Pular para o conteúdo principal
Sacre Investimentos
NegóciosMPOL
29/06/2026
5 min

Como esta fintech faz R$ 100 milhões com crédito para tratamentos odontológicos

Como esta fintech faz R$ 100 milhões com crédito para tratamentos odontológicos

O acesso a tratamentosodontológicos no Brasil muitas vezes esbarra no preço. O resultado aparece nas clínicas: agenda vazia e pacientes adiando decisões por falta de condição de pagamento.

Marcelo Lutz e Roberto Biselli decidiram criar uma empresa para reduzir essa dificuldade. Em 2021, nasce a Capim, uma fintech que conecta clínicas e pacientes por meio de soluções de crédito. A clínica recebe à vista e o paciente parcela o tratamento com a fintech, em até 36 vezes.

Nos últimos doze meses, a empresa chegou a uma receita de R$ 100 milhões, com mais de 12 mil clínicas atendidas pelo Brasil. Para 2026, a expectativa é chegar a R$ 150 milhões.

No curto prazo, a Capim aposta na combinação entre crédito e pagamentos como motor de crescimento. No médio prazo, a empresa mira ampliar a base de clínicas atendidas no Brasil e avalia expansão internacional, especialmente América Latina.

Origem da Capim

A Capim surgiu depois que Marcelo Lutz e Roberto Biselli se conheceram em um MBA na França. Da vontade de empreender, chegaram a uma percepção de que o setor odontológico brasileiro concentra alta demanda por procedimentos não cobertos por planos de saúde. Segundo os fundadores, a decisão de focar nesse nicho veio após análises do mercado de saúde e da dinâmica de pagamento das clínicas.

O argumento central é que a odontologia tem uma característica diferente da medicina tradicional: boa parte dos procedimentos é previsível e cara, o que aumenta a necessidade de financiamento direto ao paciente. Isso inclui desde implantes até alinhadores e tratamentos estéticos dentários.

"O Brasil é um país referência em odontologia, tem mais de 450 mil dentistas. Apesar disso, milhões de pessoas não têm acesso à odontologia, em muitos casos por falta de condições de pagamento”, diz Marcelo Lutz, cofundador da Capim.

O modelo da Capim é baseado em duas frentes. A principal é o crédito no ponto de venda, usado no momento da consulta. A clínica recebe o valor integral do procedimento, enquanto o paciente assume o parcelamento com a fintech.

Inicialmente, a Capim financiava sua operação por meio de debêntures, títulos de dívida emitidos pela empresa para captar recursos no mercado. Com o crescimento da carteira de crédito, migrou para um FIDC (Fundo de Investimento em Direitos Creditórios), estrutura em que investidores financiam os empréstimos concedidos aos pacientes por meio da aquisição dos direitos de recebimento dessas operações.

"Temos investidores de primeira linha, como Itaú e XP, e uma carteira que conquistou da Moody's o rating AA-, o mais alto para esse tipo de operação de crédito no Brasil”, diz Lutz.

Além do crédito, a empresa passou a atuar com meios de pagamento voltados ao setor, incluindo maquininhas adaptadas à rotina de clínicas odontológicas. A estratégia busca capturar tanto a originação do crédito quanto o fluxo transacional das clínicas. Já são mais de 3,5 mil maquininhas espalhadas pelo Brasil.

“O dentista costuma usar a mesma maquininha de um restaurante ou de uma oficina. Nós pensamos em uma solução desenvolvida para a realidade da odontologia, considerando toda a jornada desse profissional”, diz Roberto Biselli, cofundador da Capim.

Crescimento, escala e uso de tecnologia

O primeiro impulso veio do próprio produto. Como não havia uma solução de crédito especializada para tratamentos odontológicos, a proposta despertou interesse imediato das clínicas. Depois, o crescimento passou a ser sustentado pelo boca a boca entre dentistas e pela participação da empresa em eventos do setor e de encontros promovidos pela própria Capim.

A empresa afirma já ter financiado mais de 100 mil pacientes e estar presente em cerca de 12 mil clínicas no Brasil.

Nos bastidores, a Capim tem ampliado o uso de inteligência artificial em processos internos e de crédito. "Usamos inteligência artificial tanto para apoiar a rotina das clínicas, com agentes que auxiliam na gestão financeira, quanto no desenvolvimento da própria plataforma. Nossa solução de crédito é 98% automatizada e a cobrança mais de 85% também é feita com inteligência artificial", diz Lutz.

Apesar do avanço, a fintech enfrentou um ambiente de juros elevados no Brasil. Esse fator afeta diretamente o custo do crédito e a capacidade de expansão das operações financeiras.

Outro ponto é o aumento de exigências regulatórias para fintechs, o que eleva o custo de compliance e tende a pressionar empresas menores do setor. Ao mesmo tempo, os executivos veem esse movimento como um filtro de mercado.

Os próximos passos

Antes de olhar para outros mercados, a prioridade da Capim continua sendo o Brasil. A empresa atende cerca de 12 mil clínicas.

"Naturalmente, vamos chegar a mais de 50 mil clínicas nos próximos anos", afirma Biselli. Segundo ele, a estratégia é ampliar a oferta de produtos financeiros para esse público, aproveitando uma demanda que, na visão da empresa, ainda é pouco atendida pelos grandes bancos. "Existe um mercado gigantesco no Brasil para outros produtos financeiros", diz.

A internacionalização aparece como um plano de médio prazo. A avaliação dos fundadores é que o Brasil reúne conhecimento e escala em odontologia que podem ser levados para outros países da América Latina, e posteriormente Estados Unidos e Europa.

Essa estratégia ganhou um reforço com a entrada da IFC, braço de investimentos do Banco Mundial, como investidora da empresa. Segundo os executivos, a instituição tem interesse em apoiar tanto o crescimento inorgânico quanto uma futura expansão internacional.

"O Banco Mundial faz parte da Capim hoje, é investidor nosso, e isso dá uma base muito qualificada de investidores, permitindo que a Capim seja mais conservadora, cresça com consistência e pense não só no Brasil, mas em outras regiões do mundo", afirma Lutz.

AutorBianca Camatta
FonteExame
Distribuído por