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Sacre Investimentos
NegóciosMPOL
04/07/2026
5 min

Como esta farmacêutica brasileira fatura R$ 780 milhões com um mercado esquecido pela indústria

Como esta farmacêutica brasileira fatura R$ 780 milhões com um mercado esquecido pela indústria

A indústria farmacêutica avançou muito na saúde da mulher entre os anos 1960 e 1980, com a chegada dos contraceptivos, e depois parou.

O dinheiro dos grandes laboratórios migrou para áreas como oncologia e doenças raras, e a saúde feminina ficou anos sem grandes novidades. Não porque os problemas estivessem resolvidos, mas porque o foco global foi para outro lugar.

Foi nesse espaço que a Libbs, farmacêutica 100% brasileira com 68 anos de história, construiu uma das áreas mais rentáveis da companhia.

A saúde feminina movimenta cerca de 780 milhões de reais por ano e responde por 18,5% do faturamento bruto da empresa. A companhia é líder histórica nos segmentos de contracepção e de terapia hormonal para a menopausa, e tratou cerca de 3,4 milhões de pacientes em 2025.

Depois de anos com um portfólio maduro, a empresa retomou o ritmo de lançamentos.

Em 2025, trouxe ao país o Nextela, contraceptivo oral com uma nova molécula. Agora, acaba de lançar o Zaila, um probiótico, suplemento com microrganismos vivos, voltado à saúde vaginal, em parceria com a dinamarquesa Novonesis. É a primeira vez em muito tempo que a área recebe dois produtos novos em um intervalo tão curto.

"A gente normalmente cresceu e se desenvolveu muito em cima de similares. Hoje isso já é tipificado. Qual é a próxima grande necessidade?", diz Anna Guembes, diretora de Inovação e Desenvolvimento de Negócios da Libbs, sobre a decisão de investir em áreas que as multinacionais deixaram de lado.

Segundo ela, saúde feminina e cardiologia são exemplos de mercados que "avançaram muito no passado e depois deram uma parada", enquanto os grandes investimentos da indústria iam para oncologia e doenças raras.

Para os próximos anos, a Libbs quer transformar um portfólio maduro em um portfólio atualizado.

A empresa afirma ter um potencial novo lançamento para a menopausa ainda em 2026, dependendo de aprovação regulatória, e diz ter retomado o ritmo de lançamentos na área para os anos seguintes. A companhia investiu 208,5 milhões de reais em pesquisa, desenvolvimento e inovação em 2025 e tem um pipeline com mais de 60 itens.

Um mercado que a indústria global deixou parado

A explicação para o vácuo na saúde feminina, segundo a Libbs, é de foco, e não de falta de demanda.

Houve muito avanço na contracepção no passado, e o setor passou a tratar o tema como resolvido. O investimento da indústria migrou para outras áreas do conhecimento, como oncologia e doenças raras, e a saúde feminina ficou com menos novidades mesmo com necessidades médicas ainda não atendidas.

Essa lacuna abriu espaço para empresas que atuam em nichos que as multinacionais consideram pouco rentáveis.

Segundo Anna, há mercados que as grandes companhias globais não priorizam por serem menores ou por não oferecerem o retorno que elas buscam. É nesse espaço que a Libbs diz atuar bem, muitas vezes desenvolvendo soluções para o mercado local.

O peso da saúde feminina no negócio

A área de ginecologia é uma das mais relevantes da Libbs. Além dos 18,5% do faturamento bruto, ela reúne um portfólio de 19 marcas e 33 apresentações, formas em que um medicamento é oferecido, como comprimido, cápsula ou dose.

A empresa é líder histórica em contracepção e em terapia hormonal para a menopausa, duas frentes que sustentam o negócio há anos.

O desafio da companhia é renovar essa base. Por ter crescido em um mercado que ficou parado, o portfólio de saúde feminina é mais maduro que o de outras áreas da empresa. A estratégia recente, com Nextela e Zaila, é justamente atualizar essa carteira e aproximá-la das necessidades atuais das pacientes.

A aposta em probióticos e o trabalho de convencer o médico

O Zaila chega em um momento em que a Anvisa passou a permitir o registro de probióticos com indicações além da saúde gastrointestinal. Até pouco tempo atrás, não era possível registrar no Brasil um probiótico voltado à microbiota vaginal, mesmo havendo evidência clínica.

A mudança de posicionamento da agência abriu a porta para o produto.

O suplemento combina duas cepas de lactobacilos, os Lacticaseibacillus rhamnosus GR-1 e Limosilactobacillus reuteri RC-14, que estão entre as mais estudadas do mundo para a saúde vaginal. A Libbs afirma que será a única no mercado nacional com essa combinação, e que a parceira Novonesis reúne mais de 40 estudos ligados às cepas.

Mas o produto novo enfrenta um obstáculo antigo: convencer o médico. Anna afirma que boa parte dos ginecologistas já reconhece a importância da flora vaginal, mas que faltava uma opção aprovada no país. A empresa precisa mostrar à classe médica que cada cepa tem uma indicação específica, com respaldo de estudos, para que o profissional faça a melhor escolha para a paciente.

A companhia já enfrentou uma resistência parecida antes.

Quando trouxe biossimilares, versões de medicamentos biológicos, ao Brasil por volta de 2012, os médicos tinham receio de usar o produto em pacientes oncológicos, o que dificultava até o recrutamento para estudos clínicos. Segundo Anna, foi preciso apresentar dados pré-clínicos e clínicos até chegar a cerca de 30% de participação de mercado no primeiro ano.

Por que o Brasil quase não cria remédio inovador

A trajetória da Libbs também expõe um limite do país. Anna afirma que o Brasil é o sétimo maior mercado farmacêutico do mundo, mas representa cerca de 1,5% do mercado global, enquanto os Estados Unidos respondem por perto de metade.

Desenvolver um produto voltado só para o Brasil, diz ela, sai caro demais.

A executiva aponta ainda o custo do dinheiro e a burocracia dos estudos clínicos como entraves, apesar de reconhecer avanços recentes da Anvisa nos prazos.

O paradoxo, segundo ela, é que a população brasileira seria uma das melhores do mundo para estudo clínico, por ser heterogênea e representativa, e que o país exporta pesquisadores que trabalham com mais agilidade fora.

AutorDaniel Giussani
FonteExame
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