de delegação que têm”, afirma o CEO.
Quem é o CEO
Marco chegou à Certisign em abril de 2023. Formado em engenharia eletrônica pela Mauá, tem 35 anos de carreira e passou por empresas como Xerox, Alcatel, Diveo e DocuSign.
Na Diveo, participou da chegada dos grandes data centers comerciais ao Brasil no início dos anos 2000. Depois, ajudou a construir a operação da DocuSign na América Latina — justamente uma concorrente da Certisign no mercado de formalização eletrônica.
“Naquela época, a empresa a ser batida pela DocuSign era a Certisign”, diz.
Agora, do outro lado da mesa, ele tenta conduzir uma reinvenção da companhia. A Certisign deixou de se posicionar apenas como autoridade certificadora para se apresentar como uma empresa de tecnologia e serviços de confiança.
O negócio da confiança
A aposta é que, quanto mais digital a economia se torna, maior será a demanda por mecanismos que provem quem está do outro lado da tela.
No passado, a Certisign ajudou a proteger conexões. Agora, quer proteger identidades.
“Garantimos que quem está formalizando o documento é a própria pessoa e que aquele documento foi formalizado de forma íntegra”, afirma o CEO.
Em um país onde as tentativas de golpe já atingem quase quatro em cada dez brasileiros, a confiança virou produto. E a Certisign quer vendê-la como plataforma.
